Por Cleber Lourenço
A prisão de Jair Bolsonaro (PL-RJ) por violação de medidas cautelares devolveu ao Congresso um clima de tensão e reativou movimentos para retomar a pauta da anistia. Aliados do ex-presidente tentam aproveitar o episódio para pressionar o parlamento, mas encontraram resistência no presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Em conversa com o ICL Notícias, ele afirmou de forma direta: “A Câmara não age sob pressão de fatos externos nem pauta seus trabalhos a partir de episódios individuais.”
O recado coloca um freio explícito nas expectativas da base bolsonarista. Motta disse que a prisão deve ser tratada “pelas autoridades competentes” e reforçou que, por histórico, não comenta decisões judiciais, mantendo distância formal dos desdobramentos do caso.
Ao defender que a Casa siga funcionando “com serenidade”, sinalizou que não pretende deslocar o parlamento para o ambiente de reação imediata que domina parte da base de Bolsonaro.

Motta resiste à pressão bolsonarista
Sobre a anistia, Motta afirmou que qualquer debate só avançará “com equilíbrio, responsabilidade e diálogo amplo entre os partidos”. Parlamentares avaliam que o objetivo é impedir que a Câmara seja usada como instrumento de disputa política em meio à escalada de tensões provocada pela prisão.
Ao comentar o caso do deputado Alexandre Ramagem (PL-RJ), foragido desde que rompeu a tornozeleira eletrônica, Motta declarou que “a Câmara dos Deputados acompanha o caso com total responsabilidade e atenção institucional”. Desta vez, porém, deixou claro que não pretende oferecer resistências caso representações contra o parlamentar cheguem ao Conselho de Ética — sinal de que não pretende blindá-lo.
O episódio ocorre após outra decisão recente que também atingiu o núcleo bolsonarista. A Mesa Diretora rejeitou a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) para a liderança da minoria, apesar de seu mandato estar mantido. A recusa foi interpretada internamente como um recado institucional: a direção da Casa não assumirá o custo político de proteger parlamentares em rota de colisão com a Justiça.
Ao explicar sua linha de atuação, Motta afirmou:
“Meu papel, enquanto presidente da Casa, é garantir que o parlamento, mesmo diante de tantos desafios, continue funcionando com serenidade, fazendo entregas à população, sem precipitações e instrumentalizações políticas, assegurando o cumprimento das regras do Estado Democrático de Direito”.
A fala sintetiza sua tentativa de manter a Câmara afastada das turbulências que cercam aliados do ex-presidente, sem ignorar o impacto desses episódios sobre a imagem da instituição.
Segundo Motta, a condução da Câmara deve permanecer ancorada na “estabilidade institucional” e na “segurança jurídica”. Ele reforça que o parlamento continuará avaliando cada tema “tecnicamente”, evitando que crises externas determinem o ritmo das votações.
Ainda assim, parlamentares admitem reservadamente que a pressão tende a crescer, especialmente se a base bolsonarista insistir em usar a prisão como motor político para reaquecer a pauta da anistia.
No conjunto, as declarações de Motta mostram um esforço para equilibrar discurso institucional e tensões políticas, buscando limitar o uso da Casa como palco das disputas que envolvem Bolsonaro. O desafio será saber até onde essa estratégia conseguirá impor limites enquanto as tensões permanecem elevadas.