Quais as consequências da falta de autoridade de Hugo Motta? Especialistas respondem

Movimentos estratégicos e eleitorais se refletem na governabilidade do Executivo e na pauta do Legislativo
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Por Manuela Borges

O cenário político do Congresso Nacional brasileiro passa por uma fase de complexidade crescente, marcada por movimentos estratégicos e eleitorais que se refletem na governabilidade do Executivo e na pauta do Legislativo. Com o objetivo de compreender o atual momento, o ICL Notícias ouviu especialistas para uma análise da atual conjuntura política.

A recém-criada Federação União Progressista (UPb), formada pelos partidos União Brasil e Progressistas, consolidou um bloco com 109 deputados e 14 senadores, tornando-se a maior força política no Congresso Nacional. Apesar de contar com integrantes no governo — ocupam quatro ministérios no governo Lula –, a federação mantém uma postura crítica a muitas pautas governistas, sinalizando o desembarque próximo, o que na visão de cientista políticos fragiliza a base do presidente Lula no Congresso.

O professor de Direito e Relações Internacionais do Ibmec Brasília, Eduardo Galvão, destaca que a crise sobre a agenda de votações e sobre a governabilidade do presidente Lula tem impacto real na agenda econômica. “O primeiro efeito é o atraso. A LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) foi votada com atraso, medidas de impacto econômico precisaram ser tratadas às pressas e projetos de interesse social ficaram parados”, lamenta.

O segundo efeito, segundo ele, é político. “O governo passa a gastar energia e capital político tentando ‘apagar incêndios’ em vez de articular reformas estruturais. Na prática, isso significa menos previsibilidade e mais dificuldade para Lula conduzir sua agenda econômica e social”, avalia o especialista.

André Rosa, cientista político, lembra que o Legislativo brasileiro, eleito no último pleito, tem uma característica de centro-direita que segue sempre o lado mais forte do time. “O desgaste está ruim para todos os lados. Mas essa crise acabou favorecendo o presidente Lula, que mostrou recuperação da popularidade segundo a pesquisa Quest”, aponta o especialista.

Hugo Motta: entre a governabilidade e o enfraquecimento

Mas no Legislativo a situação não é tão positiva. A troca de última hora da presidência e relatoria da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, numa manobra inesperada da oposição, evidenciou que o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, não está com as rédeas nas mãos.

Elias Tavares, cientista político, avalia que a derrota na CPMI do INSS foi algo pessoal de Hugo Motta. “Essa votação mostrou que ele não tem o controle político que se imaginava. E há indícios claros do dedo do deputado Arthur Lira nisso como quem diz: ‘fui eu que te coloquei aí e sou eu que decido por aqui’’.

Na visão do cientista político, essa derrota foi simbólica porque a oposição conseguiu se impor mesmo contra a vontade da presidência da Câmara, e isso deixou Hugo Motta numa posição delicada. “Ele foi eleito por unanimidade, mas agora terá que mostrar a que lado realmente pertence. Todos os compromissos que assumiu para chegar ao cargo vão começar a ser cobrados, e ele não terá como escapar dessa pressão”, alerta Tavares.

No fim, quem saiu fortalecido foi a oposição e quem mostrou articulação foi Lira, explica Elias. “Motta, ao contrário, ficou exposto e cada vez mais precisa decidir se será protagonista ou se ficará reduzido a uma figura decorativa na presidência da Câmara”, conclui.

Motta assumiu a presidência da Câmara com amplo apoio, incluindo partidos de diferentes espectros ideológicos, como PT, PL, MDB e Podemos no começo do ano. Inicialmente, sua liderança buscava garantir a estabilidade política, mas hoje enfrenta desafios significativos, como a análise da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das Prerrogativas Parlamentares e chantagem para pautar a anistia de envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023.

“Eles (presidente da Câmara e do Senado) perderam o controle do plenário em um dos momentos mais críticos da crise. Ao verem seus púlpitos ocupados e a pauta travada, tiveram de recorrer a apelos públicos por pacificação e a sessões alternativas para salvar votações emergenciais. Esse tipo de cena mina a autoridade e passa a sensação de que não controlam mais o campo”, avalia Galvão.

