‘Abra o coração’, diz Lula a Macron sobre acordo Mercosul-União Europeia

Em meio à guerra comercial entre EUA e Europa, presidente brasileiro cobra avanço nas negociações durante visita oficial à França
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“Não deixarei a presidência do Mercosul sem esse acordo com a União Europeia”, afirmou o presidente Lula (PT) nesta quinta-feira (5), em Paris, durante declaração conjunta com Emmanuel Macron. Dirigindo-se ao presidente francês, Lula fez um apelo direto: “Abra o coração”.

A resposta de Macron foi diplomática, mas reafirmou a posição tradicional da França: “É um bom acordo para muitos setores, mas traz riscos aos nossos produtores, porque os países do Mercosul não seguem os mesmos níveis de regulação. Queremos mais comércio, mas com cláusulas de garantia.”

O diálogo ocorreu em um momento decisivo para o futuro do tratado entre o Mercosul e a União Europeia.

A nova ameaça do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor tarifas de até 50% sobre produtos europeus reacendeu o debate dentro do bloco. Especialistas avaliam que o temor de uma guerra comercial pode levar a França a reavaliar sua resistência histórica ao acordo, como forma de mitigar os impactos econômicos da tensão com os EUA.

Resistência francesa a acordo Mercosul-UE e pressões internas

Embora a relação entre Brasil e França seja sólida, a resistência de Macron ao acordo é motivada principalmente pela pressão de setores agrícolas e ambientalistas franceses. A preocupação é que a entrada de produtos do Mercosul — com padrões regulatórios considerados menos rígidos — afete negativamente os produtores locais, gerando protestos como os que paralisaram o país em 2023.

Fontes diplomáticas francesas, no entanto, mantêm a posição oficial: o texto do tratado, concluído em dezembro após 25 anos de negociações, “não é satisfatório”. A principal crítica é de que o acordo não está alinhado com a agenda climática e regulatória da União Europeia.

Sinais de mudança e cálculo político

Ainda assim, observadores apontam sinais de pragmatismo no governo francês. O presidente do Banco Central da França, François Villeroy de Galhau, já declarou que o tratado com o Mercosul poderia ajudar a amortecer os efeitos de um novo protecionismo americano. E, em abril, o ministro das Finanças, Éric Lombard, reconheceu a necessidade de “apressar” as negociações diante da conjuntura internacional.

Outro caminho possível seria a adoção de ajustes no texto — como cláusulas ambientais adicionais ou controles alfandegários mais rigorosos — que permitiriam à França justificar uma mudança de posição sem grande desgaste político interno.

Europa dividida, França isolada?

Para barrar o tratado, são necessários quatro países representando ao menos 35% da população da UE. Atualmente, França, Itália e Polônia manifestam oposição, mas especialistas como Philippe Barbet, da Universidade Sorbonne Paris Nord, avaliam que a França corre o risco de se isolar. “O país não tem apoio suficiente para bloquear o acordo e pode adotar uma postura ambígua: manter a oposição em público, mas não buscar ativamente aliados nos bastidores”.

A balança comercial entre Brasil e França é modesta — cerca de US$ 9 bilhões em 2023 —, mas favorável a Paris, que exporta o dobro do que importa. Com a ameaça de tarifas norte-americanas sobre setores como vinhos, automóveis e transporte, a pressão por novas parcerias pode crescer internamente.

Visita estratégica

Lula e Macron têm mais reuniões previstas nos próximos dias, incluindo uma agenda militar em Toulon e participação no Fórum Econômico Brasil-França. O presidente brasileiro também será homenageado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Paris 8 e terá encontros com empresários e autoridades locais.

Com apoio do presidente do Conselho Europeu, António Costa, que declarou esperar a conclusão do tratado até dezembro deste ano, o governo brasileiro aposta no novo cenário global como oportunidade para destravar um dos acordos comerciais mais longos e controversos da história recente da União Europeia.

O tratado entre os dois blocos foi assinado em dezembro de 2024 durante a 65ª Cúpula de Líderes do Mercosul, em Montevidéu, Uruguai, após 25 anos de negociações. Particularmente, o presidente Lula se empenhou com afinco para que as negociações tivessem um desfecho favorável.

Contudo, até que o acordo passe a valer de fato, há uma série de trâmites burocráticos que precisam ser vencidos. Porém, a pedra maior nessa trilha será enfrentar a resistência de alguns países europeus ao acordo, como França e Holanda.

 

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