O Brasil ocupa uma posição estratégica no cenário da transição energética.
Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável, o país é frequentemente citado como exemplo de produção de energia limpa.
Ao mesmo tempo, a exploração de petróleo continua desempenhando um papel relevante na economia nacional. Mas como isso acontece na prática? Quais são os próximos passos para uma transição energética efetiva?
Vamos analisar os diferentes aspectos dessa transição: o cenário atual, o papel da Petrobras, as tensões internacionais sobre a redução de combustíveis fósseis e a proposta de usar o próprio petróleo como fonte de financiamento para a mudança.
O que é transição energética?
A transição energética é o processo de mudança estrutural na forma como a energia é gerada, distribuída e consumida, com o objetivo de substituir fontes fósseis por fontes de energia mais limpas e sustentáveis.
Esse movimento busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa, combater as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável.
No Brasil, essa transição é incentivada pela necessidade de diversificar o tipo de energia elétrica, aumentar não só o fornecimento de energia, mas também a segurança e atender os compromissos internacionais de redução de emissões e iniciativas mais sustentáveis com, por exemplo, energia renovável.

O cenário da transição energética no Brasil
Ao discutir a transição energética no Brasil, é fundamental compreender a composição da matriz elétrica nacional. Historicamente, o país tem se destacado por contar com uma matriz majoritariamente renovável, com a energia hidrelétrica desempenhando um papel central na geração elétrica.
Além disso, nos últimos anos, as energias eólica e solar têm crescido significativamente em todo território nacional, mas principalmente no Nordeste, região com a maior capacidade eólica do país. Isso quer dizer que, até 2024, de toda a potência outorgada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) para geração dessa fonte de energia, 93% vinha de empreendimentos instalados no Nordeste.
Mais do que isso, segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), em 2023, a participação das fontes renováveis na matriz elétrica brasileira alcançou aproximadamente 83% – evidenciando o potencial do país em liderar a transição energética global.
Agora, vamos entender os dois lados da moeda: quem gera energia e quem consome energia.
Do lado da geração, o setor elétrico opera com agilidade, incorporando inovações como as energias renováveis, sistemas de armazenamento e redes inteligentes. Esse novo cenário exige modelos atualizados, incluindo a criação de indicadores que ajudem não só a medir, mas também que ajude o sistema frente à limitação das fontes de energia renováveis e a crescente imprevisibilidade climática.
Por outro lado, no campo do consumo, o relatório World Energy Outlook 2024, da Agência Internacional de Energia (AIE), projeta que, até 2035, a demanda global de eletricidade aumentará anualmente o equivalente ao consumo atual do Japão — cerca de 909 terawatts-hora.
Mas por que existe essa elevação?
Essa elevação no consumo se deve a diversos fatores: a popularização de aparelhos de ar-condicionado em países mais quentes, o aumento do uso de energia por data centers, a construção de novas plantas industriais e a expansão dos veículos elétricos.
Além disso, a eletrificação crescente de setores como transportes e edificações está alterando o perfil tradicional de consumo, introduzindo novas cargas que dificultam o controle e a previsibilidade da demanda energética.
Ou seja, o Brasil tem vantagem comparativa em energia limpa, mas não está isento dos dilemas da transição energética.
À medida que cresce a demanda por eletricidade e se sofisticam os desafios tecnológicos e climáticos, o país precisa buscar soluções que façam mais sentido para a realidade brasileira — tanto para garantir segurança energética quanto para manter sua soberania econômica.
E é nesse ponto que entra a discussão sobre o petróleo: qual é o papel dessa fonte fóssil em um país que tem protagonismo em energia renovável?

Exploração do petróleo no Brasil
O processo de exploração do petróleo no Brasil começou em 1953, com a aprovação da Lei nº 2.004, que criou oficialmente a Petrobras durante o governo Getúlio Vargas.
Uma vez que as aprovações legislativas são feitas, a Petrobras começa com a identificação de áreas que podem conter petróleo no subsolo — muitas delas localizadas em alto-mar, a quilômetros da costa brasileira.
Depois de estudos sísmicos e análises técnicas, as empresas pedem autorização para perfurar o solo marinho em busca de petróleo. Caso encontrem, é iniciado o processo de extração por meio de plataformas instaladas no oceano, que bombeiam o petróleo até navios ou dutos.
Todo esse ciclo é altamente regulamentado por órgãos como a ANP (Agência Nacional do Petróleo) e o Ibama, que avaliam o impacto ambiental e as condições técnicas dos projetos.

