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Por João Gabriel

(Folhapress) – A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, cobrou que o Brasil lidere a criação de uma estrutura de governança ambiental para a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, e disse que os estudos técnicos que liberaram a licença para a Petrobras não foram influenciados por pressão política.

“Se houve qualquer manifestação política, isso não influenciou o processo de trabalho com a qualidade que foi feito pelos nossos técnicos”, afirmou ao canal oficial do governo federal no You Tube. “Todas as exigências que o Ibama fez eram altamente necessárias”, concluiu Marina.

Na última segunda-feira (20), o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) concedeu a licença para a Petrobras perfurar o bloco 59 da Foz do Amazonas.

Como revelou a Folha de S.Paulo, o parecer técnico que embasa essa decisão cita o risco a peixes-boi ameaçados de extinção e lembra que os impactos aos povos indígenas foram ignorados, com aval de uma decisão da AGU (Advocacia-Geral da União).

Agostinho atendeu à sugestão dos técnicos, e para autorizar o empreendimento, criou 34 condicionantes a serem obrigatoriamente seguidas, além da exigência de pagamento de R$ 39,6 milhões em compensações ambientais.

O empreendimento se tornou um dos principais focos de embate interno do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Técnicos do Ibama recomendam rejeição de licença para pesquisar petróleo na Foz do Amazonas - pl petrobras lula
Na última segunda, o Ibama concedeu a licença para a Petrobras perfurar o bloco 59 da Foz do Amazonas, ideia que Marina era contra (Foto: Reprodução)

Visões diferentes

Marina vinha se posicionando contra a ampliação de mais uma frente de exploração de petróleo.

Por outro lado, o próprio Lula criticou publicamente o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, pela demora em autorizar o projeto.

Nomes como o líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, também são defensores do empreendimento.

Marina agora defende que a exploração precisa acontecer “estabelecendo por parte do governo que aquele espaço é um espaço que está sob cuidado, atenção e transparência para que coisas aconteçam em conformidade com a norma”.

Ela lembra que a perfuração do bloco 59 ainda serve apenas para avaliar se há viabilidade de produção comercial de petróleo no local. Mas se houver, diz, a pressão para que isso avance será ainda maior, e por isso é necessário garantir a governança.

Proposta de Marina

A gestão que Marina propõe seria composta por Unidades de Conservação e Reservas de Proteção ambiental na Margem Equatorial (o que já está em estudo no governo), a realização de uma avaliação de impacto estratégica e ampla para toda a região, além da elaboração de indicadores de controle para o empreendimento.

Esse estudo a que ela se refere é a chamada AAAS (Avaliação Ambiental de Área Sedimentar).

Diferente do EIA/Rima, que é a análise padrão nos licenciamentos do Ibama, esta outra é mais ampla e não leva em conta apenas o impacto do empreendimento em questão, mas da atividade em toda aquela região.

A AAAS existe há anos, mas poucas vezes foi colocada em prática. Houve um acordo dentro do governo Lula para que esse instrumento fosse usado, o que também não se concretizou até agora.

Recentemente, a ANP (Agência Nacional de Petróleo e Gás) leiloou mais 19 blocos da Margem Equatorial, e por isso a ministra cobrou novamente que seja feita esta avaliação.

Região precisa de estudos

Segundo Marina, a região é de pouco conhecimento, tanto quanto suas propriedades petroleiras, mas também acerca de correntes marítimas e outras características ambientais, e precisaria ser melhor estudada para que os empreendimentos avançassem.

Ela lembrou que os ministérios do Meio Ambiente e dos Transportes realizam uma avaliação estratégica semelhante para a BR-319, empreendimento que está empacado há décadas, gera tensões políticas e também é criticado por ambientalistas.

“Nós levamos 20 anos para fazer o que precisava ser feito [com a BR-319]. Agora a gente tem uma curva de aprendizagem. Agora a gente já pode dizer: nós vamos para os novos empreendimentos, como é o caso da Foz do Amazonas, contratar os estudos, fazer toda a parte de governanca”, afirmou Marina.

Ela defendeu a criação de unidades de conservação para proteção da vida marinha na região, que tem também recifes de corais considerados sensíveis por ambientalistas. Além disso, também o estabelecimento de reservas para que pescadores possam praticar sua atividade.

E também disse que Foz do Amazonas precisa ter um plano assim como o de combate ao desmatamento, mas no caso do petróleo, com índices de avanço para a transição energética.

“Penso na Foz do Amazonas como talvez algo parecido com o que nós fizemos com o plano de combate ao desmatamento na Amazônia. Se a gente quer mostrar indicadores de esforço, de que de fato estamos indo para transição, para sair da dependência do uso de combustíveis fósseis, esse é o lugar onde você pode fazer tudo de uma forma diferente”, afirmou Marina.

“As vezes a gente tem uma longa jornada e […] a gente [precisa] começar de algum ponto. A transição energética justa, em conformidade com os princípios da justiça climática, é algo que pode e precisa ser feito”, completou.

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