Nova República: desafios, impactos e o contexto histórico da redemocratização no Brasil

Da saída da ditadura até a queda de Bolsonaro, a Nova República mostra avanços, conquistas e a briga constante para manter viva a democracia no Brasil
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A Nova República brasileira, inaugurada com o fim da Ditadura Militar, representa um período complexo da redemocratização do país, marcado por conquistas históricas e desafios estruturais que seguem presentes mais de quatro décadas depois.

Aqui vamos entender como a Nova República surgiu, como a queda da ditadura aconteceu, e quais foram os marcos históricos dessa fase que foi marcada pela transição do autoritarismo para o estado democrático.

Contexto histórico da Nova República

O processo de redemocratização começou ainda na década de 1970, com a política de “abertura lenta, gradual e segura” do governo Ernesto Geisel.

O regime militar, instaurado em 1964, enfrentava desgaste econômico, isolamento internacional e crescente pressão da sociedade civil organizada. Mas foi apenas com as mobilizações das Diretas Já, em 1983, que tivemos o maior marco — o auge da contestação popular ao regime.

Milhões de pessoas foram às ruas porque já não aguentavam mais a combinação de repressão política, censura, inflação alta, queda do salário e falta de perspectiva de futuro.

Afinal, depois de quase 20 anos de regime militar, a população queria algo muito simples: poder escolher diretamente o presidente da República e voltar a viver em democracia. Foi assim que as Diretas Já abriram caminho para o fim da ditadura e para um novo momento político no Brasil — começando pelas eleições democráticas.

O termo “Nova República”, inclusive, ficou conhecido na história do país como este marco pós-ditadura militar, mas também porque foi o slogan da campanha política de Tancredo Neves durante o período de eleição no Colégio Editorial.

Na foto, Tancredo Neves no palanque de discurso durante a campanha presidencial em 1984. Imagem: Arquivo Nacional 
Na foto, Tancredo Neves no palanque de discurso durante a campanha presidencial em 1984. Imagem: Arquivo Nacional

O início da Nova República em 1985

A Nova República teve início com a eleição de Tancredo Neves em 1985, escolhido pelo Colégio Eleitoral num momento em que o país ainda não realizava eleições diretas para presidente.

Apesar de indireta, a vitória de Tancredo foi altamente simbólica: ele derrotou Paulo Maluf, candidato identificado com o regime militar, e representou o desejo de mudança que tomava conta do país. Ou seja: foi o primeiro grande sinal de que o país estava deixando para trás a ditadura e caminhando para a democracia.

No entanto, Tancredo morreu antes de tomar posse, e quem assumiu foi o vice, José Sarney.

Coube a ele a tarefa complexa de comandar a transição democrática. Isso significava lidar com três grandes desafios: controlar a hiperinflação, negociar com uma extrema polarização política e organizar a Assembleia Nacional Constituinte — que escreveria a nova Constituição.

Durante este início, Sarney lançou o Plano Cruzado, uma tentativa de segurar a inflação e devolver poder de compra à população.

Além disso, o começo da Nova República foi marcado pelo fortalecimento dos movimentos sociais, como sindicatos, associações de bairro, organizações de trabalhadores rurais e grupos pró-democracia.

Apesar de Tancredo Neves ter vencido a eleição, o mesmo faleceu antes da posse, e José Sarney assumiu a Presidência em 15 de março de 1985, inaugurando oficialmente a Nova República. Imagem: Arquivo Nacional 
Apesar de Tancredo Neves ter vencido a eleição, o mesmo faleceu antes da posse, e José Sarney assumiu a Presidência em 15 de março de 1985, inaugurando oficialmente a Nova República. Imagem: Arquivo Nacional

As eleições pós-ditadura militar

A primeira eleição presidencial direta depois da ditadura aconteceu em 1989.

E este foi um verdadeiro marco democrático porque desde 1960 os brasileiros não podiam escolher diretamente seu presidente.

Por isso, a eleição de 1989 foi vista como um grande passo: devolver ao povo o direito de decidir quem governaria o país.

A importância desse momento ficou evidente já no tamanho da disputa — eram mais de vinte candidatos, refletindo um país que redescobria sua vida política depois de décadas de autoritarismo.

Entre eles estava Luiz Inácio Lula da Silva, então líder sindical em ascensão e uma das vozes mais fortes do campo popular, que chegaria ao segundo turno contra Fernando Collor.

Essa eleição consolidou a transição porque marcou, de forma prática, o retorno do poder de escolha ao eleitor — algo que tinha sido negado durante os 21 anos de regime militar.

O vencedor desta eleição foi Fernando Collor de Mello, que se apresentou como um candidato moderno, prometendo combater a corrupção e atualizar a economia brasileira.

