Nem adianta lutar. Em tempo de Copa do Mundo, o assunto dominante não é outro, mas dentro dela — de um jeito ou de outro — está o planeta inteiro. A política, as culturas, as guerras, as injustiças, os protestos, as covardias, os dramas, as superações, os talentos, o espetáculo …está tudo lá, batido num puro suco de humanidade toda.
Nos primeiros dias de bola rolando nos gramados dos Estados Unidos, o Brasil deixou a desejar, Messi, Cristiano Ronaldo e Mbappé deram seu show, mas as melhores histórias saíram de dois países africanos: Cabo Verde, que impôs à poderosa Espanha um empate sem gols graças a atuação de seu goleiro, Vózinha; e a República Democrática do Congo, que arrancou o mesmo resultado contra Portugal, mas com um gol saído dos pés do atacante Wissa.
Os congoleses já fizeram o queixo de meio mundo cair no desembarque. Os leopardos, como são chamados, desceram em elegantes ternos negros, com um manto simulando a pele do animal charmosamente cobrindo um dos ombros. Cada membro segurando uma bolsa com a mesma “animal print”. Estilo, altivez e orgulho de ser o que se é estampando a delegação de um país muitas vezes destroçado pelo poderio colonial, pela precariedade imposta por regimes absolutamente cruéis.
Michel Mbolandinga, torcedor congolês convocado com tudo pago para erguer seu braço nas arquibancadas da Copa da FIFA, é um símbolo de lutas invisíveis para a mídia que só tem olhos para o que acontece no chamado norte global. Michel e seu braço ao alto nos jogos do seu país, imitam a estátua erguida em homenagem a Patrice Lumumba, líder pela independência, assassinado em golpe militar patrocinado pela Bélgica, nação que colonizou o RD Congo até 1960.
A Bélgica, sob o reinado de Leopoldo II, na partilha que os europeus fizeram da África em 1885, “ganhou” a nação e explorou todas as suas riquezas a custa de mutilações, assassinatos em massa e castigos horrendos. Michel, que ainda chegará para acompanhar outros jogos da equipe, tem muitos motivos para erguer aquela mão, pois muitos de seus ancestrais tiveram as suas decepadas pelos colonizadores, como pena por não cumprirem a cota de borracha coletada ou se recusarem a entrar na mata.
Alguns livros contam sobre o holocausto que é considerado por muitos como o maior da humanidade, cerca de 10 milhões de pessoas. Dois deles são “O fantasma do rei Leopoldo”, de Adam Hochschild; e “O sonho do celta”, do nobel de literatura Mario Vargas Llosa.
Senti vontade de enviar uma mensagem ao jovem Wissa, de 29 anos, jogador nascido na França, mas que buscou um lugar na seleção do país de seus pais enviando mensagem na página de facebook da federação e que marcou o primeiro gol do RD Congo em Copas do Mundo. Queria dizer a ele: No Brasil tem uma escritora chamada Conceição Evaristo, que pôs na boca de um de seus personagens a seguinte frase: Eles combinaram de nos matar, mas a gente combinamos de não morrer. Quando balançou a rede portuguesa você renovou esse trato, convocando os seus a celebrar a vida.
Falando em Portugal chegamos a Cabo Verde, arquipélago paradisíaco que se tornou departamento ultramarino português, ponto estratégico no comércio do país europeu entre os séculos 16 e 18e que só conseguiu sua independência em 1975. Foi ali que nasceu e cresceu o goleiro que fechou qualquer possibilidade dos espanhóis estrearem na Copa 2026 com vitória.
Foi no Mindelo, em Cabo Verde, que cresceu Josimar José Évora Dias, nome que homenageia o jogador brasileiro Josimar e foi nas ruas daquela região que jogou suas primeiras partidas com amigos que o apelidaram de “Vozinha”, por ser criado pelos avós.
O português, este idioma que tem diminutivos inigualáveis e capazes de trazer ternura a palavras tão austeras como “avô” ou “avó”, nos une ao jogador de 40 anos e talvez seja este pertencimento comum que justifique o sucesso instantâneo do goleiro por aqui.
Assim como Jogos Olímpicos são e não são sobre a prática e disputa de todas aquelas modalidades, Copa do Mundo é e não é sobre futebol. Estes são momentos únicos em que o mundo se reúne e se olha apenas com um intuito: ser feliz.
Eles combinaram de nos matar, mas a gente “combinamos” de gritar… Gol!