Por Cleber Lourenço
A decisão da Mesa Diretora de encaminhar pelo rito ordinário as representações contra os 14 deputados envolvidos na ocupação da Mesa da Câmara acendeu um sinal de alerta na base governista. Para interlocutores do governo, o rito mais longo — que prevê prazos de até 50 dias na Corregedoria antes de eventual envio ao Conselho de Ética — representou não apenas a primeira derrota política de Hugo Motta no comando da Casa, mas também um teste de fogo que expôs fissuras em sua liderança e questionamentos sobre sua capacidade de agir com firmeza em crises institucionais.
Um deputado experiente, falando em caráter reservado, reconheceu que Hugo Motta saiu enfraquecido e que editoriais de imprensa reforçaram essa percepção. Ele relatou que, na quarta-feira anterior, líderes chegaram a se reunir para manifestar apoio ao presidente da Câmara, combinando acompanhá-lo de forma coletiva até o plenário para retomar sua cadeira.
O plano, porém, não se concretizou, e, segundo esse parlamentar, Motta acabou optando por um caminho que, na prática, esvaziou a possibilidade de resposta rápida, permitindo prazos de até quatro meses para manifestação no Conselho de Ética. “Se tudo isso for verdade, ele está fazendo uma escolha. Mas, na minha opinião, isso só vai fragilizar mais ele”, afirmou.
O entendimento entre líderes aliados é que a demora em dar uma resposta imediata transmite fragilidade. Esse vácuo encoraja a oposição a explorar ao máximo o desgaste do presidente e dificulta a construção de consensos para pautas de interesse do Executivo. Na avaliação de parlamentares próximos ao Planalto, a lentidão no processo reduz o efeito pedagógico das punições e reforça a percepção de que dificilmente todos os denunciados serão responsabilizados, corroendo a credibilidade da Casa.

O vice-líder do governo na Câmara, Jilmar Tatto (PT-SP), defende punições exemplares: “Não esses 14 [deputados]. Acho que pelo menos uns três [deputados] ele vai punir. Aí restabelece a autoridade dele”. Nilto Tatto (PT-SP) endossa: “É fundamental levar a cabo as punições devidas àqueles que tomaram de assalto a mesa da Câmara, para repor a autoridade e o respeito à Casa perante a sociedade”.
Hugo Motta e o Congresso
O líder da bancada petista na Câmara, Lindbergh Farias (PT-RJ), foi mais duro, chamando o episódio de “o 8 de Janeiro dos engravatados” e anunciando representação à Procuradoria-Geral da República para investigar os envolvidos por possível prática de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Ele criticou a decisão da Mesa e pediu reunião emergencial para suspensões cautelares imediatas: “Essa semana não pode ser a semana da impunidade. É hora do presidente agir”.
O ex-presidente da Câmara e líder da maioria, Arlindo Chinaglia (PT-SP), reforça que a manutenção da autoridade de Hugo Motta é vital para que a Casa cumpra seu papel: “Primeiro, ele representa o conjunto. Segundo, isso dá condições, através dele, da Câmara jogar o seu melhor papel. É preciso retomar o comando da agenda. Pressão sempre vai haver, mas o que unifica o Brasil é a defesa da democracia e dos interesses do país”.
O temor da base é que a falta de ação rápida abra espaço para novos atos de afronta à presidência e tumultos que travem a agenda legislativa. Com a oposição buscando emplacar projetos como a anistia e mudanças no foro privilegiado, e o governo tentando avançar em pautas como a isenção do Imposto de Renda, o vale-gás e a taxação de grandes fortunas, o cenário se desenha para semanas de intensa disputa política. Se Hugo Motta não conseguir restabelecer o controle, a turbulência poderá comprometer não apenas sua imagem, mas também a capacidade do Executivo de governar com apoio consistente no Congresso.