A etimologia da palavra é interessante: nóstos, como “regresso”; álgos como “sofrimento”. Nostalgia como “o sofrimento do regresso”. E, no entanto, tendo na sua versão inicial uma conotação de triste amargura, a nostalgia política está hoje espalhada por todo o lado como um sentimento afetuoso — “antes era melhor”. Melhor em que? Mistério.
Antes vivíamos menos; comíamos pior, eramos mais pobres, havia mais violência, menos igualdade e o cantão suíço de Appenzell só deu direito de voto às mulheres em 1990 — e por ordem do tribunal federal. Antes era melhor? Não creio, pelo menos para a maioria. Mas então de onde vem então este sentimento, partilhado por tanta gente, de que só no passado podemos encontrar satisfação?
Na verdade, a nostalgia tem uma dupla face. Uma delas é bonita e vive do esquecimento, mais do que da memória. Nasce dos espaços em branco, onde o esquecimento elimina as arestas, as dores da lembrança e deixa uma imagem depurada e perfeita daquilo que foi — “Gherardo, tu es maintenant plus beau que toi-même”, escreveu Marguerite Yourcenar no momento da despedida de um dos seu heróis.
Dizia ela, nesse lindíssimo texto, que é melhor que partam aqueles a quem amamos porque, se ficarem, isso enfraqueceria a imagem que deles devemos preservar: “só possuímos eternamente os amigos a quem abandonámos”. Lindo, não é? Esta é a nostalgia afetuosa, aquela emoção confortável e segura de que o que se passou, agora idealizado, é mais belo do que era quando foi vivido. A beleza, a verdadeira beleza, é imaginária.
Depois temos a face negra, a da nostalgia política que acompanha os discursos conservadores e que procura romantizar um passado que nunca existiu. Essa é uma paixão política poderosa, capaz de transformar o passado num lugar moralmente superior ao presente. Quando Bolsonaro afirmou em 2018 que o seu objetivo é “fazer o Brasil semelhante ao que tínhamos há 40 ,50 anos” estava a exprimir essa nostalgia de um passado horrível — há cinquenta anos o estado brasileiro torturava e matava os adversários políticos. Quando a extrema-direita portuguesa diz que “fazem falta dois ou três Salazares” apela a um tempo em que os portugueses combatiam guerras coloniais em África — “Angola é nossa”, apreendíamos na escola. Esta é a torpe nostalgia que instrumentaliza o passado em nome de um futuro de barbárie e de selvajaria.
Nos discursos reacionários, a nostalgia raramente corresponde à memória fiel de um tempo histórico; é antes a construção de uma idade de ouro imaginária, onde a hierarquia parecia natural, a autoridade incontestada e a ordem social imune ao conflito.. Como observava Svetlana Boym, a nostalgia pode tornar-se uma tentativa de reconstruir uma casa que nunca existiu tal como é recordada. O que nela se procura não é a memória, mas o absoluto: a ilusão de uma comunidade sem conflito, de uma autoridade sem contestação e de uma ordem sem liberdade.
A força política dessa nostalgia reside precisamente no facto de prometer um regresso impossível, oferecendo como futuro a repetição idealizada de um passado inventado. Pessoa escreveu um belíssimo verso sobre a metafisica como “consequência de se estar mal disposto”. A nostalgia do passado da direita brasileira não é um programa político, é apenas consequência de estar mal disposta com as pesquisas.