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Movimento ambientalista no Brasil: origem, políticas e impacto social

Quem lucra com a descredibilização do ambientalismo?
14/03/2025 | 15h22
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Alguns setores da direita não apenas criticam o movimento ambientalista, mas recorrem às fake news para descredibilizá-lo, espalhando desinformação e minando soluções reais para o aquecimento global.

Narrativas absurdas, como a falsa acusação de que ONGs e indígenas são responsáveis por incêndios florestais, são amplamente divulgadas para proteger interesses de setores que lucram com a destruição ambiental.

No entanto, essa é uma interpretação bastante imprecisa sobre um importante movimento político que busca justamente o contrário – aumentar a qualidade de vida para os seres humanos enquanto salvam o que sobrou do meio ambiente.

Mais do que isso, o movimento ambientalista é mais um movimento social que se baseia em evidências científicas e busca um equilíbrio entre desenvolvimento e sustentabilidade. Aqui vamos entender sobre a origem, a atuação política sobre o tema, os principais eventos históricos e por que a preocupação ambiental não é uma questão ideológica, mas sim de sobrevivência e responsabilidade socioambiental.

O que é o movimento ambientalista?

O movimento ambientalista é uma iniciativa global voltada para a preservação do meio ambiente, promovendo a sustentabilidade e a conscientização sobre o impacto humano na natureza. Esse movimento engloba ações de diferentes setores da sociedade, como ONGs, governos, cientistas e ativistas que trabalham para desenvolver políticas públicas e práticas sustentáveis.

Como e quando surgiu o movimento ambientalista?

Não é de hoje que a preocupação com o meio ambiente existe. Porém, foi no século XIX que essas preocupações se intensificaram, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, em resposta às consequências da Revolução Industrial.

No entanto, sua expansão global ocorreu no século XX, com destaque para a década de 1960, quando surgiram preocupações sobre poluição, destruição de ecossistemas e o uso indiscriminado dos recursos naturais. Na mesma década, o avanço da Revolução Verde levou ao uso intensivo de pesticidas e fertilizantes sintéticos na agricultura.

Apesar do aumento da produção de alimentos, esses produtos químicos tiveram efeitos negativos no meio ambiente e na saúde humana – essa preocupação ficou evidente na obra “Primavera Silenciosa” de Rachel Carson, lançada em 1962, que denunciou os efeitos nocivos do pesticida DDT e incentivou a regulamentação do seu uso.

Outro marco importante na história do ambientalismo foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, realizada em Estocolmo, capital da Suécia, em 1972.

Este evento foi o primeiro grande encontro internacional a reconhecer a crise ambiental como um problema global e impulsionou debates sobre poluição, crescimento populacional, esgotamento dos recursos naturais e a relação entre desenvolvimento e sustentabilidade.

A conferência também resultou na criação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e consolidou a ideia de que a proteção ambiental deveria ser integrada às políticas econômicas e sociais, influenciando decisões legislativas e iniciativas ambientais até os dias atuais.

Rachel Carson foi uma bióloga americana conhecida por seus escritos sobre poluição ambiental e a história natural do mar. Imagem: reprodução.

Rachel Carson foi uma bióloga americana conhecida por seus escritos sobre poluição ambiental e a história natural do mar. Imagem: reprodução.

Movimento ambientalista atualmente

A crescente preocupação com as mudanças climáticas foi reforçada por eventos recentes. Em janeiro de 2025, a temperatura global bateu recorde, sendo o mês mais quente já documentado até então, evidenciando a necessidade urgente de medidas para conter o aquecimento global.

Atualmente, o movimento ambientalista conta com diversos eventos acontecendo ao longo dos anos e reúnem países de diferentes continentes debatendo a sustentabilidade global. Entre as principais agendas desses eventos está a preocupação pelo uso do petróleo, a questão do uso racional de água potável, o aquecimento global e como o avanço da tecnologia impacta diretamente a busca por um planeta mais verde.

Em 2025, por exemplo, o Brasil vai sediar a 30ª Conferência das Partes (COP30) em Belém do Pará. O evento destacará a importância da Amazônia na agenda climática global e o reforço sobre o papel do país na liderança de políticas ambientais sustentáveis.

Lula e André Corrêa do Lago, presidente da COP30, no Palácio do Planalto, em Brasília. Imagem: Ueslei Marcelino

Lula e André Corrêa do Lago, presidente da COP30, no Palácio do Planalto, em Brasília. Imagem: Ueslei Marcelino

Movimento ambientalista no Brasil

Entre as mudanças que o ambientalismo busca promover no mundo, a agenda brasileira resume bem a atuação dos grupos políticos, ONGs e comunidades que procuram ativamente trabalhar em prol de um país mais sustentável em todos os aspectos. Aqui, por exemplo, podemos resumir a atuação ambientalista no Brasil hoje em três principais pilares:

1. Transição para energias renováveis

Objetivo: reduzir a dependência de combustíveis fósseis e promover fontes de energia limpa, como solar e eólica.

