Energias renováveis: comparação entre Brasil e Europa e os desafios da transição energética

Enquanto o Brasil se apoia em vantagens naturais, a Europa aposta em inovação e políticas públicas para reduzir a dependência de fósseis
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Por Iago Filgueiras*

Imagine tentar maratonar sua série favorita sem eletricidade. Ou passar aquele cafezinho da manhã sem uma fonte de calor. A energia é a força que move a vida moderna. Mas você já parou para pensar de onde ela vem?

As fontes que compõem a matriz energética de um país refletem recursos, desafios e prioridades. Em meio à crise climática, a busca por energias renováveis ganhou protagonismo. Eletrificação de frotas, construção de usinas eólicas e desenvolvimento de biocombustíveis já fazem parte de diferentes estratégias ao redor do mundo.

Neste artigo, vamos além das tomadas. Vamos comparar a adoção de fontes renováveis em dois cenários: Brasil e Europa. Ambos buscam o mesmo objetivo, reduzir emissões e frear o aquecimento global, mas a realidade de cada um e os recursos disponíveis são bem diferentes.

Matriz elétrica ou energética? Entendendo as fontes renováveis e não renováveis

A matriz energética inclui todo o consumo de energia, como combustíveis de transporte, carvão para fornos industriais, a eletricidade e até o gás de cozinha. Já a matriz elétrica é mais específica e se refere apenas às fontes usadas para gerar eletricidade, aquela que corre nas tomadas de casa e faz a televisão ligar ou o chuveiro ficar quentinho (a menos que você use chuveiro a gás).

Nos dois casos, essas fontes se dividem em duas categorias: renováveis e não renováveis. As primeiras dependem de recursos infinitos ou que se regeneram rápido. Em geral, elas também têm um menor impacto na emissão de gases do efeito estufa, como a energia solar, eólica, de biomassa e hidrelétrica.

Já as não renováveis, além de poluentes, são finitas ou demoram milhões de anos para se recompor. Petróleo, gás natural e carvão mineral são os principais e estão no centro da crise climática.

Panorama da matriz energética mundial – a dependência dos combustíveis fósseis

Desde a Revolução Industrial, no século 18, o carvão, o petróleo e o gás natural moldaram a sociedade. Máquinas a vapor e motores a combustão proporcionaram um crescimento nunca antes visto, mas também consolidaram uma dependência cara e poluente.

Além de condições de trabalho precárias e um ritmo produtivo frenético, esse processo histórico também trouxe outros impactos: degradação ambiental e um planeta mais quente. Desde 1850, a temperatura média da superfície terrestre subiu cerca de 1,1 ºC, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas. Qual a consequência disso? Eventos climáticos extremos e impactos socioambientais em escala global.

Os combustíveis fósseis se tornaram parte central do modelo de sociedade que construímos. Em 2022, dados da Agência Internacional de Energia apontam que carvão, gás natural e petróleo respondiam por mais de 80% da matriz energética mundial. Somada à energia nuclear, as fontes não renováveis chegavam a 85,6% do total.

Nesse contexto, a Europa tenta reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, mas enfrenta desafios como a dependência do gás russo e o equilíbrio entre custo e segurança energética. Já o Brasil, está em posição mais confortável, com uma das matrizes mais renováveis do planeta, mas diversos desafios pela frente.

A matriz energética brasileira: uma potência renovável

O Brasil possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, uma vantagem relevante em um cenário de corrida pela descarbonização. Vale lembrar que a matriz energética inclui todo o consumo de energia: combustível de carros e caminhões, gás de cozinha e lenha para caldeiras — não apenas a eletricidade.

Segundo o Balanço Energético Nacional, em 2024 as fontes renováveis representaram cerca de 50% da matriz energética do país. Já na matriz elétrica, o número é ainda maior: 88% da eletricidade brasileira veio de fontes renováveis. O investimento histórico em hidrelétricas é o principal responsável por isso.

