Empreendedorismo social: o que é, como funciona e por que importa

Mais do que filantropia, entenda como negócios sociais geram renda enquanto transformam comunidades
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Por Iago Filgueiras*

Empreendedorismo social é mais do que um modelo de negócio: é uma resposta aos desafios que marcam o nosso tempo. Em vez de focar apenas no lucro, esse tipo de empreendedorismo coloca a transformação de realidades no centro do planejamento estratégico — sejam elas sociais, ambientais ou econômicas.

Nesse modelo de empreendedorismo, inovação, propósito e sustentabilidade financeira se combinam para criar soluções eficazes para problemas concretos.

Ao longo deste artigo, você vai entender o que é empreendedorismo social, quais são suas principais características e como ele se diferencia do empreendedorismo tradicional.

O que é empreendedorismo social?

O empreendedorismo social é uma estratégia de negócios que tem como principal objetivo a solução de problemas sociais, econômicos ou ambientais. É claro que a lucratividade tem um papel importante nesse processo, afinal, ao contrário de organizações do terceiro setor, um empreendimento social precisa gerar receita para garantir a sua continuidade.

Mas, além do retorno financeiro, a capacidade do negócio de transformar a realidade da comunidade é central para que ele seja considerado um exemplo de empreendedorismo social.

Negócios de impacto são responsáveis por transformações sociais, econômicas e ambientais, ao mesmo tempo em que geram receita para manter suas atividades. Foto: Freepik
Negócios de impacto são responsáveis por transformações sociais, econômicas e ambientais, ao mesmo tempo em que geram receita para manter suas atividades. Foto: Freepik

Como surgiu o empreendedorismo social?

O termo empreendedorismo social foi utilizado pela primeira vez em 1972 por Bill Drayton, fundador e presidente da Ashoka, uma organização internacional sem fins lucrativos cujo propósito é incentivar transformações sociais por meio do apoio a projetos de inovação.

Além de Drayton, Muhammad Yunus é outro nome de destaque na popularização do termo. O economista, nascido em Bangladesh, fundou o Banco Grameen, voltado a oferecer empréstimos sem garantias formais a pessoas pobres. A ideia surgiu ao perceber que, sem acesso a crédito, muitos não conseguiam investir em meios próprios de sustento.

Embora esses dois nomes tenham sido fundamentais para a popularização do empreendedorismo social, a criação de empreendimentos para atender a demandas sociais não surgiu com eles. Ao longo da história, outros negócios já foram criados com o mesmo propósito.

Um exemplo clássico é a Sociedade Equitativa dos Pioneiros de Rochdale, uma organização cooperativista fundada em 1844, no Reino Unido. Ela surgiu como uma articulação dos trabalhadores para garantir apoio mútuo e proteção social no contexto da Revolução Industrial, que empurrava cada vez mais os operários para a pobreza. Eles fundaram uma loja para comercializar produtos básicos a preços justos e distribuíam o lucro entre os membros.

Diferença entre empreendedorismo social e empreendedorismo tradicional

Você deve estar se perguntando qual é a diferença entre um empreendedor social e um empreendedor tradicional. Para responder a essa pergunta, é preciso entender que no empreendedorismo tradicional o lucro é o principal objetivo.

Por isso, ao iniciar e desenvolver um novo negócio explorando oportunidades de mercado, o empreendedor tradicional está sempre em busca de novas formas de assegurar ou aumentar a lucratividade.

Já no empreendedorismo social, as oportunidades de mercado aparecem justamente como uma forma de resolver problemas socioeconômicos e ambientais, ao mesmo tempo em que se gera receita para a continuidade do negócio.

Vale dizer que as ações de responsabilidade social que muitas empresas desenvolvem não costumam ser classificadas como uma forma de empreendedorismo social, já que são ações pontuais que, em geral, não são o objetivo central do negócio, sendo percebidas como uma prática de ESG.

Quais são os três pilares do empreendedorismo social?

O empreendedorismo social não se constrói apenas com boas intenções, mas também sobre a capacidade de transformar problemas complexos em soluções viáveis.

Seja combatendo desigualdades, promovendo sustentabilidade ou gerando oportunidades, esse modelo de negócios exige uma análise crítica da realidade, a identificação de uma oportunidade e a capacidade de mensurar o impacto causado.

Analisar a realidade, identificar oportunidades e possibilidades de atuação são etapas fundamentais para desenvolver um empreendimento com impacto social. Imagem: reprodução
Analisar a realidade, identificar oportunidades e possibilidades de atuação são etapas fundamentais para desenvolver um empreendimento com impacto social. Imagem: reprodução

Por isso, os três pilares do empreendedorismo social são fundamentais para guiar a construção de um modelo de negócios que possa promover mudanças práticas.

