De influencer a lobista digital: o caso Felca e a pauta da adultização infantil

Uma denúncia feita pelo influenciador Felca sobre a “adultização infantil” nas redes sociais mobilizou milhões de pessoas, gerou mais de 30 projetos de lei no Congresso e expôs, na prática, o poder do lobby digital exercido por um cidadão-stakeholder
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Felca não era um desconhecido na internet. Pelo contrário, com milhões de seguidores no YouTube, Instagram e TikTok, seu conteúdo já circulava com força nas redes. Mas, em 6 de agosto de 2025, ele rompeu a barreira do entretenimento.

O vídeo “adultização” denunciou a sexualização precoce de menores nas redes sociais e, em poucos minutos, deixou de ser um conteúdo digital comum para se tornar gatilho de um movimento nacional. Foi um exemplo contundente do poder do cidadão-stakeholder: alguém que, com audiência e propósito, pauta a conversa pública e a agenda legislativa.

Lobby digital segundo Renard Aron

Para Renard Aron, o lobby digital é a forma contemporânea de pressão política: descentralizado, transparente e potencializado pela internet. Nele, o cidadão-stakeholder — uma pessoa ou grupo diretamente interessado em determinada pauta — utiliza as redes para mobilizar apoio, influenciar a opinião pública e pressionar o poder público. Diferente do modelo tradicional, esse lobby não se limita a reuniões presenciais, muitas vezes reservadas com troca de notas técnicas e minutas de propostas legislativas: ele (o lobby digital) acontece diante de todos, no espaço público digital.

Lobby tradicional vs. cidadão-stakeholder

O lobby tradicional é marcado por articulações discretas entre representantes de interesse e autoridades, geralmente longe do olhar do público. Já o lobby digital é aberto, veloz e plural. Ele se apoia em vídeos virais, campanhas online, hashtags e mobilização instantânea de comunidades virtuais. No caso Felca, essa lógica se concretizou exemplarmente: o influenciador não precisou atravessar corredores e salões do Congresso Nacional — levou o Congresso até suas redes.

Felca como cidadão-stakeholder em ação

Felipe Bressanim Pereira, o Felca, já acumulava mais de 15 milhões de seguidores no Instagram e 11 milhões de inscritos entre YouTube e TikTok antes mesmo do episódio. Reconhecido pelo humor ácido e por vídeos de sátira, ele decidiu colocar sua credibilidade digital a serviço de uma causa: a proteção da infância. O vídeo “adultização” detalhou como conteúdos envolvendo menores estariam sendo explorados para fins sexuais e expôs o chamado “Algoritmo P”, que favoreceria a pulverização desse tipo de material. Publicado sem monetização, o vídeo alcançou quase 30 milhões de visualizações em menos de uma semana.

Vitalização nas redes e sensibilização política

A repercussão foi imediata. Famosos, jornalistas e políticos de diferentes correntes ideológicas se uniram na mesma pauta: combater a sexualização infantil online. O tema dominou discussões digitais, apareceu em programas jornalísticos e mobilizou internautas em uma campanha transversal. Esse alinhamento improvável entre influenciadores, sociedade civil e classe política é exemplo de como o lobby digital pode encurtar distâncias e acelerar respostas institucionais.

Mais de 30 projetos no Congresso Nacional

O impacto político foi tangível. Em poucos dias, surgiram mais de 30 propostas legislativas — popularmente apelidadas de “Lei Felca” — no Congresso Nacional. Elas vão desde a criminalização da adultização infantil até alterações no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Código Penal, passando pela responsabilização das plataformas, retirada de monetização e bloqueio de perfis que explorem crianças com conotação sexual. O episódio mostrou como a pressão digital pode produzir efeito concreto na máquina legislativa.

Proposta de CPI e reconhecimento de Hugo Motta

No Senado, embora uma CPI específica não tenha sido instalada, a mobilização é grande e várias ações estão em andamento. Na Câmara, o presidente, Hugo Motta, anunciou a formação de um grupo de trabalho para consolidar as propostas e avançar na regulamentação da segurança infantil na internet. Em suas redes, fez questão de agradecer publicamente a Felca, afirmando que a pauta seria prioridade na Casa. Foi um reconhecimento direto de que o lobby digital havia cumprido seu papel: sensibilizar e acelerar a ação política.

Notas conclusivas

O caso Felca é sobre como a lógica da influência digital redefine como as pautas chegam ao poder público. Ele demonstra que, no século 21, o lobby pode ser exercido digitalmente, mobilizando e engajando milhões de testemunhas, e por pessoas que não vestem terno ou circulam por gabinetes, mas que têm em mãos um smartphone e uma comunidade engajada. No cruzamento entre redes digitais e parlamento, o cidadão-stakeholder mostrou que a política também pode começar por um vídeo viral e uma causa.

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