Ataques a ônibus expõem falência da política de segurança de SP, criticada até por Trump

Há quase mil registros de ataques a ônibus na capital e na região metropolitana de São Paulo nos últimos dois meses
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Por Gabriel Gomes

Enquanto a política de Segurança Pública de São Paulo é baseada no confronto direto entre as polícias e os suspeitos, o que fez as mortes por letalidade policial aumentarem 61% em 2024, o cidadão paulista está longe de ter como contrapartida a percepção de segurança que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tenta propagar.

A tática do confronto não teve outro resultado além de produzir vítimas e violações dos direitos huamnos. Algo reconhecido até mesmo por Donald Trump, tão elogiado pelo governador, que incluiu em relatório governamental a violência policial de São Paulo para afirmar que a situação dos direitos humanos no Brasil piorou. O documento, divulgado nesta semana, cita as mortes causadas pelas operações Escudo e Verão, que mataram pelo menos 28 pessoas.

No cotidiano, os paulistas têm que enfrentar situações dramáticas de criminalidade que se estendem indefinidamente. É o caso da onda de ataques a ônibus, que completou dois meses na terça-feira (12). Há quase mil registros na capital e na região metropolitana.

Na noite desta quarta-feira (13), um ônibus da linha Vargem Grande – Terminal Santo Amaro foi atacado e incendiado na Estrada da Colônia Mário Reimberg Christe, em Parelheiros, em São Paulo, quando passageiros ainda estavam no veículo. Em vídeos publicados nas redes sociais, é possível ver as cenas de desespero por parte de passageiros.

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O mestre em Ciências Sociais e ex-ouvidor da Polícia Militar de São Paulo (PM-SP), Benedito Mariano, afirma que a Polícia Civil do estado e a Secretaria de Segurança Pública, comandada por Guilherme Derrite (PP), não têm dado a devida atenção ao problema.

“Tudo indica que não é aleatório. A Polícia Civil e a Secretaria de Segurança têm que fazer uma investigação forte para identificar quem são os responsáveis e/ou mandantes desse tipo de depredação, de crime. A polícia e a secretaria ainda não deram a devida atenção para isso, porque já era para ter algum esclarecimento. É muito tempo”, disse em entrevista ao ICL Notícias.

“Vejo com perplexidade, depois de dois meses, ainda não ter chegado a todos as pessoas envolvidas nesse tipo de ação”, completou Benedito Mariano.

Ônibus
Ônibus incendiado em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo.(Foto:Reprodução/Redes Sociais)

Dados da SPTrans, da prefeitura, indicam 626 ataques de 12 de junho até o último domingo (10). Já a Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) conta 341 casos na Grande São Paulo desde 1º de junho. As principais linhas de investigação são disputas entre empresas, desafios de internet e a já descartada participação do crime organizado.

Com um mês de onda de ataques, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), aliado de Tarcísio, chegou a reclamar da demora na conclusão do caso. “Está demorando, reconheço. Até faço aqui uma crítica à Polícia Civil. Porque quando temos que elogiar, temos que elogiar. Mas quando temos que criticar, temos que criticar, está demorando”, disse.

Ataques a ônibus provocam sensação de insegurança na população de SP

A onda de ataques tem provocado, na população de São Paulo, uma forte sensação de insegurança nos transportes públicos, sobretudo entre os menos favorecidos. “Esse crime cria a sensação de insegurança entre aqueles que mais precisam de segurança, que são os trabalhadores que pegam ônibus, a população pobre. É o meio de transporte da maioria das pessoas que moram na periferia”, explica Benedito Mariano.

“Já passou da hora da Secretaria de Segurança esclarecer os autores e os eventuais mandantes desses episódios”, cobra.

ônibus
Ataques a ônibus provocam sensação de insegurança na população de SP

Os ataques também têm provocado um clima de terror e pânico entre os trabalhadores do transporte rodoviário de São Paulo. Em entrevista à “TV Brasil”, no último mês, o diretor do Sindicato dos Motoristas e Trabalhadores em Transporte Rodoviário Urbano de SP, Nailton Francisco de Souza, questionou a ineficiência dos órgãos de segurança e a falta de elucidação do modus operandi dos ataques.

“As investigações realizadas apontaram caminhos distintos, mas até agora sem uma resposta prática. O que não podemos aceitar são ilações e conjecturas mentirosas de quem investiga para dar satisfação à sociedade. O fato é que os ataques não param, e não há uma linha definida para combatê-los nas ruas”, ressaltou.

Em 10 de julho, em meio à onda, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) chegou a afirmar que a população não precisava ter medo. Segundo o diretor do sindicato, Tarcísio “precisa se posicionar frente a onda de ataques, com medidas efetivas, que resolvam o problema, que parece sem fim; ele disse que estava tudo sob controle, mas não está!”.

Até o momento, as forças de segurança de São Paulo realizaram algumas prisões de suspeitos de participações nos ataques, porém sem uma conclusão efetiva. Em 22 de julho, a polícia disse que havia detido 22 suspeitos de vandalismo na capital e na região metropolitana. Em 22 de julho, foi anunciada a prisão de Edson Aparecido Campolongo, 68, indiciado sob suspeita de 17 ataques na região metropolitana. No dia seguinte, seu irmão, Sérgio Campolongo, também se entregou à polícia.

Motorista concursado da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), Edson alegou motivação política para os ataques. Em seu perfil no Facebook, rede em que possui 5.800 seguidores, fez diversas postagens com críticas ao governo do presidente Lula, ao PT e às decisões do ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal), contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Cidade de SP concentra 18,5% de todos os roubos e furtos de celular do Brasil

Além dos ataques a ônibus, outros dados da Segurança Pública de São Paulo apontam para uma forte sensação de insegurança entre a população paulista. A cidade de São Paulo registrou, sozinha, 18,5% de todos os roubos e furtos de celulares ocorridos no Brasil em 2024, mesmo concentrando apenas 5,6% dos habitantes do país. Já o estado contabilizou 31,4% desse tipo de crime. Os dados fazem parte do 19ª Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

De acordo com o levantamento:m169.556 aparelhos foram subtraídos na capital paulista no último ano, o equivalente a 19 celulares levados por hora pelos criminosos; A taxa proporcional foi de 1.425,4 mil ocorrências por 100 mil habitantes, O número coloca São Paulo como a terceira cidade com a maior taxa do país, atrás apenas de São Luís (1.599,7) e Belém (1.452,2).

O que diz a gestão Tarcísio?

O ICL Notícias procurou a Segurança Pública de São Paulo para cobrar um posicionamento sobre a onda de ataques a ônibus que completou dois meses no estado. Em resposta, a SSP abordou apenas o caso ocorrido em Parelheiros, zona sul de São Paulo, na última quarta (13). Leia a nota:

“A Polícia Civil investiga um vandalismo ocorrido na noite de quarta-feira (13) na Estrada da Colônia, em Parelheiros, zona sul de São Paulo.

De acordo com a Polícia Militar, os agentes foram acionados para acompanhar uma manifestação no local. Durante o protesto, um grupo de criminosos depredou um ônibus e, em seguida, ateou fogo no veículo enquanto o motorista e passageiros ainda estavam a bordo. Todos conseguiram sair a tempo e não houve feridos.

O Corpo de Bombeiros foi chamado e controlou as chamas. Durante a ação, policiais militares foram hostilizados e uma viatura foi danificada.

Ninguém foi preso. O local foi preservado e passou por perícia.

O caso foi registrado no 101º Distrito Policial (Jardim Imbuias) como tentativa de homicídio, dano, incêndio e atentado contra a segurança de outro meio de transporte”

 

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