Aliado dos Bolsonaro que atacou urnas tinha celular com mensagem sobre ‘eliminar’ ex

Preso na Bolívia, consultor também é alvo de investigação por suposto enriquecimento ilícito após apreensão de dinheiro e equipamentos
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Fernando Cerimedo, assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz e, até alguns meses atrás, também do presidente argentino Javier Milei, teve uma mensagem encontrada no celular em que aparece uma referência a “eliminar” a ex-companheira, a advogada e analista política boliviana Nadia Beller. A informação é do Página 12, de Buenos Aires.

Cerimedo ficou conhecido no Brasil pela proximidade com a família Bolsonaro e por atacar as urnas eletrônicas após a derrota de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva em 2022. O conteúdo foi apresentado pelo advogado da vítima e passou a integrar a investigação sobre o ataque a tiros sofrido por ela na Bolívia.

Segundo o jornal argentino Página/12, o advogado Jorge Justiniano entregou às autoridades uma captura de tela do bloco de notas do celular de Cerimedo. Na anotação, aparece uma pergunta sobre alguém que pudesse “fazer o trabalho” de “eliminá-la já”. Outra frase atribuída ao conteúdo diz: “Ou a eliminamos ou estamos ferrados”. A defesa de Cerimedo nega que ele tenha participado do ataque e contesta as acusações.

A descoberta ocorre quatro dias depois de Beller ser baleada em Santa Cruz de la Sierra. Ela levou três tiros na noite de 17 de agosto, em frente a um hotel. As imagens mostram dois homens vestidos como entregadores abordando a vítima e um deles efetuando os disparos. Beller sobreviveu e permanece hospitalizada.

Cerimedo foi preso no dia seguinte, 18 de agosto, no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra, quando se preparava para deixar a Bolívia com destino a Buenos Aires. O Ministério Público boliviano o acusa de tentativa de feminicídio e pediu à Justiça uma prisão preventiva de 180 dias.

A defesa afirma que Cerimedo não teve participação no atentado.

Quem é Cerimedo

Antes de se tornar alvo da investigação na Bolívia, Cerimedo construiu uma carreira como estrategista político e operador de comunicação digital da direita latino-americana.

Hoje, ele é apresentado como assessor do presidente boliviano Rodrigo Paz. Até recentemente, também atuava próximo a Javier Milei e teve papel importante na campanha que levou o político de extrema-direita argentino à Presidência em 2023. Cerimedo trabalhou ainda para outros nomes da direita latino-americana e é um dos sócios do site ultradireitista La Derecha Diario.

A atuação de Cerimedo também tinha relação direta com o entorno de Eduardo Bolsonaro. Segundo levantamento da Agência Pública, Giovanni Larosa, funcionário ligado ao consultor e correspondente do La Derecha Diario no Brasil, recebeu R$ 3,9 mil da campanha de reeleição de Eduardo Bolsonaro para trabalhar na divulgação de propaganda e no apoio à campanha.

Cerimedo, por sua vez, negou ter sido contratado pela campanha de Bolsonaro para fazer a transmissão e afirmou que as informações divulgadas por ele sobre as urnas haviam sido recebidas de fontes privadas.

Nadia Beller. Reprodução de redes sociais
Nadia Beller. Reprodução de redes sociais

Ataque contra a ex-companheira

Segundo relatos divulgados pela imprensa boliviana e argentina, a vítima recebeu uma mensagem que a levou a um encontro em Santa Cruz de la Sierra. Ela afirma que Cerimedo a convenceu a comparecer ao local.

Beller foi surpreendida por dois homens que usavam roupas semelhantes às de entregadores. Um deles atirou três vezes contra ela.

A vítima afirma que o atentado teria relação com informações que ela possuía sobre supostos negócios e irregularidades envolvendo Cerimedo e integrantes dos governos de Bolívia e Argentina.

O governo de Rodrigo Paz afirmou que o caso deve ser investigado e negou tolerância a acusações sem provas.

Nesta sexta-feira (21), a Justiça boliviana também determinou que a investigação sobre o ataque não seja mantida sob sigilo, após pedido de Beller. A medida permite que as partes tenham acesso ao processo e aos elementos reunidos pelas autoridades.

Dinheiro e suposta “granja de bots”

O caso também abriu uma segunda investigação contra Cerimedo na Bolívia.

A Fiscalía informou que passou a investigá-lo por suposto enriquecimento ilícito depois de encontrar dinheiro, documentos e equipamentos em imóveis ligados ao consultor durante operações de busca.

Segundo o El País, foram encontrados cerca de US$ 44 mil, além de outros valores em moeda boliviana e euros. As autoridades também localizaram equipamentos que foram descritos como uma possível “granja de bots”, estrutura usada para operar ou coordenar grande quantidade de contas nas redes sociais.

A investigação deverá apurar a origem do dinheiro e a finalidade dos equipamentos. A defesa de Cerimedo contesta as acusações e afirma que os aparelhos apontados como uma “granja de bots” seriam equipamentos tecnológicos sem uso ilícito.

A abertura do inquérito por enriquecimento ilícito se soma ao processo por tentativa de feminicídio contra Beller.

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