Observar e diagnosticar

Sabe aquele incômodo ao ver uma injustiça, uma sensação de impotência frente à desigualdade ou até mesmo um sentimento de revolta ao perceber a razão do sofrimento de alguém? Essa capacidade de reconhecer uma realidade injusta é o primeiro passo para quem quer iniciar um negócio que impacte positivamente a comunidade ao seu redor.

Além de reconhecer o problema, é preciso ir atrás de dados, indicadores e outros materiais que possam te auxiliar a identificar as raízes dessa desigualdade. Todo esse processo deve ser contínuo e não restrito apenas ao momento da elaboração do empreendimento, afinal, ser capaz de reconhecer e se adaptar às mudanças ao seu redor é fundamental para a sustentabilidade do negócio.

Reconhecer as oportunidades

Após reconhecer um problema e avaliar suas causas, é preciso identificar uma oportunidade que seja capaz de transformar essa realidade.

Nessa etapa, o pensamento crítico e a criatividade são fundamentais, mas se aprofundar na viabilidade da ideia também. Por isso, é importante identificar novas tecnologias que possam ser utilizadas, tendências de mercado e modelos de negócio.

Impactar a realidade

Com uma oportunidade e um plano de negócios bem estruturado, um empreendimento social é capaz de produzir efeitos práticos na realidade da comunidade e do público-alvo que busca atingir.

Nesse momento, o empreendedor social precisa garantir que, além de impacto, o negócio também consiga se manter financeiramente. Por isso, ser capaz de colaborar e articular com outros agentes, tanto no setor público como privado, é essencial para expandir as possibilidades de captação de recursos.

Além disso, já que o propósito do empreendimento é transformar a realidade, a análise de métricas e indicadores sociais do público impactado é fundamental para compreender se o negócio está atingindo o objetivo e, caso necessário, explorar novos caminhos.

Panorama do empreendedorismo social no Brasil

O empreendedorismo social no Brasil vem crescendo em meio a um cenário desafiador, mas também fértil para a inovação com propósito. Em um país marcado pela desigualdade socioeconômica e graves problemas ambientais, iniciativas voltadas à transformação social têm se tornado uma estratégia viável de geração de renda, inclusão e resolução de problemas estruturais.

Segundo um relatório publicado em 2020 pela Fundação Schwab, o Brasil está entre os dez países com maior atuação nesse tipo de empreendimento. A pesquisa apontou que, em 20 anos, mais de 600 milhões de pessoas foram impactadas por negócios com propósito social em todo o mundo.

Para se ter noção do potencial de transformação que os empreendimentos sociais podem gerar, em 2024 o país movimentou mais de R$ 1 bilhão em moedas sociais, criadas em geral por bancos comunitários ou municipais para incentivar o comércio local.

Segundo o 4º Mapa de Negócios de Impacto Social + Ambiental 2023, elaborado pela PipeLabo, 84% dos negócios de impacto brasileiros já estão formalizados.

O estudo ainda apontou que a maior parte desses empreendimentos tem fins lucrativos, o que reforça uma característica fundamental desse tipo de negócio — a importância da geração de receita para continuar mantendo as atividades. Entre as áreas mais exploradas por empreendedores sociais estão iniciativas com foco no meio ambiente, cidadania e educação.

No entanto, a pesquisa também mostrou uma concentração desigual de iniciativas de empreendedorismo social.  Cerca de 58% estão no sudeste brasileiro — o estado de São Paulo concentra, sozinho, 39% do total. Esse dado revela que, embora muitas organizações atuem em diversos territórios, a concentração de oportunidades ainda é evidente.

Quem são os empreendedores sociais brasileiros?

O perfil do empreendedor social brasileiro é diverso — mas ainda enfrenta desafios quanto à equidade racial e de gênero. O estudo da Pipelabo apontou alguns dados sobre esse cenário. Os homens representam 51% das lideranças nesses tipos de empreendimentos, enquanto as mulheres, 48%. No entanto, no recorte de raça e etnia, apenas 17% dos líderes são pardos e 13% negros, enquanto 33% são chefiados apenas por pessoas brancas.

Relatório da Pipelabo analisou o perfil dos empreendedores sociais e a forma de funcionamento desses negócios em 2023. Foto: Getty Images
Relatório da Pipelabo analisou o perfil dos empreendedores sociais e a forma de funcionamento desses negócios em 2023. Foto: Getty Images

Boa parte dos empreendimentos sociais é composta por equipes pequenas: 43% têm de 2 a 5 integrantes, o que indica um perfil enxuto, colaborativo e com forte presença de redes locais.

As fontes de financiamento representam um desafio significativo para quem quer iniciar um negócio com impacto social. Apenas 30% das iniciativas nunca haviam recebido nenhum tipo de financiamento. Já entre os que receberam, a maior parte dos recursos veio de investimento do próprio bolso, apoio de amigos e familiares ou sócios investidores.