Impactos e benefícios da exploração de petróleo
E apesar dos avanços na transição energética, o petróleo continua desempenhando um papel significativo na economia brasileira. Exemplo disso é o movimento que a Petrobras tem feito ao investir na exploração e pesquisas para localizar reservas em novas áreas como a Margem Equatorial, localizada na costa brasileira, entre os estados do Amapá e Rio Grande do Norte.
Um contexto dessa manobra é que em 2023, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) negou o pedido de licenciamento da Petrobras para perfuração na região, citando insuficiências nos estudos ambientais apresentados.
A empresa recorreu da decisão e, em maio de 2025, o Ibama aprovou o plano de prevenção a emergências proposto pela Petrobras, representando um avanço no processo de licenciamento
Mas a exploração nessa região tem gerado debates.
Por um lado, há argumentos favoráveis, destacando o potencial econômico, a geração de empregos e a arrecadação de recursos para financiar a própria transição.
Por outro, há preocupações ambientais, especialmente devido à proximidade com a foz do rio Amazonas e à biodiversidade sensível da área. A possibilidade de impactos irreversíveis à fauna, flora marinha e comunidades costeiras tradicionais mobilizou uma ampla articulação de organizações socioambientais, cientistas e povos originários.
Diversos movimentos ambientalistas, como a Coalizão Energia Limpa, ONGs locais e redes como o Observatório do Clima, se manifestaram contra a exploração na Margem Equatorial, denunciando os riscos de vazamentos, a falta de estudos aprofundados e a ausência de escuta às populações que habitam a região.
Impacto da redução dos combustíveis fósseis
Reduzir o uso de combustíveis fósseis, como petróleo, gás e carvão, é um passo essencial para frear o aquecimento global e enfrentar a crise climática.
Mas essa transição não acontece de forma igual para todos os países.
Enquanto os países ricos já cresceram e se desenvolveram usando intensamente essas fontes de energia, recentemente os países em desenvolvimento passaram a dar atenção para essa pauta.
Por exemplo, nações como Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido construíram suas indústrias, suas cidades e seus sistemas de transporte ao longo de mais de um século queimando enormes quantidades de petróleo e carvão. Foi assim que conseguiram captar recursos para, entre outras coisas, financiar escolas, hospitais, estradas e tecnologias.
Hoje, essas mesmas nações lideram os fóruns internacionais dizendo que todos devem parar de usar petróleo para proteger o planeta — e elas estão certas. Mas o problema é que muitos países, como o Brasil, nem chegaram a se beneficiar plenamente desse modelo tradicional.
Na prática, muitos países do chamado Sul Global denunciam essa desigualdade histórica no debate climático. Afinal, como fazer uma transição energética sem comprometer empregos, arrecadação de impostos e investimentos públicos?

Existe um Brasil sem combustíveis fósseis?
No Brasil, por exemplo, a maior parte da energia elétrica já vem de fontes renováveis, como usinas hidrelétricas, eólicas e solares. Mas isso não significa que o país possa simplesmente abrir mão do petróleo.
O setor é uma das principais fontes de exportação e geração de receita para estados como Rio de Janeiro e Espírito Santo. E com o debate sobre a exploração de novas reservas na Margem Equatorial, cresce o receio de que uma transição rápida, sem planejamento e sem apoio internacional, possa deixar essas regiões para trás.
Um exemplo recente dessa tensão apareceu na COP28, a conferência da ONU de 2023 sobre o clima. Países africanos e latino-americanos se uniram para pedir uma transição energética justa, ou seja, que leve em conta o ponto de partida de cada país.
Eles reivindicaram um verdadeiro movimento em busca da equidade climática, pedindo por apoio financeiro, transferência de tecnologia e o reconhecimento de que quem mais polui historicamente deve ter mais responsabilidade na hora de financiar soluções.
Porque, no fim das contas, a questão não é apenas desligar as termelétricas e parar de extrair petróleo. A questão é: quem vai pagar essa conta? E como garantir que países em desenvolvimento possam mudar sem aumentar ainda mais a distância entre os que já têm muito e os que ainda lutam por condições básicas de vida?
É assim que o termo “justiça climática” apareceu, porque sem justiça climática não existe transição energética real — só deslocamento de responsabilidades.

Petróleo como financiamento da exploração
É justamente nesse cenário de desigualdade que surge uma proposta polêmica, mas recorrente: e se o próprio petróleo pudesse financiar a transição energética?
Essa ideia, defendida por diversos especialistas, parte do princípio de que países em desenvolvimento, como o Brasil, poderiam usar os recursos gerados pela exploração de petróleo para investir em tecnologias limpas, modernização da infraestrutura e ampliação de energias renováveis.
Um dos nomes que representa essa visão é o professor de Geopolítica do Petróleo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marcelo Simas, que argumenta que o petróleo, se explorado com responsabilidade ambiental e social, pode ser uma ponte entre o presente e o futuro energético do país.
Para ele, interromper completamente a exploração sem alternativas concretas de financiamento pode paralisar os avanços da própria transição. A proposta, no entanto, divide opiniões.
Afinal, usar o petróleo para sair do petróleo exige mais do que planejamento técnico — exige vontade política, transparência e compromisso com o que realmente importa: garantir uma transição energética justa, inclusiva e que beneficie quem mais precisa.
Conclusão
A transição energética é inevitável, mas não é simples — especialmente para países como o Brasil, que enfrentam o desafio de equilibrar sustentabilidade com justiça social e desenvolvimento econômico.
O país tem vantagens inegáveis, como uma matriz elétrica renovável e expertise em tecnologias limpas. No entanto, a dependência econômica do petróleo ainda pesa sobre decisões políticas e estratégias de longo prazo.
A polêmica sobre a Margem Equatorial revela essa tensão com clareza: enquanto especialistas, movimentos ambientais e comunidades locais alertam para os riscos ambientais e sociais, parte do setor energético defende a exploração como uma ponte para financiar a própria transição.
Neste contexto, a proposta de usar o petróleo como alavanca para sair dele mesmo exige mais do que boas intenções — requer planejamento, transparência, escuta ativa e compromisso com uma justiça climática real.
Cabe ao Brasil decidir se quer ser apenas um exportador de combustíveis ou um protagonista global de um novo modelo energético, mais justo, limpo e democrático.