Por Cleber Lourenço
A reunião de líderes da Câmara realizada nesta terça (9) foi descrita por parlamentares como marcada por cautela. O presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), reafirmou que nesta semana serão levados ao plenário apenas projetos considerados consensuais, deixando de fora a discussão da anistia aos envolvidos no 8 de janeiro.
A decisão ocorre no momento em que o Supremo Tribunal Federal julga a tentativa de golpe de Estado, que pela primeira vez leva militares e um ex-presidente da República ao banco dos réus. Para aliados do governo, essa escolha teve efeito imediato de reduzir a tensão institucional no curto prazo, mas não resolve o impasse mais amplo sobre a tramitação da proposta.
Apesar do freio temporário, a pressão da oposição não diminuiu. O PL insistiu em colocar a urgência da proposta na pauta, e lideranças governistas reconhecem que a articulação precisa ser reforçada para impedir o avanço do texto nas próximas semanas.
Um integrante da base afirmou em reservado que o partido segue testando os limites da presidência da Casa: “Seria um absurdo a Câmara deliberar sobre uma anistia no meio do maior julgamento da história do Brasil. A decisão de segurar o tema agora foi um alívio, mas a batalha está longe de terminar”. A ausência da matéria na agenda imediata é vista por esses setores como um compromisso mínimo com a democracia, mas não como um pacto duradouro.
Parlamentares ouvidos pela coluna apontam que o clima interno continua tenso. A deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ) destacou que seria “inaceitável” deliberar sobre a anistia durante o julgamento no STF. Segundo ela, a ausência de compromissos para pautar a proposta foi um sinal positivo: “É crucial que essa pauta não avance em um momento tão sensível para a democracia brasileira”. Ela acrescentou que a simples cogitação de avançar nesse debate expõe o Parlamento a uma contradição perigosa: “Enquanto o Supremo julga os responsáveis por tentar um golpe, não faz sentido que a Câmara discuta como anistiá-los. Isso seria uma agressão à memória e à justiça”.

Placar dividido sobre a anistia
Talíria relatou ainda ter consultado o deputado Antônio Brito (PSD-BA) sobre a correlação de forças e ouviu que o placar hoje está dividido, “meio a meio”. Para a deputada, esse retrato mostra que o governo terá de se empenhar em cada voto: “Esse cenário dividido mostra que a luta será voto a voto, não há espaço para distrações”.
O problema central, segundo integrantes da base, é que a orientação contrária à proposta é inviável por conta de acordos partidários. Fontes em off destacam que será difícil orientar o PSD contra a anistia devido à influência direta de Gilberto Kassab, presidente do partido. A expectativa é de que a sigla libere a bancada, aumentando a incerteza sobre o resultado em plenário.
Sem a possibilidade de uma diretriz unificada, a estratégia governista se concentra em contar votos individualmente para tentar derrotar a urgência caso ela seja submetida ao plenário. Essa situação amplia o peso das negociações de bastidor, já que deputados de partidos do centrão podem definir o resultado dependendo de pressões regionais e compromissos locais.
Na avaliação de lideranças, o recuo desta semana é apenas uma pausa. A expectativa é de que a pressão pela anistia volte a crescer assim que o STF concluir o julgamento dos réus do 8 de janeiro. Até lá, o governo tenta reforçar contatos com bancadas consideradas decisivas, como União Brasil, Republicanos e PP, além de monitorar diariamente os movimentos do PSD.
A percepção é de que a oposição buscará retomar o tema tão logo o julgamento perca o protagonismo na cena política. O desafio do governo será manter a proposta fora da pauta ou garantir votos suficientes para impedir sua aprovação em uma eventual votação de urgência, em um ambiente no qual cada deputado pode se tornar decisivo. A leitura compartilhada por aliados é que a disputa ainda está em aberto e que o risco de a anistia voltar à ordem do dia permanece real e imediato.