Desde que, há alguns dias, surgiu o primeiro caso de intoxicação por metanol usado em bebida adulterada, o medo está no ar. Especialmente em São Paulo, estado com maior número de casos confirmados — 15 ocorrências.
Afinal, somente em território paulista foram registrados óbitos por ingestão de metanol (três pessoas morreram). Também foi em São Paulo que a adulteração de bebida causou cegueira irreversível na designer de interiores Radharani Domingos, de 43 anos.
Mesmo nesse contexto trágico, o governador Tarcísio de Freitas se sentiu à vontade para brincar com a situação, em entrevista coletiva concedida após reunião com empresários do setor de bebidas.
“No dia que começarem a falsificar Coca-Cola, eu vou me preocupar. Ainda bem que ainda não chegaram a esse ponto”, comentou.
A fala é constrangedora, mas não surpreendente. Como bom bolsonarista, o governador de São Paulo é chegado a menosprezar ou brincar com a desgraça alheia.
Jair Bolsonaro é o tal que disse não ser coveiro para justificar sua omissão quando ocupava a Presidência da República (!) em plena pandemia que matou 700 mil brasileiros. Ele também zombou várias vezes daqueles que reclamavam por ter sido infectados pelo coronavirus. Em um desses momentos imitou voz fina, em brincadeira homofóbica, e disse às gargalhadas: “Eu tô com covid”. Em outro momento, imitou um doente sem ar.
Em muitas das lives abjetas que Bolsonaro fez na pandemia, debochando de doentes, incentivando desobediência ao isolamento social ou indicando cloroquina, Tarcísio de Freitas estava a seu lado. A cada barbaridade proferida por seu chefe, o então ministro sorria ou gargalhava.
Não é de agora, portanto, essa falta de empatia do governador.
Basta recordar a resposta dada aos jornalistas que o confrontaram com as acusações de assassinatos e violações de direitos humanos praticados pela PM, durante a Operação Escudo, realizada na periferia de Santos.
“Tô nem aí”, disse, naquele momento.
A crueldade é um traço comum aos bolsonaristas.
Mesmo aqueles que calçam sapatênis ou sabem usar garfo e faca têm esse desvio de caráter.
Isso explica, por exemplo, o motivo pelo qual Tarcísio chegou a punir professores da rede estadual de São Paulo que estavam de licença médica — uma liminar conseguida na Justiça na semana passada interrompeu essa ilegalidade.
Os extremistas de direita e os farialimers minimizam o comentário do governador sobre a Coca-Cola, uns classificam como momento inofensivo de descontração (não haveria ocasião mais inadequada para isso). Outros admitem que foi apenas um “deslize”.
É o tipo de condescendência que não teriam se o autor do comentário fosse alguém do campo político oposto.
Já imaginaram se a frase tivesse saído da boca de Lula?
Não… impossível imaginar.
Ao contrário dos bolsonaristas, o presidente atual tem como uma das principais características a empatia.
A marca do bolsonarismo, que incluiu Tarcísio de Freitas, é justamente a incapacidade de colocar-se no lugar do outro.
Sem essa qualidade, ninguém deveria candidatar-se a cargos públicos.
Que o eleitor lembre-se disso no momento de ir à urna.