Ele se tornou o primeiro presidente civil eleito pelo voto direto na Nova República, reforçando a ideia de que o país estava finalmente retomando o controle democrático.

Na imagem, respectivamente, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor em um aperto de mãos antes do debate eleitoral no Rio de Janeiro. Imagem: Arquivo Agência Estado
Na imagem, respectivamente, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor em um aperto de mãos antes do debate eleitoral no Rio de Janeiro. Imagem: Arquivo Agência Estado

Mas o governo Collor não durou como esperado.

Problemas econômicos, denúncias de corrupção e perda de apoio político fizeram seu governo entrar em crise — o que levou ao impeachment de 1992, o primeiro grande teste das instituições democráticas desde o fim da ditadura.

Esse cenário mostrou que, nesta Nova República que os brasileiros estavam vivendo, até um presidente eleito poderia ser responsabilizado se cometesse irregularidades.

As mobilizações populares da época

O fim da ditadura e a redemocratização não foram apenas um arranjo entre elites políticas e militares. Eles foram, sobretudo, resultado de forte pressão social.

Exemplo disso são as campanhas pelas Diretas Já, entre 1983 e 1984, que reuniram artistas, sindicalistas, estudantes e movimentos populares em comícios que mobilizaram milhões de pessoas em praças e avenidas do país.

Um dos atos mais emblemáticos, em São Paulo, completou 40 anos em 2024 e segue lembrado como símbolo da luta por eleições diretas.

Porém, além das Diretas Já, várias outras mobilizações populares tiveram papel central na pressão pelo fim da ditadura e pela reconstrução democrática.

As greves do ABC paulista, no final dos anos 1970 e início dos 1980, lideradas por metalúrgicos e por figuras como Luiz Inácio Lula da Silva, foram um dos primeiros sinais de que a sociedade não aceitava mais a repressão militar.

Essas greves, unidas aos movimentos estudantis como a UNE (União Nacional de Estudantes) e somadas com a repressão social que estava acontecendo na época, foram cruciais para que a Nova República ganhasse cada vez mais força.

Na imagem, uma manifestação do Diretas Já nas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Vidal da Trindade
Na imagem, uma manifestação do Diretas Já nas avenidas Rio Branco e Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Vidal da Trindade

As construções sociais da Nova República

Entre as principais conquistas da Nova República está a consolidação de um sistema de proteção social mais abrangente.

Afinal, apenas três anos depois dessas mobilizações, o país alcançou um de seus maiores marcos democráticos: a Constituição de 1988, que reuniu e tornou lei muitas das reivindicações construídas ao longo da luta contra a ditadura.

A nova Carta instituiu o Sistema Único de Saúde (SUS), ao afirmar que a saúde é “direito de todos e dever do Estado”, e criou uma rede nacional de serviços públicos organizada para atender toda a população.

Um artigo do Ministério da Saúde sobre a história do SUS mostra que, após 1988, houve forte expansão da atenção básica, maior cobertura vacinal e a consolidação de políticas como o Programa Saúde da Família, que ampliaram o acesso da população a cuidados antes restritos a poucos — trabalhadores formais, servidores públicos e quem tinha dinheiro para pagar pelo atendimento privado.

Na imagem, Ulysses Guimarães anuncia a nova Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”. Foto: Arquivo Abr
Na imagem, Ulysses Guimarães anuncia a nova Constituição de 1988, conhecida como “Constituição Cidadã”. Foto: Arquivo Abr

Apesar desses avanços, nem tudo são flores.

Embora a Nova República tenha ampliado direitos e criado políticas sociais importantes, ela não rompeu com estruturas profundas de desigualdade. O país saiu da ditadura com uma Constituição mais democrática, mas manteve praticamente intocado o modelo de concentração de renda e a influência das elites econômicas nos rumos do Estado.

A redemocratização também não foi suficiente para enfrentar a violência estrutural que atinge, de forma desproporcional, populações historicamente marginalizadas — especialmente pessoas negras, moradores das periferias urbanas, povos indígenas e comunidades rurais mais pobres.

Assim, mesmo com avanços importantes como o SUS e a ampliação de direitos sociais, a Nova República continua marcada por desigualdades profundas, concentração de poder nas mãos de poucos e limitações das próprias instituições.

Veja mais em: Desafios sociais e políticos após a redemocratização do Brasil

Os impactos atuais da transição pós-ditadura

A forma como se deu a transição deixou marcas visíveis até hoje.

Cientistas políticos apontam que a ausência de justiça de transição ampla contribuiu para a permanência de uma cultura de impunidade. Na época, não houve nenhum tipo de investigação ou punição a torturadores, algo que acabou naturalizando a presença militar em áreas sensíveis do Estado.