Em geral, os empreendedores sociais brasileiros são engajados, resilientes e dispostos a criar negócios que aliem inovação e enfrentamento de desigualdades. Mas os dados também deixam evidente a necessidade de políticas públicas, redes de apoio e financiamento para que essas iniciativas consigam se desenvolver e gerar impacto positivo.

Desafios

Quem busca empreender com o propósito de impactar positivamente a sociedade precisa enfrentar alguns desafios.

No Brasil, a falta de políticas públicas eficazes para o fomento deste tipo de negócio e as relações de desigualdade que ainda atravessam todo o território nacional escancaram uma contradição — ao mesmo tempo em que o empreendedorismo social tem um grande potencial de transformação, é preciso lidar com muitas das dificuldades estruturais que busca combater.

Aqui estão algumas das principais dificuldades enfrentadas pelos empreendedores sociais no Brasil:

Acesso a financiamento

Muitos negócios de impacto têm dificuldade em acessar linhas de crédito, editais ou investidores que entendam que a sustentabilidade financeira também pode vir acompanhada da transformação social.

Falta de visibilidade e redes de apoio

Empreendedores sociais fora dos grandes centros urbanos ou com perfis sub-representados — como mulheres negras ou indígenas — enfrentam barreiras para se conectar a redes de mentoria, parcerias e oportunidades de crescimento. Isso contribui para a concentração geográfica e racial do setor.

Ambiente regulatório e políticas públicas insuficientes

A falta de políticas públicas específicas para negócios de impacto social e um ambiente regulatório complexo e burocrático dificultam o crescimento desses empreendimentos.

Exemplos de empreendedorismo social no Brasil

O Brasil, com suas profundas desigualdades e diversidade cultural, tornou-se um terreno fértil para iniciativas que unem inovação e impacto social. Diferente de projetos assistenciais pontuais, os empreendimentos sociais brasileiros destacam-se por modelos sustentáveis que resolvem problemas estruturais enquanto geram receita.

Aqui, você vai conhecer alguns exemplos que mostram como o empreendedorismo social funciona na prática.

Banco Palmas

O Banco Palmas é um banco comunitário criado em 1998 no Conjunto Palmeira, bairro da periferia de Fortaleza. Esse empreendimento surgiu como uma estratégia para combater o desemprego, incentivar o comércio local e garantir a geração de renda para os moradores do conjunto.

O banco opera sob os princípios da economia solidária e fornece microcrédito para empreendedores formais e informais que atuam no território. Além disso, criou uma moeda local chamada Palma, que pode ser utilizada dentro da comunidade e incentiva o comércio local.

Agência do Banco Palmas em Fortaleza, Ceará. Foto: Acervo/Banco Palmas
Agência do Banco Palmas em Fortaleza, Ceará. Foto: Acervo/Banco Palmas

Gerando Falcões

Fundada em 2013 pelo empreendedor Edu Lyra, a Gerando Falcões é um ecossistema voltado para o desenvolvimento social e econômico de favelas no Brasil. A organização possui diversos projetos para a capacitação profissional de jovens periféricos, aumento da empregabilidade e geração de renda para as comunidades onde trabalha.

Ao longo de seus mais de dez anos de existência, a Gerando Falcões já impactou positivamente as vidas de mais de 780 mil pessoas, em mais de 5.500 favelas de 26 estados diferentes.

Movimento Black Money

O Movimento Black Money (MBM) é um hub de inovação — um ecossistema voltado para facilitar a colaboração e criação de soluções inovadoras — que tem como objetivo a inserção e autonomia da comunidade negra.

O MBM é responsável por ações como o D’Black Bank, um banco 100% digital que tem como finalidade a criação de facilidades financeiras para o público negro. A iniciativa surge como um esforço para transformar uma realidade complexa: no Brasil, os negros somam 56% da população e representam 51% dos donos dos negócios, no entanto, um empreendedor negro tem mais dificuldade em obter crédito junto aos grandes bancos.

Por isso, a iniciativa busca atuar de forma assertiva e reconhece que um banco gerido por pessoas negras e voltado para a maioria da população é um passo fundamental para um país que busca a igualdade.

Conclusão

Em um país como o Brasil, com tantos desafios estruturais, empreender com propósito é um ato de coragem e visão. Como vimos, os empreendedores sociais transformam dados em ação, injustiças em soluções e comunidades em protagonistas da própria história.

Ainda assim, os empreendedores sociais seguem atuando com criatividade, resiliência e visão de futuro. São eles que mostram, na prática, que é possível construir soluções economicamente viáveis e socialmente justas. Apoiar e fortalecer esse ecossistema não é apenas uma escolha estratégica — é um compromisso com o futuro.

Ainda há obstáculos, como a necessidade de mais políticas públicas e investimentos de impacto, mas o crescimento de negócios sociais reflete um ecossistema em amadurecimento. Como demonstrado ao longo deste artigo, transformar realidades  pode ser um modelo de negócio viável.

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*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu

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