Mas apesar dos avanços, setores críticos ainda dependem de petróleo, gás e carvão e a falta de investimento em alternativas renováveis tem sido um desafio. Isso mostra que a transição ocorre em velocidades distintas e que a diversificação é o melhor caminho para manter o Brasil como referência global em energia limpa.

O pioneirismo na energia renovável: hidrelétricas e biocombustíveis

A força das hidrelétricas e dos biocombustíveis não é acidental. Ela resulta de recursos naturais abundantes, geografia favorável e políticas públicas de longo prazo. Hoje, as hidrelétricas respondem por 55,3% da eletricidade gerada e 11% da matriz energética total.

Um caso emblemático é a Usina Hidrelétrica de Itaipu Binacional, inaugurada em 1984. Por quase duas décadas, foi a maior barragem do mundo e segue como uma das principais fontes de eletricidade do Brasil e do Paraguai.

Além disso, o incentivo ao uso de biocombustíveis, permitiram ao Brasil uma frota de veículos a combustão com emissões menos poluentes que outros países. O etanol derivado da cana representa 16,7% da matriz energética total.

O Brasil é destaque na produção de energia por meio de usinas hidrelétricas. Com uma expertise acumulada durante décadas, o país é referência na construção de barragens. Foto: Arquivo/Agência Brasil
O Brasil é destaque na produção de energia por meio de usinas hidrelétricas. Com uma expertise acumulada durante décadas, o país é referência na construção de barragens. Foto: Arquivo/Agência Brasil

O país tem políticas públicas bem consolidadas que estimulam o uso desse combustível. Além de ter mais de 76% dos veículos leves com motores que funcionam à gasolina e a álcool, o país estabelece porcentagens mínimas de adição e biocombustível nos combustíveis provenientes de fontes fósseis: 30% de etanol na gasolina e 14% de biodiesel no diesel.

Outro destaque na matriz energética brasileira é o uso de lenha o carvão vegetal que, juntos, somam 8,5%. Já o licor negro, subproduto da indústria de papel e celulose, responde por 8,1%. Essa diversidade mostra como a energia renovável vai muito além da hidreletricidade.

A ascensão da energia eólica e solar: em busca da diversificação

As mudanças climáticas afetam diretamente o regime de chuvas e, com isso, as hidrelétricas se tornam vulneráveis. Para reduzir riscos, o Brasil investiu na diversificação. A energia eólica já é a segunda maior fonte da matriz elétrica, responsável por 14,1% da produção nacional, com destaque para os parques do Nordeste.

A energia solar também se expandiu rapidamente. Em 2024, ela representava 9,3% da eletricidade do país, impulsionada pelo barateamento dos painéis e pela busca por soluções descentralizadas, uma vez que até mesmo residências podem instalar painéis solares e ainda vender o excedente de energia para o sistema elétrico.

O barateamento dos painéis solares tem impulsionado a adoção desse sistema de geração de energia em residências e comércios por todo o país. Foto: Reprodução/TV TEM
O barateamento dos painéis solares tem impulsionado a adoção desse sistema de geração de energia em residências e comércios por todo o país. Foto: Reprodução/TV TEM

Quando olhamos para a matriz energética total, no entanto, solar e eólica juntas representam apenas 5,1%. Isso revela que, embora a eletricidade seja cada vez mais limpa, setores como transporte e indústria ainda são majoritariamente fósseis.

O outro lado da moeda: os obstáculos da descarbonização total

Apesar do destaque das fontes renováveis, cerca de 50% da matriz energética brasileira ainda depende de combustíveis fósseis. O petróleo é o protagonista, representando 34% do total. Mesmo com o avanço do etanol e do biodiesel, o diesel segue indispensável para o transporte de cargas — 75% da movimentação de mercadorias do país ainda ocorre por rodovias.

Outros setores também dependem fortemente do petróleo, como a aviação e a indústria petroquímica. Já o carvão mineral e o gás natural seguem essenciais para a indústria e para a produção de energia em termelétricas.

O Brasil também mantém usinas nucleares em operação, mas representam cerca de 1% da matriz energética do país. Embora menos poluentes em termos de carbono, elas levantam debates sobre custos, riscos e o destino dos resíduos. Assim, a transição brasileira avança em duas velocidades: 88% de eletricidade renovável, mas setores críticos ainda estão presos aos fósseis.

A Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA) é localizada em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro e conta com os reatores Angra I, Angra II e Angra III, este último, ainda em construção. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
A Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto (CNAAA) é localizada em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro e conta com os reatores Angra I, Angra II e Angra III, este último, ainda em construção. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A União Europeia: uma potência em transição energética acelerada

Enquanto o Brasil se apoia em recursos naturais abundantes, a União Europeia (UE) enfrenta outro cenário. Como potência industrial, o bloco tem uma matriz energética historicamente dependente de combustíveis fósseis e com baixa produção interna. Em 2020, apenas 42% da energia consumida na região era gerada localmente.

Essa dependência externa ficou evidente após a invasão da Ucrânia em 2021, já que a Rússia era a principal fornecedora de petróleo, gás natural e carvão. Como resposta, a Europa acelerou sua transição energética, alinhada ao Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal), que prevê cortar 50% das emissões até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

Se o Brasil tem uma matriz naturalmente renovável, a Europa aposta em inovação e políticas públicas para reduzir vulnerabilidades e garantir segurança energética.

A União Europeia: uma potência em transição energética acelerada

Enquanto o Brasil se apoia em recursos naturais abundantes, a União Europeia (UE) enfrenta outro cenário. Como potência industrial, o bloco tem uma matriz energética historicamente dependente de combustíveis fósseis e com baixa produção interna. Em 2020, apenas 42% da energia consumida na região era gerada localmente.

Essa dependência externa ficou evidente após a invasão da Ucrânia em 2021, já que a Rússia era a principal fornecedora de petróleo, gás natural e carvão. Como resposta, a Europa acelerou sua transição energética, alinhada ao Pacto Ecológico Europeu (European Green Deal), que prevê cortar 50% das emissões até 2030 e alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

Se o Brasil tem uma matriz naturalmente renovável, a Europa aposta em inovação e políticas públicas para reduzir vulnerabilidades e garantir segurança energética.

A dependência histórica de combustíveis fósseis e o ponto de virada

A matriz energética europeia sempre se apoiou em carvão, petróleo e gás natural, mas o peso desses combustíveis varia entre países. Em 2023, segundo o Eurostat, petróleo e derivados representaram 85% da energia em Malta e Chipre, enquanto na Itália o gás natural chegou a quase 35%.

No total da UE, mais de 80% da energia ainda vinha de fontes não renováveis. Entre elas, o gás natural que, além de abastecer a indústria e as usinas termoelétricas, aquece os lares de cerca de 30% da população. A energia nuclear também tem peso significativo, com mais de 11% da matriz, chegando a 39% na França.

O ponto de virada veio com a guerra da Ucrânia. A dependência de Moscou se tornou insustentável, e o bloco passou a acelerar políticas de descarbonização. Em 2020, as renováveis representavam apenas 17% da matriz energética, mas esse número cresce a cada ano.

O crescimento explosivo das fontes renováveis

A participação das fontes renováveis na matriz energética europeia tem crescido nos últimos anos. Em 2020, elas eram 17% do total; em 2023, chegaram a 19%. Já na matriz elétrica, o avanço foi ainda maior. Segundo o think tank Ember, quase metade da eletricidade da União Europeia já vem de fontes renováveis.

A energia solar representou, em 2023, cerca de 11% do fornecimento do bloco, superando o uso de carvão para geração de energia elétrica pela primeira vez. Já a energia eólica, também avançou, alcançando 17% da eletricidade e ultrapassando o gás natural pelo segundo ano consecutivo.

Além de reduzir emissões e aumentar a segurança energética, a expansão das fontes renováveis reduziu gastos com a importação de combustíveis. Entre 2019 e 2024, o bloco reduziu em cerca de US$ 61 bilhões os gastos com importação de fontes fósseis.

