Aldir Blanc completou oitenta anos. Bardo carioca, parido nas encruzilhadas em que a Vila Isabel, o Estácio, a Muda, o Maracanã e o Salgueiro se confundem, Aldir cantou a aldeia e acertou a flecha certeira de seus versos no coração desarvorado do mundo. Qualquer coisa que ele tenha escrito sobre os bêbados do subúrbio carioca é capaz de sondar com a profundidade dos escafandristas as obsessões de um finlandês.
Certa feita defini Aldir Blanc como um poeta da brasilidade, palavra que uso para definir uma comunidade de sentidos, afetos, sonoridades, rasuras, contradições, naufrágios, ilhas fugidias, identidades inviáveis, subversões cotidianas, voo de arara e picada de maribondo, saravá e samba. Coisas que o Brasil oficial, registre-se, odeia e na maior parte do tempo tenta aniquilar. O Brasil é, em geral, um empreendimento de ódio; a brasilidade é um canto desesperado de amor e liberdade.
A meu juízo, Aldir fez o mergulho mais vertiginoso que um poeta da canção brasileira ousou. Descreveu nossas vertigens a partir do cume das montanhas e do rasteiro das veredas; navegou oceanos com os corsários, cruzou a Baía da Guanabara na embarcação do Almirante Negro, quebrou a chibata e cantou os mistérios do tempo entre a condenação da eternidade e o amor pelo residual. Conquistou a fama e foi morar no Olimpo da canção almejando o anonimato esporrento das sarjetas.
Aldir celebrou a vida porque sempre olhou a morte nas fuças. Numa de suas letras mais reveladoras, a composição “Canário da Terra”, parceria com João de Aquino, fincou a bandeira no Estácio de Sá, bairro onde nasceu e voltou a morar na entrada da adolescência, depois dos anos de Vila Isabel: eu sou da Maia Lacerda e essa merda faz parte de mim.
Essa merda praticada, vivida, delirada e criada nas letras e crônicas de Blanc é mesmo uma forma de viver (e morrer) como o bandido de filme de Velho Oeste em pleno saloon. Se for para ir para o beleléu, o negócio é sacar a arma e meter bronca. Essa, aliás, talvez seja a única sanidade possível em tempos em que a cidade, a escola, o botequim, a universidade, a imprensa, a padaria, a igreja, a seleção brasileira de futebol e a escola de samba parecem ter virado mesmo empresas.
Nos oitenta anos, imagino um Blanc vivo, de cotovelo no balcão, sem fardão e sem penacho, brandindo a máxima que há de se perpetuar nas biroscas, terreiros, e vielas cariocas e se entranhar na rua dos Artistas com a força da linha de frente do Expresso da Vitória atravessando a zaga inimiga: que se fodam os poderosos!
Aldir Blanc carregou o Brasil dos desvalidos no colo, deu nele petelecos sacanas e fez cafunés em suas carapinhas. Que o Brasil possa tomar vergonha na cara para reverenciá-lo em sua longa jornada pelo tempo, aquela reservada aos que, como ele, vivem porque viraram memória e incêndio na solidão bonita e desaforada de cada um de nós.
Aldir continua; não morreu coisa nenhuma. Assevero que um pinguço do Bar do Momo viu, no dia em que o bardo cantou para subir, um Blanc menino aboletado às gargalhadas na garupa de Ogum e seus 10 mil cavalos. Feito isso, beijou a cruz de malta e cravou no chão uma espada de jornal para se fundir com a terra em que nasceu, viveu, amou, saiu na porrada, se encantou e, evidentemente, permanece.