O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), comentou com franqueza, em entrevista ao UOL nesta quarta-feira (27), os desafios econômicos decorrentes da recente escalada protecionista dos Estados Unidos contra o Brasil.
A decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de impor tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros como carne e café, reacendeu o alerta sobre as relações comerciais entre os dois países e acendeu debates internos sobre como proteger setores vulneráveis da economia nacional.
“O tarifaço vai machucar um pouco? Vai”, reconheceu Haddad. “Mas o Brasil está em condições de enfrentar”, frisou o ministro.
Haddad explicou que há empresas brasileiras exportando mais de 50% de sua produção para o mercado norte-americano. Embora o impacto imediato seja sentido por setores específicos, Haddad acredita que o país tem musculatura macroeconômica para lidar com os efeitos das tarifas.
Haddad destaca clima de insegurança global
Além do impacto comercial, Haddad também demonstrou preocupação com o cenário político e institucional dos Estados Unidos sob Trump. Ele citou, como exemplo, a recente demissão da diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, e classificou a instabilidade gerada como um fator de apreensão entre líderes mundiais.
“As pessoas hoje estão inseguras em relação aos Estados Unidos da América, muito inseguras”, afirmou. “Quando você começa a contestar tudo — a Suprema Corte, o Fed, a ordem internacional — está mexendo com coisas muito sensíveis. Está todo mundo inseguro. O que vai ser o dia de amanhã?”
A declaração ressalta a inquietação com a postura beligerante do governo Trump e seu impacto não apenas nas relações bilaterais, mas na estabilidade do comércio global.
Resposta brasileira
Haddad afirmou que o Brasil está se movimentando para desobstruir os canais de diálogo com os Estados Unidos e contestar, com base técnica, os argumentos usados para justificar as sobretaxas. “O empresariado está muito engajado nisso”, disse.
Apesar disso, o governo brasileiro também adota uma “postura reativa”, preparada para medidas unilaterais futuras. “Nós vamos cuidar, só não dá para prever o que pode sair da cabeça do Trump.”
Ao ser questionado sobre a contratação de um escritório de advocacia nos EUA, Haddad explicou que o objetivo é defender os interesses comerciais do Brasil, da mesma forma que empresas brasileiras estão buscando proteção legal individualmente. “O lobby quem tem que fazer não é o Estado brasileiro”, destacou.
Reforma tributária
Durante a entrevista, o ministro reforçou a defesa da reforma tributária, dividida em duas fases: a reforma do consumo, já aprovada em parte, e a reforma da renda, que segue em tramitação no Congresso.
Ele reiterou o compromisso de que ambas sejam neutras do ponto de vista fiscal, ou seja, que não aumentem nem reduzam a arrecadação total, mas tornem o sistema mais justo.
“Se a gente quer aliviar imposto sobre consumo, imposto sobre a renda do trabalhador, esse pessoal que não colaborava vai ter que começar a colaborar”, afirmou.
Haddad defende uma alíquota de 10% de imposto de renda sobre quem ganha mais de R$ 1 milhão por ano. Estima-se que apenas 140 mil brasileiros se enquadrem nessa faixa. Em contrapartida, a proposta é isentar do imposto de renda quem ganha até R$ 5 mil por mês.
Estado pesado para o trabalhador
A crítica ao modelo atual de arrecadação foi direta: Haddad afirmou que o peso do Estado recai desproporcionalmente sobre os mais pobres e a classe média, enquanto os mais ricos contribuem menos do que deveriam.
“Para o andar de cima, que reclama do Estado, o Estado está muito leve. Os que reclamam do Estado são os que menos contribuem para a gestão do Estado. Então, estão reclamando de quê?”, questionou.
Segundo ele, o modelo atual concentra a carga tributária no consumo, penalizando quem ganha menos. A ideia da reforma é reverter parcialmente essa lógica, ampliando a base de contribuintes no topo da pirâmide.
“Eu penso que hoje a opinião pública está muito fortemente aderente a esse projeto, tá apoiando esse projeto”, disse o ministro, sobre a reforma da renda. Para Haddad, este é o momento de enfrentar o que ele chama de “ferida da desigualdade”.
Negociações e otimismo cauteloso
Apesar da tensão com os EUA, Haddad mantém otimismo sobre a capacidade do Brasil de diversificar mercados e proteger sua economia. Ele citou que, mesmo com as tarifas impostas, houve aumento nas exportações de carne brasileira para os EUA — sinal de que a demanda persiste, ainda que a preços mais altos para o consumidor americano.
“O povo americano está pagando mais caro a carne, porque querem comprar a carne brasileira, está pagando a taxa”, relatou, mencionando dados compartilhados pelo ministro da Agricultura, Carlos Fávaro.