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Por Cleber Lourenço

 

O depoimento do tenente-coronel Hélio Ferreira Lima ao Supremo Tribunal Federal não é um detalhe periférico: é um marco que expõe, com clareza inédita, que parte da inteligência do Exército esteve diretamente envolvida na formulação de um plano para prender ministros da mais alta Corte do país.

O chamado “Desenho Operacional Luneta”, elaborado dentro das dependências oficiais da Força, com uso de recursos, doutrina e informações internas, não nasceu de iniciativa pessoal isolada. É fruto da máquina institucional, e suas metas, como a neutralização do ministro Alexandre de Moraes e a prisão preventiva de juízes do Supremo, não deixam margem para interpretação: tratava-se de um roteiro de golpe de Estado.

O coronel da reserva Márcio Nunes ampliou o impacto ao afirmar que o silêncio do Exército diante dos acampamentos golpistas não foi omissão ingênua, mas sim cumplicidade disfarçada. Esses acampamentos, mantidos à vista de todos e diante de quartéis, pediam intervenção militar e afrontavam diretamente o resultado legítimo das eleições. O silêncio, nesse caso, não é passividade: é aval tácito, é mensagem política transmitida pela ausência calculada de ação.

Os depoimentos de Hélio e Márcio desmontam a narrativa reciclada pelo Alto Comando de que as Forças Armadas teriam se mantido neutras. O que se revela é um tripé perigoso: ação direta de setores estratégicos, inação deliberada de quem deveria reagir e acobertamento para proteger a própria corporação.

Nos bastidores, a repercussão foi intensa e carregada de nervosismo e os generais correram para procurarem jornalistas para se livrar da pecha de cúmplices, repetindo a exaustão que nada tinham a ver com reuniões, planos ou articulações — como se fosse possível apagar o silêncio cúmplice de meses. Essa corrida desesperada por distanciamento não é apenas zelo pela biografia: é o medo de ver a história registrar que a cúpula militar, mesmo quando não agiu de forma direta, sustentou pela omissão e pelo acobertamento o ambiente que tornou o 8 de janeiro possível.

A tentativa é inútil — o silêncio cúmplice e a inércia institucional são parte do crime.

Essa reação desesperada não tem relação com a defesa da verdade ou da democracia. É a defesa de biografias, de condecorações e de um prestígio institucional que se vê abalado. O Exército já passou por outros momentos de negação histórica, mas agora lida com provas documentais e testemunhais de que parte significativa de sua cúpula incentivou, articulou ou, no mínimo, tolerou a escalada golpista.

O 8 de janeiro não foi um ato isolado de radicais inconsequentes: foi o desfecho de um ambiente cuidadosamente construído, no qual o Exército, como instituição, desempenhou papel ativo, seja na execução, seja na omissão que permitiu que a ameaça à democracia ganhasse corpo e força.

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