ELIANA ALVES CRUZ: A Taça do Mundo que era nossa

Copa de 2026, fim ou começo de outro tempo?
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Quem nunca ouviu … “A Taça do Mundo é nossa / Com brasileiro / Não há quem possa”, marchinha que embalou a primeira conquista da seleção, em 1958; ou “Cento e vinte milhões em ação / Pra frente Brasil/ do meu Coração/ Todos juntos vamos…”, jingle que incentivou a conquista do segundo título, em 1970; ou ainda os sons que fizeram trilha para os sonhos que levaram ao tri, ao tetra, ao penta…?

Pois é… se tudo isso soa aos seus ouvidos com nostalgia, como coisas de tempos imemoriais, você não está só.

A pintura das ruas, a empolgação da torcida, as campanhas de cobertura… tudo parece inflado artificialmente, na Copa que ainda sofre com antipatia de grande parte da torcida com a camisa da seleção brasileira, capturada por um espectro político de extrema direita; no time que conta com atletas que parecem tão distantes do país que defendem; no campeonato onde nosso ídolo maior parece um garoto mimado que se recusa a crescer; e na competição de preços exorbitantes para quem se aventurou a encarar a terra de Donald Trump.

Por falar em Estados Unidos, quem acompanha minimamente o horror que se instalou nos vizinhos do norte desde a última eleição, já imaginava que histórias de horror se avizinhavam com a indiferença da FIFA em realizar uma competição desse tamanho, em um país que trabalha para excluir pessoas ao invés de integrá-las. A Copa do Mundo em território estadunidense, imaginávamos, não seria para o mundo todo.

Apesar das desconfianças, a realidade tem superado as expectativas. Jogadores, árbitros e jornalistas que possuam a origem e/ou a cor “errada” para os oficiais de fronteira estão passando por revistas e humilhações sem precedentes. A repórter da TV Globo, Karine Alves, uma mulher negra, teve seu cabelo revistado assim que pisou na Terra do Tio Sam. Coisa que suas colegas brancas da emissora nem sonham em passar. Coisa que seus colegas de cobertura — homens e mulheres — não pensaram em vir a público para, em apoio, repudiar.

Grande parte do mundo que ama futebol assiste a tudo com uma trava amarga na garganta, entendendo que a nova Copa do Mundo decretou o fim de uma era, ou melhor, ela é mais uma expressão radical de um tempo em que se relativiza o racismo, a xenofobia, o machismo, o fascismo… e outras doenças sociais inventadas por homens que se julgam realmente superiores e parecem ter sepultado qualquer resquício de humanismo.

Exatos noventa anos depois, os Jogos Olímpicos da Alemanha de Hitler, em 1936, pareceram mais inclusivos que a Copa do Mundo dos Estados Unidos de Trump.

Apesar de tudo, a bola vai rolar e vamos torcer. É automático. É cultural. É justo que as crianças e os jovens que não viram um título da seleção brasileira de futebol, torçam para viver o momento com a equipe da sua nação, que é a mais premiada da história, a mais icônica, aquela que apesar dos tempos terríveis desde o humilhante 7 a 1 para Alemanha, em 2014, ainda tem a admiração e o apoio da maioria.

A Taça do mundo de 2026 (ainda) não é nossa; com brasileira há quem possa (vide Donald Trump, suas tarifas e afins) e não somos mais 120 milhões (segundo o IBGE somos 213,5 milhões de pessoas), mas estamos dispostos a continuar desejando um Brasil que ande para frente (apesar do trabalho constante para tanto retrocesso) e, principalmente, estamos fazendo um esforço danado para que ele, o Brasil, continue sendo do nosso coração.

A cada ciclo de quatro anos de Copa do Mundo o país e o mundo são novos lugares. É preciso sonhar. Quem sabe em 2030 tenhamos voltado a gritar “todos juntos vamos”.

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