Quem é mais forte, o racismo ou o capital?

Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro
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Para evitar equívocos ou eventuais desonestidades intelectuais, o livro traz logo na capa: “Uma obra sem efeito jurídico, mas com efeito moral”. A iniciativa de organizar um ‘Código de Defesa e Inclusão do Consumidor Negro’ foi de uma empresa gigante do setor de beleza, que fez lançamento em grande estilo, no maior shopping de um dos bairros mais excludentes do país e do mundo, o Leblon, com direito a apresentação e bate-papo mediado por Lázaro Ramos e uma plateia lotada de personalidades, influencers e intelectuais da comunidade negra, como a escritora Conceição Evaristo, o cineasta Luciano Vidigal e os professores doutores Renato Nogueira, Jaqueline Gomes de Jesus e Aza Njeri. Tudo muito simbólico.

Em resumo, a empresa realizou uma pesquisa sobre a experiência de consumo da população negra, com foco nas classes A e B. O mercado do Luxo. Os resultados alarmantes acenderam um sinal vermelho, pois, como diria minha avó: “dinheiro não aceita desaforo”; mas não só isso. Revelou-se todo um efeito cascata de indignidades e exclusões desde a hora em que um produto é pensado e oferecido sedutor em alguma prateleira, até a hora em que sai embalado nas mãos dos clientes. Provou-se que é urgente promover mudanças fora, mas igualmente dentro das empresas.

Como sempre, as camadas são tantas e tão fundas que faltará espaço, mas vamos a algumas.

A empresa afirmou: “Queremos ser exclusivos sem ser excludentes”. Sentada na audiência, um mar de perguntas e lembranças invadiu minha mente.  O que é luxo?  O que é beleza? Como é possível ser exclusivo sem obrigatoriamente excluir? Como é possível que esta não seja uma iniciativa oficial e COM efeito legal, além do moral? (Esta pergunta é retórica porque a resposta é bem óbvia); Como o ato da compra, um dos filhos preferidos do capitalismo, pode ser tão doloroso para uma parcela gigante — e lucrativa — da população?

Numa tentativa de responder ao menos parcialmente meus próprios questionamentos, entendo a ideia de luxo como relativa a depender do lugar de onde se olha. Para muita gente simplesmente ter água potável ao alcance das mãos é algo luxuosíssimo. Para outros, grandeza é um perfume caro em um free shopping de aeroporto e, para uma ínfima parcela, o auge é ter acesso a uma marca que não exige apenas muito dinheiro, mas hereditariedade e “pedigree”.

Seja qual for o critério, está fora de saída a população da base do mundo, composta por maioria impressionante de pessoas negras. Uma consequência direta do capitalismo, que desde os primórdios subiu nas costas da escravização de africanos e seus descendentes para se firmar . Vem daí parte da resposta para a segunda pergunta, pois a beleza foi ganhando definições que favoreciam exatamente aos que podiam ter acesso ao “luxo”.

Ao longo destes séculos em que o capital se tornou o rei do mundo, a branquitude foi sequestrando para si os padrões de beleza, riqueza, limpeza … e isso explica todo o resto. Explica, por exemplo, a epidemia de cremes cancerígenos para embranquecer a pele no continente africano ou ainda a negação da imagem negra do Brasil sob o manto da mestiçagem. O gosto, sabemos, é ensinado.

Acontece que não existe sociedade sem tensões. As mesmas perguntas que fiz, outros e outras fizeram ao longo de séculos, levando a quebra de muitos paradigmas, padrões, barreiras, interditos … e a formação de  uma classe média negra ávida por pertencer. Ávida por também acessar o “luxo”.

Todavia, é preciso um trabalho árduo e paciente para apagar dos subconscientes quase meio milênio de imagético na pobreza, na feiura, na desumanização e em outros arquétipos negativos. Está na cabeça do segurança, do garçom, da vendedora, do gerente, de outros e outras clientes. Ainda que sejam negros e negras. Ainda que sejam alvos destas mesmas avaliações em bases racistas.

Consumir é capital simbólico fortíssimo. Já dizia o sociólogo Pierre Bourdieu, que essa é uma forma de poder que se manifesta no reconhecimento social, no prestígio e na influência, em como as pessoas são percebidas e valorizadas socialmente. O comércio — e todo o combo que o fomenta desde a publicidade até a boca do caixa — torna-se então um dos campos de batalha mais cruéis nestes ambientes considerados exclusivos.

Que ambientes, e exclusivos para quem?

Uma das lembranças avassaladoras que me tomaram ao ouvir Conceição Evaristo falar brilhantemente sobre a negação da beleza à negritude brasileira (resumi numa frase uma fala maior e belíssima da nossa grande escritora), foi a das quase 4 horas que passei na adolescência, no subsolo de uma loja, acusada de roubo. Coleciono uma quantidade grande de histórias antes e depois deste episódio, em estabelecimentos exclusivos ou não, pois o racismo considera qualquer dignidade para nós como luxo.

Comparada com a maioria das nações do planeta Terra, a legislação brasileira é muito avançada no tocante ao tema racial. Informe que ser racista pode encarcerar alguém no Brasil e observe a reação de qualquer norte americano, por exemplo. No entanto, embora a legislação do país tipifique racismo como crime, ela ainda é míope para enxergá-lo e quando enxerga, quase sempre é morosa na aplicação da lei.

Por fim, o fato constrangedor de que em 35 anos de Código de Defesa do Consumidor, ele não deu conta de abarcar este tema de forma explícita para defender os 54% da população brasileira autodeclarada negra. Foi preciso uma empresa privada literalmente mapear, codificar e elencar situações e medidas específicas, para que o comércio comece a se repensar a fim de abandonar os preconceitos, enxergando consumidores como são: Pessoas.

Uma jogada de marketing? Certamente. No entanto, em um momento em que um número significativo de empresas estão abandonando as políticas de diversidade, seguindo a manada puxada por Donald Trump, é algo bastante interessante, para dizer o mínimo.

Agora aquele “plot twist” que o roteiro exige: Não há cabo de guerra entre racismo e capitalismo. Um dá de comer ao outro harmoniosamente e este é outro assunto longo. No entanto, enquanto não encontramos ou reencontramos outras maneiras de viver em sociedade, que algum respeito seja possível.

 

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