As artes, a inclusão social e a democracia

A pessoa com deficiência não é aquela que 'tem' uma deficiência, mas aquela que enfrenta as barreiras de uma sociedade excludente
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Por André Naves*

Era início dos anos 2000. Um grave acidente jogou meu carro em uma ribanceira e me lançou em um longo e profundo coma. Desde então, um intenso trabalho de recuperação, com terapias e tratamentos, se estende até os dias de hoje. Tenho aprendido demais desde então.

Contudo, a maior lição que pude conquistar a partir daquela cama de hospital não foi sobre a resiliência solitária, mas sobre a interdependência humana. Percebi, na pele, uma verdade absoluta e fundamental: nenhuma superação é individual; toda construção que realizamos só se concretiza no coletivo.

Essa constatação é, na verdade, a própria essência do projeto civilizatório que chamamos de democracia — uma construção coletiva, em que ninguém é deixado para trás, em favor da promoção dos direitos humanos.

Após os anos de chumbo da ditadura, o povo brasileiro engajou-se em um imenso projeto de concertação social. Lembro-me do trabalho genial do cartunista Henfil, que em suas charges retratava pessoas de todas as formas, cores e idades redesenhando juntas o Brasil. Foi exatamente isso que fizemos ao instituir o Estado Democrático de Direito.

No entanto, ao contrário do senso comum, democracia não é ditadura da maioria. É, antes, a vontade da maioria que respeita de forma plena a dignidade dos grupos minorizados, tendo como finalidade última a concretização e o aprofundamento dos direitos humanos.

Esses não representam a mera sobrevivência. Pelo contrário. Como eternizou a banda Titãs na música Comida, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

Direitos humanos são a expressão da vida em plenitude, da liberdade alicerçada na responsabilidade, da simetria de oportunidades e da segurança sanitária, alimentar, educacional, entre outras, que nos permite exercer a autonomia.

Entretanto, para que esses textos constitucionais abandonem o papel e transformem a realidade, precisamos enfrentar o nosso maior gargalo: a exclusão que enfraquece a mobilização social. É por isso que o Brasil deu um passo civilizatório único ao internalizar a Convenção de Nova York sobre a Inclusão como Emenda Constitucional, e editar a Lei Brasileira de Inclusão. Mudamos o paradigma.

A pessoa com deficiência não é aquela que “tem” uma deficiência, mas aquela que enfrenta, diariamente, as barreiras de uma sociedade excludente. Todos nós possuímos características ímpares, físicas, intelectuais ou sensoriais inerentes à nossa individualidade. A deficiência, contudo, só nasce quando essas características colidem com um ambiente hostil. E a mãe de todas as barreiras não é o degrau sem rampa ou a calçada esburacada — é a barreira atitudinal, o preconceito que invisibiliza o outro.

A cultura pop e a literatura estão repletas de metáforas sobre essa exclusão. Em “O Corcunda de Notre Dame”, a verdadeira deficiência imposta pela sociedade não recaía sobre Quasímodo por seu corpo fora do padrão, mas sobre Esmeralda, marginalizada por ser cigana. Em “A Bela e a Fera”, Bela era a excluída de sua vila simplesmente porque desejava ler, estudar e ser protagonista de sua história, recusando o papel de coadjuvante, de bela, recatada e do lar. A princesa Fiona, de “Shrek”, precisou ir para o pântano e assumir a forma de ogra para encontrar a acessibilidade e a liberdade de ser a guerreira que nasceu para ser.

Até mesmo Dumbo, o elefante ridicularizado por suas orelhas gigantes, só consegue alçar voo quando é acolhido pelos corvos — personagens que, na animação original, representavam a população negra do sul dos Estados Unidos, outro grupo historicamente minorizado. Dumbo voa porque encontra apoio naqueles que também conheciam a dor da exclusão. Ele supera a barreira através da coletividade.

Em oposição a Dumbo, temos a tragédia de Narciso, brilhantemente retratada na pintura de Caravaggio. O artista pesou as sombras ao redor do personagem, iluminando apenas o seu reflexo na água. Não sabemos se Narciso está à beira de um abismo ou no centro de uma cidade, pois ele não tem olhos para o entorno — ele só enxerga a si mesmo. Narciso transformou sua individualidade em individualismo. Ao romper as conexões sociais e recusar-se a dar as mãos ao coletivo, encontrou apenas a solidão e a morte.

Vivemos em uma era de revolução tecnológica deslumbrante. Como nos lembra Carlos Drummond de Andrade em ‘O Homem e as Viagens’, o ser humano constrói foguetes, vai à Lua, domina a engenharia, mas ainda tem uma dificuldade imensa de olhar para o lado e conviver com o seu irmão. Passamos séculos tentando nos robotizar; agora, a urgência é nos humanizarmos. É conviver.

O cronista Rubem Alves dizia que todos querem fazer cursos de oratória, mas ninguém se matricula em cursos de “escutatória”. Escutar e enxergar o outro não são atos físicos — são atos da alma. Exigem o que os Thundercats chamavam de “visão além do alcance”: a capacidade de enxergar o que os olhos comuns não alcançam.

Conta-se — e eu gosto de acreditar que seja verdade — que Beethoven, já mergulhado na surdez e conhecido por seu temperamento casmurro, tinha uma amizade terna com uma jovem vizinha cega. Um dia, ela lhe pediu: “Você pode compor uma música para que eu consiga enxergar o luar?” Com os olhos do coração, ele compôs a Sonata ao Luar. Diz a lenda que, naquela noite, sonhando com as musas, ele encontrou a inspiração para a sua obra máxima: a Nona Sinfonia, um hino à humanidade unida, de mãos dadas.

A verdadeira inovação, a criatividade que gera prosperidade e o desenvolvimento sustentável só nascem da diversidade. Eliminar barreiras e dar visibilidade aos grupos minorizados não é um ato de caridade — é uma construção de sobrevivência democrática.

O sábio Hillel, na antiguidade, nos deixou um questionamento que ecoa até hoje: “Se eu não for por mim, quem o será? Mas se eu for só por mim, o que serei eu? E se não agora, quando?”

A construção de um Brasil inclusivo e justo é responsabilidade de todos nós. E o momento de agir, de enxergar além do óbvio e de estender a mão para que possamos voar juntos, é agora.

*André Naves é defensor público federal, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social, mestre em Economia Política, comendador cultural e autor dos livros “Caminho: A beleza é enxergar” e “Beethoven enxergou o Luar”

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