Por Cleber Lourenço
O escritor e jornalista Marcelo Rubens Paiva receberá nesta sexta-feira (27), às 18 horas, no Rio de Janeiro, a Medalha Tiradentes — principal honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado. A entrega, marcada para a Sala Nelson Pereira dos Santos, acontece às vésperas do aniversário do golpe militar de 1964 e carrega um peso que vai além do reconhecimento cultural.
A escolha da data não é casual. Ao homenagear um dos principais nomes da literatura contemporânea brasileira, cuja trajetória está diretamente ligada à memória da ditadura, o Legislativo fluminense transforma a cerimônia em um gesto político explícito em defesa da democracia.
Filho do ex-deputado Rubens Paiva — preso, torturado e morto pelo regime militar –, Marcelo Rubens Paiva construiu uma obra marcada pela elaboração pública da violência de Estado e pela luta por memória, verdade e justiça. Seu livro “Ainda estou aqui”, que narra a trajetória de sua mãe após o desaparecimento do pai, consolidou-se como um dos relatos mais emblemáticos sobre o período.

A obra ganhou ainda mais projeção recente ao ser adaptada para o cinema por Walter Salles, ampliando o alcance do debate sobre a ditadura para novos públicos e reforçando o papel da cultura como instrumento de disputa narrativa sobre o passado.
A homenagem será conduzida pela deputada estadual Verônica Lima, presidente da Comissão de Cultura da Alerj, que tem defendido a valorização de trajetórias ligadas à preservação da memória histórica. Segundo ela, reconhecer Marcelo Rubens Paiva é também reafirmar o compromisso institucional com a democracia em um momento em que esse debate volta ao centro da arena política.
Além da entrega da medalha, o evento contará com uma roda de conversa sobre “Democracia e Cultura”, reunindo nomes como Marcelo Freixo e o reitor da UFF, Antônio Cláudio Nóbrega. A proposta é ampliar a discussão sobre o papel da produção cultural na preservação da memória e na defesa de valores democráticos.
A escolha da Sala Nelson Pereira dos Santos para a cerimônia reforça esse simbolismo. O cineasta, que dá nome ao espaço, foi um dos principais nomes do cinema brasileiro engajado politicamente, com uma obra voltada à crítica social e à reflexão sobre o país.

Na prática, a cerimônia consolida um movimento cada vez mais evidente: a disputa pela memória da ditadura deixou de ser apenas acadêmica ou judicial e voltou a ocupar espaço central no debate público. Ao transformar uma homenagem cultural em ato político, a Alerj se posiciona de forma clara em um cenário marcado por tentativas recorrentes de relativizar ou reescrever esse período da história brasileira.
A Medalha Tiradentes, tradicionalmente concedida a personalidades com serviços relevantes ao estado e ao país, ganha, neste caso, um significado adicional: não apenas reconhecer uma trajetória individual, mas reafirmar um princípio coletivo — o de que lembrar é também uma forma de resistência.