Nos últimos processos eleitorais brasileiros, um fenômeno preocupante tem ganhado destaque no debate público: os gabinetes de ódio.
Essas estruturas organizadas emergiram como componentes estratégicos (e polêmicos) nas campanhas eleitorais modernas, mudando completamente a forma como a disputa política acontece no ambiente digital.
Para compreender os desafios que as eleições 2026 enfrentarão, é fundamental entender o que são essas operações e como elas impactam a democracia. Vamos entender o que é esse movimento, quem são as pessoas por trás desse gabinete e quais são os impactos reais na democracia.
O que são os gabinetes do ódio?
Os chamados “gabinetes do ódio” são grupos organizados que atuam de forma coordenada nas redes sociais e na internet para espalhar mentiras, atacar adversários políticos e estimular a polarização entre as pessoas.
Eles podem ser formados por apoiadores, militantes ou até empresas contratadas, e trabalham juntos para influenciar a opinião pública e mover as peças certas para manter ou colocar um grupo específico de pessoas no governo.
De acordo com a Polícia Federal, esses grupos operam por meio de uma estrutura conhecida como “gabinete do ódio” porque produzem e divulgam conteúdos nas redes sociais com o objetivo de atingir pessoas escolhidas previamente.
A delegada da Polícia Federal Denisse Ribeiro, responsável por conduzir as investigações das fake news e das milícias digitais, descreveu em relatório ao Supremo Tribunal Federal (STF) que a organização utiliza essa estrutura para atacar de forma anônima diversas pessoas, incluindo antagonistas políticos, ministros do STF e integrantes do próprio governo.
O objetivo, segundo a investigação, é pavimentar o caminho para alcance de ganhos ideológicos, político-partidários e financeiros.
O ministro do STF Alexandre de Moraes, relator dos inquéritos sobre fake news e milícias digitais, afirmou que as investigações apontam para a existência de uma verdadeira associação criminosa dedicada à disseminação de notícias falsas, com flagrante conteúdo de ódio, subversão da ordem e incentivo à quebra da normalidade institucional e democrática.

Quem são as pessoas que formam o gabinete do ódio?
As investigações da Polícia Federal identificaram diversos integrantes da estrutura conhecida como gabinete de ódio.
Segundo delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, o vereador Carlos Bolsonaro era quem comandava o suposto gabinete do ódio no Palácio do Planalto.
E de acordo com as investigações, três assessores especiais integravam o núcleo central do gabinete: Tércio Arnaud Thomaz, José Matheus Sales Gomes e Mateus Matos Diniz — todos trabalhavam sob a coordenação direta de Carlos Bolsonaro e foram nomeados assessores especiais da Presidência da República.
Em junho de 2025, a Polícia Federal indiciou Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro, Alexandre Ramagem (ex-diretor da Abin e deputado federal) e mais de 30 pessoas pelos crimes relacionados à operação do gabinete do ódio e da chamada “Abin Paralela“.
Entre os indiciados estão Filipe Martins, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência, e Tércio Arnaud, ambos investigados por organização criminosa.
Entre os protagonistas vale indicar que Tércio era responsável pela página “Bolsonaro Opressor” e também foi incorporado à estrutura do gabinete. Segundo informações da Polícia Federal, Tércio repassava imagens do presidente Bolsonaro com exclusividade para canais de apoio ao governo.
Ele também foi apontado como administrador da página “Bolsonaro Newsss”, derrubada pelo Facebook por veicular notícias falsas e criar polêmicas na internet.

Quem financia o gabinete do ódio?
Um dos aspectos mais preocupantes dessas estruturas é seu modelo de financiamento.
Segundo informações presentes na decisão do ministro Alexandre de Moraes, há indícios de que empresários financiam de forma velada a disseminação de fake news e conteúdo de ódio contra instituições democráticas.
O ministro citou em sua decisão a existência de um grupo autodenominado “Brasil 200 Empresarial“, em que os participantes colaboraram entre si para impulsionar vídeos e materiais contendo ofensas e notícias falsas com o objetivo de desestabilizar as instituições democráticas e a independência dos poderes.
Esses recursos são utilizados para profissionalizar as operações e incluem a contratação de equipes terceirizadas, a compra de impulsionamento de conteúdos em plataformas digitais e a criação de redes artificiais de distribuição.
Durante a campanha eleitoral, esse tipo de estrutura ganha ainda mais força, pois há maior disponibilidade de recursos financeiros para propaganda eleitoral.

O impacto dos gabinetes do ódio nas campanhas eleitorais
Porém, não importa o tamanho dos recursos financeiros, o impacto social é sempre significativo com esse grupo. Por isso, é sempre importante ter a consciência de que essas estruturas têm consequências diretas sobre a qualidade da disputa democrática.
Ao disseminar desinformação de forma coordenada e em massa, os gabinetes de ódio distorcem o debate público e prejudicam a capacidade dos eleitores de tomarem decisões informadas, que falam a verdade, durante a campanha eleitoral.
É preciso que as pessoas tomem suas próprias decisões, focadas, inclusive, no próprio senso crítico do que é melhor para suas respectivas realidades.
Porém, nos últimos anos percebemos que os grupos do WhatsApp foram sendo tomados pela avalanche de fake news, pela disseminação de inverdades e por uma grave difamação à esquerda.
Exemplo disso foi o caso da mamadeira erótica em 2018.
Uma série de mensagens falsas circulou em grupos de WhatsApp afirmando que o então candidato Fernando Haddad, do PT, distribuía “mamadeiras eróticas” em creches — a história, completamente inventada, foi amplamente compartilhada e usada para associar a esquerda a pautas imorais e não verdadeiras.
Outro exemplo foi em 2024, quando a Receita Federal atualizou, em janeiro, as regras de monitoramento de transações via PIX para coibir fraudes e sonegação.
A verdade é que a direita viu nisso uma oportunidade e, no mesmo dia, começaram a circular nas redes sociais boatos de que o governo passaria a “taxar o PIX”. A fake news ganhou força e obrigou o presidente Lula a se pronunciar publicamente para desmentir o rumor e até recuar a medida.

