Por Cleber Lourenço
A sustentação oral feita pelo advogado Andrew Farias, defensor do general da reserva Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa, no segundo dia de julgamento no Superior Tribunal Federal (STF) teve efeito direto sobre a imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao tentar livrar o ex-comandante de qualquer acusação, Farias acabou confirmando a existência de uma engrenagem golpista e jogando o peso da responsabilidade para o Planalto.
Logo no início, durante diálogo com a ministra Cármen Lúcia, Farias declarou que Paulo Sérgio atuou “para demover de adotar qualquer medida de exceção”. A ministra insistiu na pergunta, e o advogado respondeu de forma categórica: “O general tentou convencer o presidente a não tomar medidas fora da Constituição”. Essa troca, registrada em plenário, revela a estratégia da defesa: ao apresentar seu cliente como voz de contenção, admite-se que havia de fato quem cogitasse a ruptura — o próprio presidente da República.

Veja os principais pontos da defesa
Relatórios e prazos: tiro contra o Planalto
Ao se defender da acusação de atraso, Farias foi taxativo: “O deadline para entrega era 5 de fevereiro de 2023. O relatório foi entregue em 9 de novembro de 2022, dentro do prazo”. A afirmação, extraída do plano de trabalho entregue ao TSE, afasta Paulo Sérgio da acusação de postergação, mas deixa claro que a utilização política do relatório partiu de Bolsonaro. A defesa destacou ainda que a Nota Técnica nº 2 acompanhava o ofício enviado ao TSE, comprovando que as Forças cumpriram o calendário, enquanto o Planalto fabricava a narrativa de fraude.
A ordem do TSE e a resposta
Quando o TSE exigiu manifestação em 48 horas, o MD respondeu dentro do prazo. “O ofício C-PROC 5804, de 17 de outubro de 2022, foi respondido no dia 19 de outubro com a Nota Técnica nº 2”, frisou o advogado. Esse ponto reforça a lógica central da sustentação: se a Defesa cumpriu, o ruído não estava nos militares, mas sim no Palácio do Planalto, que insistia em deslegitimar o sistema eleitoral.
Encontro de 14 de dezembro: crise reconhecida
A Procuradoria afirma que houve pressão sobre os comandantes militares. Farias rebateu citando o depoimento de Freire Gomes: “De maneira alguma [houve pressão]”. A negativa protege o general, mas confirma a própria existência da reunião, que só se explica diante da pressão política vinda de Bolsonaro. O simples fato de a defesa precisar justificar o episódio reforça o clima de intentona.
O discurso de pacificação
Um dos trechos mais reveladores da sustentação foi a admissão de que Paulo Sérgio, por intermédio de Mauro Cid, entregou um rascunho de discurso a Bolsonaro. “O general encaminhou uma proposta de discurso de pacificação”, disse Farias. A intenção era mostrar o cliente como bombeiro em meio ao incêndio. Mas a consequência é clara: só é preciso oferecer pacificação a um presidente que cogitava o oposto. A existência desse rascunho confirma a tensão e a expectativa de ruptura.
Reconhecimento do ambiente golpista
A sustentação de Farias não nega o enredo da intentona golpista. Pelo contrário: admite reuniões críticas, notas interpretadas politicamente, pressões em debate e a necessidade de dissuadir o chefe do Executivo. O que a defesa faz é separar Paulo Sérgio dessa trama, isolando Bolsonaro como protagonista. Ao repetir que “não foi o general”, Farias deixa claro que foi o presidente.
No saldo final, o discurso no STF transformou-se em um libelo contra Bolsonaro. Longe de enfraquecer a tese de conspiração, reforçou-a. Ao livrar Paulo Sérgio, a defesa consolidou a imagem de que havia sim uma tentativa de golpe em andamento, articulada dentro do Planalto e estimulada pelo presidente da República. Assim, Bolsonaro foi lançado na fogueira: cercado de alertas, advertências e tentativas de dissuasão, mas ainda assim disposto a insistir em uma ruptura democrática.