Por Péricles Andrade*
A menos de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, a religião voltou ao centro da disputa política brasileira. A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida é um exemplo eloquente. Na quinta-feira, 24 de setembro, viralizou a informação de que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. O candidato negou a informação, e a GloboNews corrigiu posteriormente o conteúdo que havia contribuído para sua circulação. O episódio ocorreu justamente em uma campanha marcada pela forte polarização entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro e pela intensa disputa de narrativas nas redes sociais.
A notícia não surgiu inteiramente do nada. Ela recuperou um projeto de lei apresentado em 2007, pelo então deputado federal Professor Victório Galli (MDB-MT), que pretendia restringir o título de Nossa Senhora Aparecida aos brasileiros católicos. O projeto foi arquivado em 2008 e não tem autoria de Flávio Bolsonaro. O que aconteceu agora foi a transferência de uma proposta antiga para a conjuntura eleitoral de 2026, produzindo uma associação religiosa e política, variável que não é apenas conjuntural, mas uma variável que funciona como um “atalho cognitivo” desde a República Brasileira, que adotou o regime de separação entre o Estado e a esfera religiosa.
Mas por que essa história ganhou tanta repercussão?
Porque ela toca em uma disputa real sobre religião, identidade nacional e representação política. Nossa Senhora Aparecida não é apenas uma figura central do catolicismo brasileiro. Ao longo do século XX, sua devoção foi incorporada a uma narrativa nacional: o 12 de outubro tornou-se feriado e a santa passou a ser reconhecida como “Padroeira do Brasil”. Em uma sociedade historicamente marcada pela predominância católica, essa associação durante muito tempo pareceu “natural”.
O Brasil, entretanto, mudou. A expansão das igrejas evangélicas, o crescimento de outras tradições religiosas e o aumento das pessoas sem religião produziram uma sociedade religiosamente mais plural e heterogênea. Os dados do Censo Demográfico de 2022 evidenciam essa transformação: os católicos correspondem a 56,7% da população, os evangélicos a 26,9% e as pessoas sem religião a 9,3%, ao mesmo tempo em que as religiões de matriz africana ampliaram sua visibilidade pública, ainda que permaneçam numericamente minoritárias e submetidas a desigualdades históricas. Esse processo expressa a passagem de uma sociedade marcada pela hegemonia católica para um cenário de maior diversidade e pulverização das afiliações religiosas, com importantes diferenças regionais.
Símbolos que antes podiam ser apresentados como referências de toda a nação passaram a ser questionados por grupos que não se reconhecem neles. A pluralidade religiosa, contudo, não significa automaticamente igualdade de reconhecimento. A persistência da intolerância e do racismo religioso contra tradições afro-brasileiras revela que a diversidade estatística convive com profundas assimetrias de poder, representação e legitimidade. Por isso, a questão deixou de ser exclusivamente religiosa e tornou-se também política: quem pode representar o Brasil — e em que condições diferentes tradições religiosas e não religiosas podem ser reconhecidas como parte da nação?
É nesse contexto que a atual campanha presidencial se torna particularmente importante. A religião aparece não apenas como dimensão da identidade dos candidatos e de seus eleitores, mas como linguagem de mobilização política. O próprio Flávio Bolsonaro tem utilizado uma comunicação pública fortemente associada à linguagem religiosa. Em declaração anterior à atual controvérsia, afirmou que um de seus primeiros atos de governo seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A declaração ganhou nova relevância justamente quando a passou a circular a informação sobre Nossa Senhora Aparecida.
Essa combinação ajuda a entender a força política do episódio. Em setores do campo evangélico conservador, a condição de minoria religiosa historicamente mobilizada em torno da liberdade de culto passou a conviver com a reivindicação de uma posição de maioria cultural. O discurso da perseguição religiosa pode funcionar, nesse contexto, como mecanismo de mobilização: apresenta a participação política como defesa da fé, da família e de uma determinada concepção de sociedade.
Isso não significa que evangélicos constituam um bloco homogêneo ou que sua participação política seja, em si mesma, um problema. Esse campo evangélico é plural, assim como o catolicismo. A questão está na transformação de determinadas referências religiosas em projetos de definição dos valores legítimos da sociedade.
Por isso, é preciso distinguir laicidade de competição confessional. Um Estado laico não é um Estado sem religião no espaço público. Igrejas, religiosos e não religiosos têm direito de participar do debate político. A questão fundamental é impedir que uma tradição particular seja transformada em obrigação para toda a cidadania.
Também por isso, retirar um símbolo católico do espaço público não seria automaticamente uma medida de laicização. Se uma hegemonia religiosa for simplesmente substituída por outra, a lógica permanece. O desafio democrático é garantir que católicos, evangélicos, adeptos das religiões afro-brasileiras, outras tradições religiosas e pessoas sem religião possam disputar a esfera pública sem que qualquer grupo tenha o monopólio da representação nacional.
A inclusão de Nossa Senhora Aparecida como pauta na arena política revela, portanto, algo maior do que uma disputa nas redes sociais. Ela mostra como, na reta final de uma eleição polarizada, religião, identidade nacional e estratégia eleitoral podem se combinar rapidamente. Um projeto de 2007, arquivado há quase duas décadas, foi deslocado para uma disputa presidencial de 2026 e transformado em instrumento de uma batalha política contemporânea.
Nossa Senhora Aparecida continuará sendo, para milhões de brasileiros, uma referência de fé. Para outros, também será parte da memória cultural e histórica do país. O desafio está em reconhecer essas dimensões sem confundir tradição religiosa com identidade obrigatória. A questão mais profunda é: em um Brasil religiosamente plural e em plena eleição, quem pode falar em nome da nação — e em nome de quais valores? Essa questão ajuda a compreender a presença da religião nas campanhas eleitorais.
Nesse contexto, a religião se conecta às questões morais ao fornecer linguagens, símbolos e referências para definir o que deve ser considerado legítimo ou desejável na esfera pública.
Professor Titular da Universidade Federal de Sergipe (UFS)*