Criptomoedas, Coaches e Caos: A Direita Pós-Trump em Disputa

O novo partido de Elon Musk pode não dar em nada, mas aponta para um novo momento das direitas globais
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No último sábado, a novela política entre Donald Trump e Elon Musk ganhou um novo capítulo: o bilionário do setor automotivo e espacial anunciou a criação do Partido América (America Party em tradução livre), com a promessa de desafiar o sistema bipartidário dos Estados Unidos.

Musk alega que o “Big Beautiful” (Grande e Bonito, como foi apelidado) projeto de lei tributária de Trump levaria os Estados Unidos à falência.

Um dia depois de perguntar aos seus seguidores na plataforma X se um novo partido político nos EUA deveria ser criado, e após questionáveis 60% de respostas afirmativas (não dá pra saber se foram pessoas, robôs ou ele mesmo, já que é o dono da plataforma)

Musk declarou em uma publicação no sábado que “Hoje, o Partido América foi formado para devolver a vocês sua liberdade”.

Em seguida, afirmou que seu partido também apoiaria o uso de criptomoedas como o  bitcoin.
Embora pouco provável que o projeto do novo partido vá adiante, o movimento chama atenção por apontar transformações internas nas novas direitas globais.

A iniciativa de Musk não chega a ser uma ameaça à Trump – para além da perda de seu principal financiador de campanha – mas se encaixa em um momento interessante, que é o crescimento do libertarianismo no campo da extrema direita.

Geralmente impulsionado por figuras que vêm de fora da política institucional, sobretudo empresários ou empreendedores, o movimento tenta se apresentar como uma terceira via – “nem de esquerda, nem de direita” – anti-establishment.

Desde a chegada de Javier Milei à presidência da Argentina, é possível notar um crescente interesse da extrema direita por ideias libertarianas. Milei se autodeclara “libertário” — mas aqui prefiro o termo libertarianismo, já que esse pensamento está longe de ser libertário.

Trata-se de uma filosofia ultraliberal, que prega o fim do Estado como agente regulador, social ou ambiental. Defende que o capitalismo nunca foi aplicado em sua “forma pura” — isto é, sem regulações, sem impostos, sem serviços públicos, sem programas sociais.

Não raramente, surgem ideias bizarras como a da “escravidão voluntária”, e conexões claras com a cultura incel, com o supremacismo branco e com posicionamentos ultramasculinistas como os propagados pelos donos de bigtechs Mark Zuckerberg e o próprio Elon Musk.

Eu já escrevi sobre o libertarianismo nesta coluna, quando me infiltrei em uma conferência libertariana voltada à estudantes em Praga. O uso de Bitcoin era um dos temas centrais, sobretudo como usar a criptomoeda para evadir impostos, burlar o Estado e operar à margem de qualquer responsabilidade social.

Na coluna de maio, também entrevisto a pesquisadora Bruna Silva, doutoranda em História pela UFJF, associada ao LAHPS e pesquisadora com foco em Direitas, Movimento Libertariano, Tempo Presente e História Digital que faz uma bela análise desse movimento.

Se quiser entender esse assunto mais a fundo, sugiro que dê um pulo na coluna de 02 de maio.

Mas apesar de o libertarianismo tentar vender a imagem de “terceira via”, na prática, muitos de seus representantes vêm se inserindo cada vez mais no jogo político tradicional e a ideologia se dobra diante das possibilidades de poder.

No Brasil, vimos um exemplo emblemático de como esse fenômeno vem causando instabilidades na direita com Pablo Marçal em 2024.

Não me lembro de ele ter se declarado especificamente libertariano mas sem dúvida sua figura representa muito bem esse movimento.

Empresário, coach, cristão, influencer, com discurso neoliberal agressivo e provocador, Marçal capturou parte importante da base bolsonarista nas eleições em São Paulo.

Na época, o próprio Bolsonaro pareceu não saber como reagir ao fenômeno e ficou com um pé em cada canoa.

Mas pessoas como o pastor Silas Malafaia, apoiador fiel de Bolsonaro, chegou a acusar o coach de “dividir a direita” em entrevista à coluna de Mônica Bergamo na Folha de São Paulo: “Eu falei para o Bolsonaro: ‘Se esse cara fosse alguma coisa na direita, eu respeitava. Mas ele só tem ganância e ambição. Vai dividir a direita, vai levar metade do voto evangélico. E você está assistindo a tudo isso calado?’ Marçal é uma farsa. Ele não é perigoso para a direita. Ele é perigoso para a nação”.

Os simpatizantes do libertarianismo – entre eles muitos jovens – são alimentados por promessas de autonomia, meritocracia, e um retorno à masculinidade branca.

Essa nova fase da extrema direita global tem em Trump e Milei seus maiores ícones.

Ambos são vistos como “salvadores” por setores nacionalistas, e adotam métodos autoritários para silenciar opositores, atacar regulações e tentar “recuperar” o país das mãos do que chamam de establishment “woke” ou “esquerdista”.

Mas tudo pode mudar muito rapidamente. Aliados viram inimigos em um piscar de olhos, como vemos no próprio caso Trump – Musk.

Nessa conta também entra a megalomania de Elon Musk e de seus techbros, que adquiriram tanto poder, tanta liberdade e tanto dinheiro nos últimos anos que agora acreditam que podem tudo, inclusive disputar com Estados e Nações.

O conflito entre Trump e Musk pode até parecer engraçado — dois egos bilionários em disputa. Mas o anúncio do Partido América, mesmo que não se concretize, é definitivamente simbólico.

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