Exemplo: o Brasil tem expandido significativamente seus parques eólicos, com destaque para o Rio Grande do Norte, que se tornou um dos maiores produtores de energia eólica do país.

2. Proteção da biodiversidade

Objetivo: preservar ecossistemas e espécies ameaçadas.

Exemplo: a criação da Estação Ecológica de Tamoios, no Rio de Janeiro, visa proteger a fauna e flora marinha da região, contribuindo para a conservação da biodiversidade brasileira.

3. Promoção da justiça climática

Objetivo: abordar as desigualdades sociais exacerbadas pelas mudanças climáticas, garantindo que comunidades vulneráveis sejam incluídas nas soluções.

Exemplo: povos indígenas da Amazônia, como os Yanomami, têm lutado contra o avanço do garimpo ilegal, que ameaça suas terras, degrada o meio ambiente e compromete suas condições de vida.

Pessoas manifestando na rua de Londres em 2024 para exigir o fim imediato de novas infraestruturas ligadas aos combustíveis fósseis. Imagem: reprodução.

Pessoas manifestando na rua de Londres em 2024 para exigir o fim imediato de novas infraestruturas ligadas aos combustíveis fósseis. Imagem: reprodução.

Quais são os objetivos do movimento ambientalista?

A defesa do meio ambiente busca promover um equilíbrio sustentável entre o desenvolvimento humano e a preservação dos recursos naturais. Entre os principais objetivos estão a conservação dos ecossistemas e a proteção de espécies ameaçadas.

Outro pilar importante dessa causa é a educação ambiental, que visa conscientizar a população sobre a importância da preservação dos recursos naturais e incentivar hábitos mais sustentáveis. Além disso, o movimento ambientalista também luta por políticas públicas voltadas para o combate às mudanças climáticas, essenciais para mitigar os impactos do aquecimento global.

Os esforços pela defesa do meio ambiente ainda incluem a luta por uma agricultura sustentável, buscando alternativas para práticas predatórias como a monocultura de alimentos. Para garantir que essas iniciativas sejam eficazes, a regulamentação ambiental tem um papel fundamental, pressionando governos e empresas a adotarem e cumprirem leis mais rigorosas de proteção ecológica.

Porém, enquanto países ao redor do mundo avançam em pautas sustentáveis, parte da direita no Brasil continua promovendo retrocessos, seja flexibilizando leis ambientais, desmontando órgãos de fiscalização ou disseminando desinformação sobre aquecimento global visando promover o esvaziamento da pauta.

A defesa cega de combustíveis fósseis e o ataque às regulações ambientais não só prejudicam o meio ambiente, mas também colocam o Brasil na contramão de um mundo que caminha para uma economia mais sustentável.

Segundo a OMS, ondas de calor causam mais mortes do que qualquer outro desastre natural, afetando principalmente idosos e populações vulneráveis. Imagem: divulgação.

Segundo a OMS, ondas de calor causam mais mortes do que qualquer outro desastre natural, afetando principalmente idosos e populações vulneráveis. Imagem: divulgação.

Fake news sobre o ambientalismo

​O movimento ambientalista frequentemente é alvo de desinformação e notícias falsas que buscam desacreditar suas ações e objetivos. Entre eles estão falácias sobre seus objetivos, a contestação do aquecimento global e até a falsa acusação de que indígenas e ONGs estão por trás das queimadas criminosas que assolaram o país em 2024.

Aqui separamos as principais fake news e uma breve explicação as refutando:

“O ambientalismo é contra o desenvolvimento econômico”

Na realidade, o movimento ambientalista defende um desenvolvimento sustentável, que concilie crescimento econômico com a preservação dos recursos naturais. A adoção de práticas sustentáveis pode gerar empregos, promover inovações tecnológicas e assegurar a disponibilidade de recursos para as futuras gerações.

“O aquecimento global é uma farsa”

Há um consenso científico sobre as mudanças climáticas e o impacto das atividades humanas no aumento da temperatura global. Negar essa realidade ignora décadas de pesquisas e dados coletados por instituições renomadas mundialmente.

“Ambientalistas querem impedir a produção de alimentos”

O objetivo não é barrar a agricultura, mas incentivar práticas agroecológicas e sustentáveis que protejam o solo e os recursos hídricos. Essas práticas buscam aumentar a eficiência produtiva e garantir a segurança alimentar a longo prazo.

“Organizações ambientais recebem dinheiro para travar o progresso”

Muitas ONGs ambientais trabalham de forma transparente e recebem financiamento para projetos legítimos de conservação e educação ambiental. Acusá-las de impedir o progresso é uma tentativa de descredibilizar esforços essenciais para a sustentabilidade.

