Após apoiar PEC da Bandidagem, petista ganha relatoria indicada por Hugo Motta

Deputado do PT foi escolhido para relatar projeto sobre falsificação de alimentos após se alinhar ao presidente da Câmara na proposta que blindava parlamentares
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Por Cleber Lourenço 

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou a escolha do deputado Kiko Celeguim (PT-SP) como relator do PL 2307/2007, que classifica como crime hediondo a adulteração e falsificação de alimentos e bebidas. A decisão foi divulgada em suas redes sociais e repercutiu imediatamente no Congresso. Nos bastidores, a leitura predominante é que a relatoria foi um prêmio político pelo apoio de Celeguim à chamada PEC da Bandidagem, também conhecida como PEC da Blindagem, proposta que buscava ampliar prerrogativas e imunidades de deputados e senadores. O deputado votou pela aprovação da PEC no primeiro turno de votação na Câmara dos Deputados e recuou após reação negativa.

petista Motta PEC
(Foto: Reprodução)

A PEC provocou forte reação da opinião pública e de especialistas em direito, que a enxergaram como um retrocesso no combate à corrupção e uma tentativa de dificultar a responsabilização de parlamentares. Ainda assim, o texto avançou em momentos decisivos graças a acordos articulados por Motta e sustentados por votos estratégicos de aliados. Entre eles, estava o de Celeguim, que contrariou parte da militância petista e garantiu fôlego ao projeto. O gesto gerou incômodo dentro do PT, mas foi visto por alguns setores como cálculo político em busca de espaço na pauta legislativa.

Agora, o resultado dessa escolha aparece de forma concreta. A relatoria do PL 2307/2007 coloca Celeguim em posição de destaque em um projeto com grande apelo social, já que endurece penas contra a falsificação de alimentos e bebidas, classifica o crime como hediondo e limita benefícios a condenados. Trata-se de uma pauta de impacto direto na opinião pública, que pode ser apresentada como defesa da saúde e da vida dos consumidores diante da crise do metanol. Para parlamentares, a relatoria tem dupla função: vitrine positiva para o deputado e demonstração de poder de Motta.

Para fontes do Palácio do Planalto, a movimentação reforça o estilo de comando de Motta, baseado em recompensas a quem se alinha e isolamento de quem se opõe. “Prêmio pro Kiko por ter votado com o Motta na PEC da blindagem”, resumiu uma fonte em conversa com o ICL Notícias. A prática fortalece a posição do presidente da Câmara e deixa claro que ele mantém sob seu controle a distribuição dos espaços de poder.

O PL 2307/2007, embora apresentado há anos, retorna à agenda em meio ao aumento de denúncias sobre adulteração de bebidas e produtos alimentícios. Motta declarou que a medida é essencial para “proteger a indústria, o comércio e, acima de tudo, a vida das pessoas”. A escolha de um deputado do PT para conduzir a matéria também é interpretada como tentativa de ampliar pontes políticas e reforçar a narrativa de que sua gestão na Câmara inclui espaços para diferentes partidos, inclusive aqueles que demonstraram resistência à PEC da Bandidagem.

Dentro do PT, a indicação de Celeguim expõe contradições internas. O parlamentar foi criticado pela postura na votação da PEC, mas agora terá a oportunidade de associar seu nome a uma pauta de caráter social e de grande visibilidade. O cálculo envolve riscos: o desgaste pela proximidade com Motta pode ser compensado pela projeção de conduzir um projeto de interesse popular.

Nos bastidores, prevalece a leitura de que a nomeação de Celeguim vai além do mérito legislativo. O episódio reforça que a votação da PEC da Bandidagem continua a marcar uma divisão de forças no Congresso: os que estiveram com Motta começam a colher espaços estratégicos, enquanto os que se opuseram devem colher o isolamento. Para observadores em Brasília, a relatoria de Celeguim é mais um exemplo do jogo de recompensas que tende a pautar a relação entre o presidente da Câmara e seus aliados daqui em diante em sua escalada para tentar retomar a liderança da casa que preside.

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