Rezadeiras e Benzedeiras

Se você tem uma rezadeira na família, ignore o relógio e escute as histórias que ela tem para contar.
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Os mais velhos diziam existir uma diferença entre as rezadeiras e as benzedeiras. As rezadeiras eram aquelas que se baseavam exclusivamente no poder das orações para afastar males diversos. As benzedeiras usavam, além das orações, outros elementos em seu ofício: folhas, velas, copo d´água, escapulários etc. Muitas rezadeiras eram benzedeiras também.

Com o tempo, as duas denominações passaram a ser sinônimos: benzedeiras e rezadeiras utilizam-se de saberes tradicionais, passados através de gerações, para curar as mazelas do desencanto do corpo e do espírito.

Cresci ouvindo falar de gente com espinhela caída, nervo torcido, quebranto, urina presa e furúnculos nos mais variados lugares do corpo tratados com emplastos de farinha untada com óleo de mamona ou com folhas de saião.  A melhor forma de curar essas ziquiziras, entretanto, era mesmo tendo uma boa rezadeira e benzedeira por perto.

Sabedoras de jaculatórias ancestrais herdadas do cristianismo popular, encruzilhadas pelas sabenças indígenas e africanas  e passadas entre gerações da família, as senhoras rezadeiras operavam prodígios  com seus galhinhos, profundo conhecimento dos elementos terapêuticos das folhas e o poder da palavra. Não negavam a ciência da medicina, não se colocavam acima de tratamentos formais e ofereciam seus saberes na maioria das vezes por caridade e absoluta consciência do dom herdado das avós. Sabiam conversar com as chuvas e reconheciam pelo cheiro a tristeza e a alegria de cada planta.

Minha avó, versada em benzeduras, gostava de indicar, para a proteção das casas, vasos com sete ervas abrideiras, folhas de proteção bastante utilizadas na medicina popular: manjericão para trazer tranquilidade, guiné para afastar espíritos indesejáveis, arruda para afastar o mau-olhado, alecrim para atrair a felicidade, pimenta para secar a inveja, comigo-ninguém-pode e espada- de- São Jorge como escudos de guerra e  armas de combate.

É cada vez mais difícil encontrar rezadeiras e benzedeiras nos dias de hoje. O dom passado entre gerações de mulheres poderosas, o poder de encantar as folhas, a capacidade de apaziguar angústias com o olhar, a simplicidade de compartilhar o café fresquinho e um pedaço de bolo de fubá, parecem sucumbir diante da aceleração brutal do tempo, da ânsia produtivista, da primazia da fala sobre a escuta e da dispersão dos saberes tradicionais diante das urgências de um mundo obcecado pelo vazio do instante.

É cada vez mais raro encontrar quem ainda seja capaz de amansar as agruras do tempo e evocar a saúde na formosa e sussurrada língua capaz de adormecer ou acordar as folhas. Se você tem uma rezadeira na família, ignore o relógio e escute as histórias que ela tem para contar.

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