Essa herança aparece hoje, por exemplo, na militarização da segurança pública e nas violações de direitos em periferias, sobretudo contra a população negra.

Dados do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD) mostram que pessoas negras têm maior probabilidade de sofrer abordagens policiais em grandes centros do país — um padrão claro de seletividade racial no uso da força também herdado deste período.

Veja mais: Militares na política: a politização dos quartéis e a militarização do Estado

Mais recentemente, esse legado ganhou camadas ainda mais graves.

A politização dentro das Forças Armadas e de setores das polícias — incentivada por discursos e movimentos da extrema-direita — terminou na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, quando os prédios dos três Poderes foram invadidos e destruídos em Brasília.

Essa escalada antidemocrática, iniciada muito antes do 8 de janeiro, acabou abrindo caminho para que as investigações revelassem a atuação direta de figuras políticas e militares no plano golpista.

Para a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investigou o caso, aquele foi o maior ataque à democracia brasileira desde a redemocratização, consequência da radicalização de líderes e grupos de direita que não aceitaram o resultado das eleições e fizeram de tudo para colocar em dúvida as instituições.

Prova disto é a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em 2025, destacando que o julgamento do grupo político envolvido no golpismo é também um momento inédito: as instituições finalmente passaram a responsabilizar quem ataca a democracia.

A falta de justiça durante a transição da República Nova manteve a impunidade e a influência militar no Estado, contribuindo para desigualdades, violência policial e, mais recentemente, os ataques de 8 de janeiro de 2023. Imagem: CBN 
A falta de justiça durante a transição da República Nova manteve a impunidade e a influência militar no Estado, contribuindo para desigualdades, violência policial e, mais recentemente, os ataques de 8 de janeiro de 2023. Imagem: CBN

Outros momentos que a democracia foi testada

Ao longo de quarenta anos, a democracia brasileira enfrentou sucessivos testes, começando pelo impeachment de Fernando Collor em 1992, como já falamos aqui.

Mas as denúncias de corrupção e o fracasso econômico do “Plano Collor” desencadearam grandes manifestações, especialmente os “caras-pintadas”, e levaram à abertura de processo por crime de responsabilidade.

Esse episódio, em específico, consolidou a ideia de que o impeachment pode ser um instrumento legítimo de defesa da ordem democrática.

Já o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, é visto de forma muito mais controversa.

Diversos juristas e cientistas políticos o classificam como golpe parlamentar, pela fragilidade das acusações de “pedaladas fiscais” — manobras orçamentárias comuns em governos anteriores.

O próprio Ministério Público Federal (MPF) arquivou posteriormente a ação sobre essas pedaladas, por ausência de crime.

A perseguição contra a ex-presidenta era tão intensa que até uma rede de fast-food acabou condenada por fazer propaganda contra Dilma Rousseff. Afinal, esse tipo de ataque ajudou a alimentar um clima de deslegitimação política que abriu caminho para posições cada vez mais autoritárias no país.

O impeachment de Dilma tornou-se o ápice dessa escalada e consolidou uma cultura de perseguição à esquerda, abrindo caminho para discursos antidemocráticos ganharem força.

Esse ambiente se intensificou com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018, que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023, uma vez que o relatório da CPMI dos Atos Antidemocráticos mostra que houve uma articulação organizada para tentar reverter, pela força, o resultado das urnas de 2022 — uma das maiores ameaças à democracia desde o fim da ditadura.

A posterior condenação de Bolsonaro pelo STF, em 2025, reforça esse quadro: pela primeira vez na Nova República, um ex-presidente e parte de seu núcleo político e militar foramresponsabilizados por estimular e planejar uma ruptura institucional.

Essa responsabilização simboliza um ponto de virada, ainda que tardio, em um país acostumado a ver elites políticas e militares escaparem de punições mesmo diante de ataques diretos às instituições democráticas.

Veja mais: Eles ainda estão aqui 

A história da Nova República revela que a redemocratização não foi um ponto de chegada, mas o início de uma disputa permanente por direitos, justiça e participação popular.

Afinal, a República Nova nasceu da luta contra a ditadura e da mobilização popular por direitos, culminando na Constituição de 1988 e em avanços como o SUS. Mas a transição incompleta manteve desigualdades, preservou a influência das elites e deixou espaço para a permanência da cultura autoritária, especialmente nas forças de segurança.

Nas décadas seguintes, a democracia foi testada repetidamente — do impeachment de Collor ao controverso afastamento de Dilma, que abriu uma onda de perseguição política e alimentou a radicalização da direita.

Esse ciclo atingiu seu ponto crítico com as articulações golpistas e a condenação de Jair Bolsonaro, uma verdadeira luz no fim do túnel quando falamos sobre retornar o poder à população e responsabilizar aqueles que debocham das instituições brasileiras.

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