Por Cleber Lourenço
Na tentativa de reforçar sua tese de que atuou para conter os atos golpistas do 8 de janeiro, Anderson Torres pediu a quebra do sigilo telefônico do então comandante da Polícia Militar do DF, coronel Fábio Augusto Vieira. A medida, porém, teve efeito reverso: um laudo da Polícia Federal mostrou que Torres não fez nem recebeu ligações, tampouco trocou mensagens com o coronel naquele dia. O documento, que integra a AP 2668, foi produzido pelo Grupo Lesa-Pátria e contradiz diretamente o depoimento prestado por Torres ao STF.
Em interrogatório recente, o ex-ministro da Justiça alegou que teria telefonado para “todo mundo” quando soube, dos Estados Unidos, que a Esplanada dos Ministérios estava sob ataque. Disse, inclusive, ter acionado diretamente o comando da PMDF, responsável pela linha de frente da segurança naquela data.
A checagem feita com base em dados da operadora Claro, no entanto, mostrou que o celular registrado em nome de Fábio Augusto simplesmente não recebeu nenhum contato vindo de Torres. A ausência de registros lança dúvidas sobre a veracidade da narrativa do ex-ministro, que tem apostado na tética de que agiu dentro dos limites do que lhe era possível na ocasião.

O número do coronel foi monitorado especificamente para verificar qualquer tentativa de contato no dia 8 de janeiro. De acordo com a PF, não houve qualquer ligação realizada ou recebida, nem mensagens de texto. O dado derruba o que era uma das últimas tentativas de blindagem de Torres no processo que investiga a trama para manter Jair Bolsonaro no poder após a derrota nas urnas. O documento da PF foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal e incorporado à instrução da ação penal em curso, podendo influenciar diretamente no julgamento dos envolvidos.
Anderson Torres ‘cavou sua própria armadilha’
A estratégia, que parecia uma cartada de defesa, acabou se tornando munição contra o ex-secretário. O silêncio telefônico revelado pela quebra de sigilo reforça a tese de omissão por parte de Torres e fragiliza sua alegação de que tentou agir para evitar os ataques.
A contradição deve pesar na análise da AP 2668, que tramita no Supremo e inclui ainda outros réus ligados à PMDF. Torres, que vem tentando se desvencilhar da imagem de omisso, agora terá de lidar com uma evidência objetiva que desmente sua própria versão, tornando sua situação ainda mais delicada.
O caso também relança questionamentos sobre o papel da Secretaria de Segurança Pública do DF e sobre o cumprimento do Protocolo de Ações Integradas (PAI), que previa a atuação coordenada entre órgãos. No depoimento, Torres classificou o PAI como “gravoso” e reconheceu falha de execução, mas jogou a responsabilidade principal nas costas da PMDF, que, segundo ele, “faz isso há 65 anos”.
Essa tentativa de transferir a culpa tem sido criticada por integrantes da própria polícia e por parlamentares que acompanham o caso, que apontam para uma cadeia de comando que deveria ter sido mobilizada com mais rapidez e eficácia.
Nos bastidores, fontes ouvidas pela reportagem avaliam que Torres apostou alto ao solicitar a quebra do sigilo como forma de comprovar proatividade. Mas o tiro saiu pela culatra. Um assessor com trânsito em tribunais superiores resume a avaliação nos bastidores: “Ele cavou a própria armadilha”. A expectativa agora é que a defesa precise apresentar nova narrativa ou desqualificar tecnicamente o laudo apresentado pela PF, uma tarefa considerada difícil.
Com a inclusão do material no processo, cresce a pressão sobre os demais réus ligados à segurança do Distrito Federal. Além de Torres, estão na mira do STF oficiais da PMDF e outros integrantes da cadeia de comando que teriam sido omissos ou coniventes com os atos golpistas. A decodificação dos fluxos de comunicação e o cruzamento com registros de deslocamento têm sido usados como peças-chave na reconstituição dos fatos que antecederam os ataques de 8 de janeiro.