O gabinete do ódio nas redes sociais
Como já ficou claro, as redes sociais são o principal ambiente de atuação dos gabinetes de ódio.
Segundo investigações relatadas pela Polícia Federal, essas estruturas utilizam múltiplos canais da internet, especialmente plataformas como Facebook, X (antigo Twitter), Instagram, WhatsApp e Telegram para disseminar seu conteúdo.
A vantagem dessas plataformas é a velocidade de propagação das informações e a possibilidade de atingir milhões de pessoas em poucos minutos.
Por exemplo, em 2020, o Facebook removeu 88 contas e páginas ligadas a atividades de desinformação coordenadas, conforme reportado em investigações do STF.
As contas operavam desde as eleições de 2018 e fariam parte do esquema de disseminação de fake news e ataques contra opositores.
O ministro Alexandre de Moraes autorizou a Polícia Federal a acessar todas as informações relativas à investigação conduzida pela plataforma sobre esses perfis. Mas quais são as consequências para quem participa desse movimento de mentiras?
Vamos entender a seguir.
As consequências do gabinete do ódio
As atividades dos gabinetes de ódio têm consequências graves para a democracia brasileira.
Além de distorcer o debate público e prejudicar a capacidade de escolha informada dos eleitores, essas práticas resultam em casos concretos de violência política, calúnia e difamação.
O inquérito das Fake News
A gravidade da situação em 2018 levou à instauração de investigações da Polícia Federal e à abertura de inquéritos no Supremo Tribunal Federal para apurar a responsabilidade e os agentes envolvidos nesses projetos.
O chamado “inquérito das fake news” foi aberto pelo próprio STF em 2019 para apurar a divulgação de notícias falsas e ameaças contra integrantes da Corte.
Dessa forma, é importante destacar a eficácia do inquérito quando tivemos as prisões de Sara Winter e Allan dos Santos, figuras centrais na disseminação de desinformação e ataques virtuais a instituições democráticas em 2020 e 2021, respectivamente.
Já em dezembro de 2024, o ministro Alexandre de Moraes prorrogou por mais 180 dias o inquérito das fake news, complementando a análise das informações obtidas mediante quebra de sigilo fiscal e bancário.
Esse movimento foi especialmente importante porque, segundo nota da Corte, a prorrogação é necessária para finalizar as investigações sobre a comprovação da existência, o financiamento e o modo de operação do gabinete do ódio.
Essas medidas são essenciais para preservar a integridade do processo eleitoral e restabelecer a confiança do público nas instituições. Mais do que nunca, é preciso que a sociedade, a imprensa e as plataformas digitais atuem juntas para garantir que a verdade sempre prevaleça.

Práticas de combate à desinformação e fake news
Diante desse cenário desafiador, diversas medidas estão sendo implementadas para coibir as práticas dos gabinetes de ódio e proteger a integridade das eleições 2026.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem sido protagonista no combate aos gabinetes de ódio e à desinformação. Além da regulamentação do uso de inteligência artificial, a Corte estabeleceu uma série de medidas para as eleições, incluindo:
1. Responsabilização das plataformas digitais
A Resolução nº 23.732/2024 ampliou as responsabilidades de provedores de internet e plataformas de redes sociais nos casos de disseminação de informações falsas ou enganosas relacionadas às eleições. As plataformas que não retirarem do ar imediatamente conteúdos que contenham discursos de ódio ou teor antidemocrático podem ser responsabilizadas.
2. Poder de polícia na internet
Durante as eleições, juízes e juízas eleitorais detêm o poder de polícia na internet e podem, junto com o TSE, determinar não só a remoção de alguns tipos de conteúdo, mas também a suspensão de perfis e o fornecimento de dados para instruir investigações e processos.
3. Banco de dados de fake news
As postagens falsas que atinjam o processo eleitoral e que tenham sido removidas por ordem do TSE integram um banco de dados que pode ser acessado por juízes de todo o país e pelo Ministério Público.
O objetivo é facilitar a fiscalização e impedir que materiais já considerados ilegais sejam duplicados ou voltem a circular nas redes.
Contra o ódio, a informação
Diante de tudo isso, fica evidente que o combate aos gabinetes do ódio e à desinformação não depende apenas das instituições, mas também da consciência crítica de cada cidadão. A educação midiática se tornou (e continuará se tornando) uma ferramenta essencial para fortalecer a democracia e proteger o debate público.
Compreender como funcionam as plataformas digitais, identificar fake news e reconhecer estratégias de manipulação são passos fundamentais para que possamos exercer uma cidadania mais informada e responsável.
O curso “Educação midiática e cidadania” é um convite para quem deseja entender melhor esse cenário e se preparar para enfrentá-lo com informação e senso crítico.
Afinal, só com conhecimento e participação ativa poderemos garantir que a verdade e o diálogo prevaleçam sobre o ódio e a mentira.