Diversos países da União Europeia tem optado pela instalação de usinas eólicas ou solares offshore, ou seja, no mar. Foto: reprodução
Diversos países da União Europeia tem optado pela instalação de usinas eólicas ou solares offshore, ou seja, no mar. Foto: reprodução

Para além da eletricidade, a União Europeia também tem tentado reduzir a dependência de combustíveis fósseis no setor automotivo. Ao contrário do Brasil, que investe intensamente no etanol e na eletrificação de frotas, os europeus preferiram só a última opção. Em 2022, o bloco decidiu proibir a venda de carros com motor a combustão a partir de 2035.

Segundo a ONG europeia Transport & Environment (T&E), em 2025, entre 20% e 30% dos novos veículos comercializados serão elétricos. Isso reflete como o continente também tem buscado promover a descarbonização de diferentes partes da matriz energética local.

Os desafios da descarbonização além da eletricidade

Assim como no Brasil, o maior obstáculo europeu está fora da tomada. A matriz energética total do bloco ainda depende 81% de fósseis, principalmente em transporte e aquecimento doméstico. Cerca de 30% dos lares seguem aquecidos a gás natural.

A biomassa, tão presente no Brasil, não tem espaço no continente devido à escassez de terras agricultáveis. Por isso, solar e eólica são as grandes apostas. Alguns países inclusive instalam usinas offshore, aproveitando a força dos ventos marítimos.

Diante da crise energética e da guerra na Ucrânia, vários governos retomaram investimentos em energia nuclear. Embora seja uma alternativa de baixo carbono, levanta debates sobre riscos, custos e segurança, já que quase 100 reatores nucleares estão espalhados por 12 países da UE.

Realidades diferentes mas objetivos comuns

Brasil e União Europeia trilham rotas distintas rumo à transição energética. O Brasil parte de uma vantagem natural: recursos hídricos abundantes, terras agricultáveis e grande potencial para biocombustíveis, solar e eólica. Isso garante uma matriz elétrica majoritariamente renovável e uma matriz energética bem acima da média mundial.

A Europa, por sua vez, enfrenta o desafio da dependência histórica de fósseis e da escassez de recursos internos. Sua resposta tem sido baseada em inovação tecnológica, políticas públicas robustas e integração regional. Embora distante do padrão brasileiro em renováveis, o bloco tem adotado iniciativas para implementar mudanças em curto espaço de tempo.

Os dois territórios, no entanto, têm um objetivo em comum: reduzir emissões e frear a crise climática. A comparação entre eles deixa claro que não existe fórmula única. O importante é alinhar recursos locais, políticas públicas e inovação tecnológica em prol de uma matriz energética mais limpa e segura e socialmente justa.

A transição energética tem se tornado cada vez mais uma pauta global, mas além da adoção de fontes renováveis, é preciso que esse processo seja pautado pelo bem-estar coletivo e redução dos impactos socioambientais. Foto: reprodução
A transição energética tem se tornado cada vez mais uma pauta global, mas além da adoção de fontes renováveis, é preciso que esse processo seja pautado pelo bem-estar coletivo e redução dos impactos socioambientais. Foto: reprodução

As energias renováveis e a sociedade que queremos

Embora fundamentais, as fontes renováveis não são isentas de impacto socioambiental. Hidrelétricas podem deslocar comunidades, turbinas eólicas afetam ecossistemas e a mineração para baterias de carros elétricos gera degradação em outros territórios. Uma transição energética justa exige reconhecer esses custos e buscar formas de mitigá-los.

O risco é transformar a corrida por renováveis em mera substituição de combustíveis, sem questionar o modelo de sociedade baseado no consumo ilimitado de energia. Nesse ponto, é legítimo perguntar: faz mais sentido investir em frotas de carros elétricos ou em transporte coletivo de qualidade e cidades mais amigáveis?

Uma transição energética realmente transformadora deve ir além da troca de fontes. Ela deve propor uma mudança de mentalidade: pensar em eficiência, justiça social e bem-estar coletivo. Não basta descarbonizar a matriz energética. É preciso descarbonizar também nossos hábitos!

*Estagiário sob supervisão de Leila Cangussu

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