O Brasil consolidou-se como o terceiro maior destino global dos investimentos diretos chineses e o principal fora da Europa, segundo um estudo recente do Conselho Empresarial Brasil China (CEBC) que será lançado nesta quinta-feira (4). Em 2024, o país atraiu US$ 4,2 bilhões (aproximadamente R$ 22 bilhões) em investimentos, aumento de 113% ante 2023.
Conforme o estudo, o Brasil foi a economia emergente que mais atraiu investimentos chineses em 2024. O movimento continua neste ano.
Para Uallace Moreira, chefe de desenvolvimento industrial do MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), a entrada desses capitais “promove um choque de competitividade” para o setor industrial brasileiro.
Contudo, ele ressalta a necessidade de avançar para que esses investimentos fomentem cadeias produtivas locais, evitando a mera importação de componentes para montagem final no país — um modelo predominante, inclusive entre montadoras de carros elétricos, que limita a geração de empregos e o desenvolvimento industrial.
Lula e presidente da China intensificam intercâmbio
No plano diplomático, o intercâmbio entre os presidentes Lula e Xi Jinping foi intensificado em 2024, com encontros que resultaram em parcerias estratégicas, em um cenário global marcado pela escalada da guerra comercial liderada pelo presidente dos EUA, Donald Trump, com tarifas elevadas sobre produtos chineses e brasileiros.
Tulio Cariello, autor principal do estudo do CEBC, explica que o movimento de empresas chinesas para o Brasil reflete uma estratégia de diversificação diante do recuo nos investimentos nos Estados Unidos, onde a China aplicou apenas US$ 2,2 bilhões em 2024. “É uma tendência impulsionada pelas tensões geopolíticas”, afirma.
Apesar do crescimento chinês, os Estados Unidos permanecem a principal origem dos investimentos estrangeiros diretos no Brasil, com US$ 8,5 bilhões aportados em 2024, conforme dados oficiais.
O volume chinês no Brasil ainda está abaixo das médias de 2015 a 2019, período em que as empresas chinesas investiram cerca de US$ 6,6 bilhões anuais, concentrados em grandes projetos de petróleo e energia.
Diversificação
A novidade está na diversificação: em 2024, o Brasil registrou investimentos em 39 projetos chineses, abrangendo setores variados e colocando o país na terceira posição mundial em destinos de capital chinês, atrás apenas do Reino Unido e da Hungria. No biênio anterior, a posição era apenas a nona.
Setores emergentes também têm atraído investimentos, como as empresas de tecnologia Meituan e Didi, que entraram no mercado brasileiro de entregas de alimentos neste ano.
No entanto, Uallace Moreira destaca que o ambiente brasileiro ainda apresenta obstáculos significativos, como cadeias produtivas mais caras, sistema tributário complexo e leis trabalhistas rigorosas, que dificultam a consolidação dos investimentos chineses.
Caso BYD
Um caso emblemático desse desafio ocorreu em 2024, quando procuradores abriram processo contra a montadora chinesa BYD, após resgate de 163 trabalhadores em condições análogas à escravidão em uma fábrica em construção no Brasil.
A empresa negou irregularidades, mas o episódio evidencia as diferenças legais e culturais enfrentadas pelas empresas estrangeiras no país. “A lei é diferente da China. É muito diferente”, conclui Moreira.