Para o professor, esse tipo de situação pressiona diretamente as presidências da Câmara e do Senado, que ficam em posição delicada: se cedem, passam a imagem de submissão; se resistem, arriscam agravar a paralisia. “É nesse equilíbrio delicado que Alcolumbre e Motta tentam se posicionar. Por ora, quem dita o ritmo é o centrão”, aponta Galvão.

Hugo Motta

Em cima do muro

Segundo o professor do Ibmec, o ‘centrão’ se tornou a maior força do Congresso e, como sempre, joga com o pragmatismo: ora ameaça se alinhar à oposição, ora negocia espaço dentro do governo”.

Pacote da impunidade: Investigações contra parlamentares só com autorização deles próprios Motta
(Foto: José Cruz / Agência Brasil)

Já André César, sócio da Hold Assessoria Legislativa, avalia que apenas Motta saiu enfraquecido do motim feito pela oposição no episódio de ocupação da Mesa Diretora. “O Motta é fraco, não tem peso para sentar na cadeira de presidente, mas o Alcolumbre é diferente. Ele não está frágil e tem lastro para tocar a agenda. O ‘centrão’ é uma instituição que está sabendo jogar, é um player importante. Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PL/SP) será cassado e preso, não tem relevância, vai naufragar sozinho”, analisa André César.

Mas antes de naufragar, pode fazer um estrago, na visão do professor Galvão. Para ele, a ofensiva do deputado afastado Eduardo Bolsonaro, no primeiro momento, expõe fragilidades e falta de comando dos presidentes das Câmaras com ameaças. Mas de outro lado, é um tiro que pode sair pela culatra.

“Quando os radicais esticam demais a corda, setores do centro e até do próprio governo tendem a se reagrupar em defesa da institucionalidade. Em outras palavras, a ofensiva radical pode tanto desgastar a imagem das presidências quanto funcionar como catalisador de uma reação que devolva estabilidade ao Congresso”, afirma.

Historicamente, o ‘centrão’ tem desempenhado um papel crucial na política brasileira, atuando como um bloco de apoio que transita entre governo e oposição, conforme seus interesses.

Esse comportamento é comparável ao que ocorre atualmente com a UPb e outros partidos que, apesar de integrarem a base governista, adotam posturas críticas em relação ao Executivo. A dinâmica reflete uma busca por influência e poder dentro do Congresso, muitas vezes à custa de determinados alinhamentos ideológicos.

Um exemplo histórico semelhante é o período pós-impeachment de Dilma Rousseff, quando o Congresso Nacional experimentou uma fragmentação das forças políticas e Eduardo Cunha utilizava o comando da Câmara para travar a agenda do Planalto.

Muitos partidos que anteriormente apoiavam o governo passaram a adotar posturas oposicionistas, a depender das circunstâncias e interesses momentâneos.

Governabilidade contestada

Para o professor Galvão, o que se vê hoje lembra o episódio da chamada ‘governabilidade contestada’ da era Dilma Rousseff. “A diferença é que agora a fagulha veio de fora, com decisões do STF reverberando no Congresso. Mas a lógica é muito parecida: quanto mais fragmentada a base, mais o Legislativo se sente autorizado a impor sua própria pauta e a pressionar o Executivo”.

A federação União Progressista surge, assim, como protagonista nesse novo cenário, fortalecendo a posição do ‘centrão’ e aumentando o custo de governabilidade para o Executivo. Como lembra André Rosa, “a pré-campanha eleitoral já começou, e o ‘centrão’ busca maior poder de barganha, enquanto os presidentes das Casas tentam manter controle e legitimidade”.

O Congresso Nacional vive uma fase de intensa negociação, disputa de poder e descredibilidade perante a opinião pública. A combinação da criação da federação União Progressista, a pressão do ‘centrão’ e o enfraquecimento relativo de Hugo Motta cria um ambiente ainda mais complexo e incerto.

Em meio a esse cenário, o governo federal precisa lidar com uma pauta fragmentada e desafios para implementar reformas econômicas e sociais. A política brasileira, mais uma vez, mostra que governabilidade e pragmatismo caminham lado a lado, enquanto líderes fragmentados lutam para manter protagonismo.

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