Os líderes dos 11 países que compõem o Brics — grupo originalmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — se reúnem virtualmente na próxima semana para discutir estratégias de fortalecimento do multilateralismo, ampliar o comércio interno e reagir ao crescente protecionismo dos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump.
Embora os EUA não devam ser citados nominalmente nos comunicados oficiais, diplomatas brasileiros admitem que parte central do debate girará em torno das medidas tarifárias unilaterais aplicadas por Washington a diversos países do grupo — em especial ao Brasil.
Desde o mês passado, produtos brasileiros como carnes, calçados, pescados, frutas e bens de capital passaram a ser sobretaxados em até 50% ao entrarem no mercado norte-americano.
A medida foi interpretada pelo governo brasileiro como uma retaliação indireta à situação política do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente réu por tentativa de golpe de Estado. Uma eventual condenação pelo STF (Supremo Tribunal Federal), temem integrantes do Planalto, poderia acirrar ainda mais o ambiente e levar a novas sanções diplomáticas e econômicas.
Proposta do Brics sobre moedas locais incomoda os EUA
Outro ponto que incomoda a administração Trump é a proposta de intensificar o uso de moedas locais nas transações entre países do Brics, com o objetivo de reduzir a dependência do dólar. Essa alternativa, que ganha força sobretudo com o apoio de China, Rússia e Brasil, é vista por Washington como uma ameaça direta à hegemonia da moeda americana no comércio global.
Segundo fontes diplomáticas, o Brasil — que ocupa neste ano a presidência do Brics — conduzirá a discussão com foco no pragmatismo, evitando embates ideológicos, mas sinalizando que não aceitará interferências externas em temas de política interna, especialmente no contexto da atual crise institucional.
Além da agenda econômica, os líderes devem discutir temas geopolíticos como a guerra na Ucrânia, a situação na Faixa de Gaza e a COP30 (Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas), que será sediada em novembro em Belém (PA). O presidente Lula reforçará o convite para que todos os chefes de Estado compareçam à conferência climática.
Brasil aciona mecanismos legais e prepara retaliações
Como resposta à ofensiva comercial norte-americana, o Brasil recorreu à Lei de Reciprocidade, aprovada neste ano pelo Congresso Nacional. O dispositivo permite ao governo adotar medidas como cassação de patentes, aumento de tarifas sobre produtos culturais (como filmes e livros), e ações contra bens de propriedade intelectual de países que imponham barreiras injustificadas ao Brasil.
O governo também notificou oficialmente os EUA por meio da OMC (Organização Mundial do Comércio), solicitando abertura de consultas para negociar uma saída diplomática. Apesar de os americanos terem aceitado o diálogo, a avaliação é de que o processo será longo e tecnicamente complexo, com possibilidade de se arrastar por anos.
Um relatório enviado a Washington detalha as ações do Brasil em temas sensíveis aos EUA, como combate à pirataria, à corrupção e ao desmatamento, além de responder questionamentos sobre o sistema de pagamentos Pix e a política de impostos sobre o etanol americano.
Mesmo assim, os EUA mantêm uma investigação comercial com base na Seção 301 da Lei de Comércio, dispositivo que permite sanções unilaterais em casos de práticas consideradas “injustas”.
Setor privado tenta abrir canal de diálogo direto com Washington
Enquanto o clima entre os governos segue tenso, o setor privado busca construir pontes. A CNI (Confederação Nacional da Indústria) lidera uma missão empresarial a Washington nos dias 3 e 4 de setembro, com cerca de 130 empresários e representantes de associações industriais.
A missão tem como objetivo principal sensibilizar parlamentares e empresários americanos sobre os impactos negativos das sobretaxas impostas a produtos brasileiros. Estão previstos encontros bilaterais e uma plenária com participação de representantes dos setores público e privado dos EUA, focada na investigação em curso sob a Seção 301.
“Nosso propósito é aprofundar o diálogo técnico e contribuir para as negociações. As economias brasileira e americana são complementares, e é fundamental preservar uma relação de mais de 200 anos”, declarou Ricardo Alban, presidente da CNI.
O governo brasileiro, porém, não participará formalmente da audiência, deixando o protagonismo da missão com o setor privado.