“Indígenas e ONGs são responsáveis pelas queimadas na Amazônia”

Em 2019, o presidente Jair Bolsonaro acusou, sem provas, ONGs de estarem envolvidas em incêndios ilegais na Amazônia. Organizações como a WWF Brasil, o Greenpeace e o Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental rebateram e criticaram essas afirmações.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, 6.288 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos na Amazônia. Imagem: Acervo Nacional

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, 6.288 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos na Amazônia. Imagem: Acervo Nacional

O movimento ambientalista e sua força política

No Brasil, a pauta ambiental é defendida por diversos parlamentares e partidos. O Partido Verde (PV) tem a principal agenda dedicada às causas ecológicas. Além do PV, outros partidos também possuem representantes que atuam em prol do meio ambiente, como Fábio Feldmann, que foi deputado federal e teve papel crucial na elaboração do capítulo ambiental da Constituição de 1988, e Márcio Santilli, ex-deputado federal e ex-presidente da Funai.

Além disso, Marina Silva, ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima pela segunda vez durante o terceiro governo Lula, tem uma longa trajetória de luta pela conservação da Amazônia e pelo desenvolvimento sustentável. Ela desempenhou um papel fundamental na implementação de políticas de combate ao desmatamento e na criação de áreas protegidas.

Porém, não podemos esquecer que o Brasil é um dos paises mais perigosos para pessoas ligadas ao ambientalista, no mundo. Uma pesquisa feita pela ONG Global Witness revelou que o Brasil ocupa a 2º posição mundial em quantidade de homicídios de ativistas ambientais – um ambientalista foi morto a cada dois dias em 2023.

Pensando nisso, cabe aqui apontarmos as principais figuras sociais deste movimento, começando por Chico Mendes, seringueiro e sindicalista que se tornou um símbolo internacional da defesa da Amazônia e dos povos da floresta, tendo sua vida brutalmente interrompida por sua militância.

Ailton Krenak, líder indígena, escritor e filósofo, tem sido uma voz essencial na luta pelos direitos indígenas e na denúncia da destruição ambiental promovida pelo modelo econômico predatório.

Já Alessandra Korap, liderança do povo Munduruku e ganhadora do Prêmio Goldman de Meio Ambiente, se destaca pela resistência contra a mineração ilegal e a exploração de terras indígenas.

É nítido  que o movimento ambientalista, portanto, não se restringe à preservação ecológica ou à conscientização sobre práticas sustentáveis. Ele se entrelaça com questões políticas, sociais e culturais, pois a destruição ambiental muitas vezes caminha lado a lado com violações de direitos humanos, concentração de terras e marginalização de comunidades tradicionais.

Chico Mendes foi um seringueiro e ativista que dedicou sua vida à defesa da Amazônia e dos povos da floresta. Imagem: Miranda Smith

Chico Mendes foi um seringueiro e ativista que dedicou sua vida à defesa da Amazônia e dos povos da floresta. Imagem: Miranda Smith

Quem lucra descredibilizando o ambientalismo?

Provavelmente a resposta na ponta da língua são os agropecuários, mas existem diversos outros grupos políticos e, inclusive, do setor público, que acredita que é benéfico desmotivar movimentos ambientalistas.

No Brasil, o movimento é frequentemente atacado por figuras políticas da direita, em geral, alinhadas a interesses econômicos que priorizam o desenvolvimento predatório ao invés da conservação ambiental.

Durante seu mandato, o ex-presidente Jair Bolsonaro implementou políticas que resultaram na flexibilização de regulamentações ambientais, redução de verbas para pesquisas sobre mudanças climáticas e aumento do desmatamento na Amazônia. É mais do que nítido de que lado o ex-presidente estava e não era a favor da sustentabilidade.

São os setores do agronegócio, as pessoas por trás de mineradoras, garimpos, empresas de hidrelétricas e madeireiros ilegais que mais saem ganhando. Exemplo disso foi o caso do Ricardo Sales, ex-ministro do meio ambiente, acusado de favorecer empresários ligados à extração ilegal de madeira ao afrouxar regras de fiscalização do Ibama.

Ricardo Sales, ex-ministro do Meio Ambiente, virou réu no caso de exportação ilegal de madeira. Imagem: Fabio Pozzebom

Ricardo Sales, ex-ministro do Meio Ambiente, virou réu no caso de exportação ilegal de madeira. Imagem: Fabio Pozzebom

O movimento ambientalista no Brasil e no mundo tem se consolidado como uma força essencial para garantir um futuro sustentável, equilibrando desenvolvimento econômico e preservação dos recursos naturais.

Apesar dos desafios impostos por setores conservadores e da desinformação que tenta descredibilizar suas pautas, a luta por energias renováveis, biodiversidade e justiça climática continua sendo indispensável. O Brasil, como potência ambiental, tem um papel fundamental na agenda global, e a realização da COP30 em 2025 reforça sua responsabilidade na liderança de políticas ambientais.

Mais do que uma questão ideológica, a defesa do meio ambiente é um compromisso com a vida, com a economia do futuro e com as próximas gerações. Cabe à sociedade, aos governos e às instituições fortalecer essa causa e garantir que o Brasil não siga na contramão da sustentabilidade global, mas sim como protagonista na construção de um planeta mais verde e resiliente.

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