A primeira lágrima é bela; a segunda é bonita. A primeira é genuína, a segunda repete o sentimento da primeira, é de gosto fácil – melhor dito, de gosto esperado. Nada a recear, todos gostam da segunda lágrima, porque a primeira já foi experimentada e todos gostaram.
Milan Kundera falava assim do Kitsch – como sendo a negação de tudo o que não é simples, harmonioso e confortável na vida humana. É dele esta belíssima formulação da “segunda lágrima” e é dele também a ideia de que (cito de memória) a verdadeira beleza tem de ter algo de estranho nas proporções. A “segunda lágrima” é Kitsch.
A maldição da política moderna consiste basicamente nessa necessidade de se entregar à “segunda lágrima”. A desgraça do discurso político contemporâneo são os aparelhos técnicos que assessoram e que aconselham o protagonista político, impondo-lhe as fórmulas já consagradas e a total ausência de novidade – por favor, “keep it simple, short and stupid”.
Primeiro fazemos as nossas análises, as nossas pesquisas, os nossos “focus group”, a nossa segmentação eleitoral, a nossa “contagem de narizes” – e só então partimos para o espaço público, confiantes e cheios de nós, para dizer o que todos dizem, o que sempre foi dito e o que todos querem ouvir. Afinal, o eleitor quer ser belissimamente enganado: “discurso previsível, com efeitos previsíveis, com recompensas previsíveis”. O Kitsch político é insuportável.
Machado de Assis fala disto na “teoria do medalhão”. O Pai aconselha ao filho a pôr de lado qualquer inovação intelectual se quiser vencer na vida:” proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.”.
A teoria do medalhão é o elogio da honesta mediania e da cautela como receita de sucesso na política. Sobretudo nada de imaginação, a maior inimiga de uma carreira pública estável e respeitada. Em Portugal os políticos “temperados “acabam na Fundação Gulbenkian, no Brasil na Academia Brasileira de Letras. Os segundos, dizem, são imortais.
Regressemos à “segunda lágrima”. Ela representa a ambição muito humana de agradar ao maior número e de recusar a incerteza dos humores do auditório a quem se dirige – uma aposta segura no que é “aceitável-porque-já-aceite “. No fundo ela busca o consenso, o idêntico, o insuportavelmente idêntico.
Mas se, como alguém escreveu, a política é a eterna aprendizagem do convívio com a decepção, então o kitsch é a linha de fuga daquilo que mais intrinsecamente a carateriza – o risco, a coragem e a contingência da ação. A “segunda lágrima” é o medo de ficar só. E Pedro Sanchéz não teve medo de ficar só. Era aqui que queria chegar.