A decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa de 50% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros provocou forte reação de associações industriais e exportadoras. O anúncio, feito pela Casa Branca na quarta-feira (30), pegou de surpresa setores-chave do agronegócio e da indústria de transformação, que alertam para impactos econômicos profundos, imediatos e possivelmente duradouros.
Contudo, já está na mesa do presidente Lula (PT) um plano de contingenciamento preparado por vários ministérios para proteger empregos e a sobrevivência desses setores. Além disso, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, informou nesta quinta-feira (31) que está articulando uma reunião com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, para tentar reverter o tarifaço.
O mercado norte-americano é hoje o principal destino de várias cadeias produtivas brasileiras — especialmente pescado, calçados, plásticos e carnes. Com a exclusão do Brasil da lista de exceções, as entidades pedem ao governo federal a adoção urgente de medidas mitigadoras.
Carne bovina: US$ 1 bilhão em risco no semestre com tarifa de Trump
A carne bovina brasileira também ficou de fora da lista de exceções da Casa Branca. A medida eleva a carga total de impostos sobre o produto para mais de 76%, segundo cálculos da Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes). A entidade estima perdas de cerca de US$ 1 bilhão ainda no segundo semestre de 2025.
Embora o governo federal, por meio do vice-presidente Geraldo Alckmin, tenha sinalizado com novas linhas de financiamento, a Abiec alerta que nenhum outro país conseguiria absorver o volume e o perfil de carne exportado atualmente para os EUA.
Na avaliação do setor, a continuidade do diálogo entre os governos brasileiro e dos EUA, mesmo com a entrada em vigor das tarifas, é vista como um dos poucos caminhos possíveis para reverter ou mitigar os efeitos da medida.
Setor de pescados vê “colapso iminente”
A Abipesca (Associação Brasileira das Indústrias de Pescado) classificou como “alarmante” a manutenção da tarifa, que afeta diretamente 70% das exportações brasileiras do setor, segundo informações do jornal O Globo. Segundo a entidade, não há mercados alternativos de curto prazo para absorver a produção brasileira, o que compromete especialmente regiões como o Ceará, onde empresas são integralmente voltadas à exportação para os EUA.
A entidade projeta um cenário de “colapso” no setor, com risco de uma onda de pedidos de recuperação judicial. “Mais de um milhão de pescadores profissionais serão diretamente afetados”, alertou a Abipesca, que cobra a inclusão imediata da cadeia produtiva em programas emergenciais. As propostas incluem linhas de crédito especiais, apoio financeiro e auxílio emergencial para empresas exportadoras.
Plásticos: ameaça a US$ 2 bilhões em exportações
Também afetada diretamente pela medida, a indústria do plástico teme um impacto de até US$ 2 bilhões em perdas. Segundo a Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), 20% das exportações ligadas direta ou indiretamente ao setor estão ameaçadas.
Para o setor, a elevação da tarifa destrói a competitividade da indústria e ameaça investimentos em tecnologia e inovação, frequentemente originados nos EUA.
Calçadistas preveem demissões imediatas
No setor calçadista, os Estados Unidos representam o principal mercado externo. Com a nova tarifa, a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) estima que 8 mil empregos estão sob risco iminente.
A associação defende medidas de apoio por parte dos governos estaduais e federal, como linhas de financiamento em dólar para cobrir o Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), ampliação do Reintegra, liberação imediata de créditos de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e reedição do programa BEm (Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda).
Impactos no mercado de frutas
A Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas) defende que o governo federal negocie a retirada das frutas da lista de produtos tarifados.
Segundo a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), o Brasil exportou 258 mil toneladas de manga em 2024 para os EUA, movimentando quase R$ 2 bilhões. O Vale do São Francisco responde por 92% dessas vendas. A escalada da guerra comercial com os EUA ameaça não só os grandes exportadores, mas toda a cadeia produtiva regional.
A imposição de uma tarifa de 50% pelos Estados Unidos sobre frutas brasileiras exportadas acendeu o alerta no Vale do São Francisco, principal polo produtor de manga e uva do país. A medida atinge diretamente a comercialização com o mercado norte-americano e ameaça inviabilizar uma das principais safras da região.
As exportações de manga, especialmente da variedade Tommy Atkins — preferida nos EUA —, podem cair até 70% este ano. Segundo a Valexport, a previsão inicial de envio de 48 mil toneladas pode recuar para 13 mil.
A uva segue a mesma tendência. Em 2023, 13.800 toneladas foram enviadas aos EUA. Com o bloqueio, a projeção é de atraso nas exportações e aumento da pressão sobre o mercado doméstico.
A medida afeta diretamente a geração de empregos na região. Em Petrolina (PE), apenas uma fazenda costuma contratar até 700 trabalhadores por safra. Este ano, as contratações temporárias estão suspensas.