Morte do filho de Seu Cláudio pela polícia não foi resultado somente de escolhas individuais

Apelo à meritocracia mostra a sede do jornal em tirar parte da responsabilidade da opinião pública, da própria imprensa e do Estado
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Por Camila Pizzolotto*

Cláudio Lima, feirante e pai de Hércules Célio Lima, de 23 anos, assassinado pela polícia no Complexo da Penha, lamentou a profunda dor de perder o filho em entrevista para o jornal O Globo. O título da entrevista nas redes sociais era uma fala de Cláudio: “Sou feirante: era o que eu podia dar, mas ele não quis”.

É revoltante demais que um jornal com o peso de O Globo pegue a fala de um pai dilacerado e coloque no título, jogando culpa e responsabilidade do que aconteceu, ainda que indiretamente, nas escolhas puramente individuais.

A citação da fala desse pai, jogada aos leões das redes sociais, virou o trampolim perfeito pra quem goza ao ver pessoas sendo torturadas.

Assim, Seu Cláudio perde o filho muitas vezes.

É mais do que evidente que as pessoas têm sua parcela de escolha, agência sobre a própria vida.

O que parece difícil de entender, para alguns, é o que faz as pessoas terem ódio do Estado, nenhuma fé na coisa pública, a sensação de que ser “trabalhador” é correr atrás do próprio rabo, vontade de viver no conforto e no consumo, como qualquer um.

A maioria da população brasileira precisa de sua força de trabalho para sobreviver. Mas não sejamos hipócritas: quem aqui conseguiria trabalhar por um salário mínimo por mais de 50 anos, vindo de famílias também muito pobres, sem conseguir o básico, e ainda assim nao sentir ódio?

Que adolescente não se deslumbra quando lhe prometem mundos e fundos, e vê uma perspectiva de ter conforto e dar conforto?

Quem é que não sente ódio ao ver um avô ou avó tendo trabalhado quase 80 anos sem pausa e acha que isso é vida? Como achar isso bonito?

A vida pode ter diversos rumos, mas ao jogar essa responsabilidade somente nas costas de Hércules, um rapaz de 23 anos e, consequentemente de seu pai, Cláudio, a imprensa apaga propositalmente a maior parte do problema.

O apelo à ideia de meritocracia mostra a sede do jornal em tirar parte da responsabilidade da opinião pública, da própria imprensa e do Estado.

Quem acha essa ética do trabalho bonita não teve um familiar no mercado informal, não viu a saúde mental e física de seus familiares se deteriorarem, não teve parente que enlouqueceu pela pobreza.

Ou quem só tem essa ética do trabalho para se agarrar como defesa, que é o caso desse pai. É desolador demais

Quem acredita que “é só trabalhar”, nessa oposição imbecil, é porque de alguma forma teve onde se apoiar.

Quem não sente ódio de ver que mesmo o “trabalhador” pode ser considerado traficante só pelo jeito de vestir, pelo local onde mora, pela forma de falar, e por isso tomar esculacho de polícia?

Quem não sente ódio quando percebe que se o Estado está presente em poucos momentos, e quando está, é para amassar parte da população?

Para não sentir ódio, é preciso ter horizonte, ter perspectiva diferente dessa.

 

*Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

 

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