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As sanções internacionais têm ganhado destaque nos debates sobre geopolítica, economia e direitos humanos. Em um cenário global cada vez mais interconectado, essas medidas se tornaram instrumentos frequentes de pressão e negociação entre países.

Embora as sanções sejam direcionadas a governos e elites políticas, muitas vezes seus efeitos colaterais atingem diretamente a população comum — tanto no país alvo das sanções quanto em outros pontos do globo.

Mas, afinal, o que significam? Quais são suas consequências e quem realmente paga o preço dessas decisões? Descubra essas e outras respostas aqui.

O que são sanções internacionais?

Sanções internacionais são medidas coercitivas adotadas por países ou organizações internacionais com o objetivo de pressionar, punir ou isolar governos, empresas, organizações ou indivíduos.

Essas medidas podem ser unilaterais, ou seja, quando são impostas por um único país ou multilaterais, quando contam com a adesão de diversas nações por meio de instituições como a ONU ou a União Europeia.

No contexto atual da geopolítica, as sanções internacionais se tornaram uma ferramenta estratégica relevante para influenciar comportamentos entre países sem o uso direto da força militar.

Na prática, essas sanções podem restringir relações comerciais, congelar ativos financeiros, impedir transações bancárias, limitar o trânsito de pessoas e mercadorias ou suspender acordos diplomáticos.

Sanções são medidas impostas para punir ou pressionar países a mudar comportamentos, ou políticas. Imagem: reprodução

Porém, apesar de parecerem apenas burocráticas, muitas vezes essas medidas são justificadas por violações de direitos humanos, agressões territoriais, desenvolvimento de armas de destruição em massa ou ameaças à paz e segurança internacionais. É importante, aqui, diferenciar quais são os tipos de sanções e como cada uma afeta de forma diferente a população final.

Diferentes tipos de sanções

As sanções internacionais podem ser classificadas de diferentes formas — cada uma seguindo uma forma diferente de ser aplicada. Abaixo, destacamos exemplos relevantes para exemplificar como essas medidas são feitas na prática:

1. Sanções militares

Um exemplo clássico é o embargo de armas imposto à Síria pela União Europeia desde 2011, em resposta à repressão violenta do governo de Bashar al-Assad, então presidente, durante o início da guerra civil. A medida incluiu a proibição de fornecimento de armamentos, munições e assistência técnica militar ao regime sírio.

2. Sanções econômicas

Talvez algumas das mais recorrentes no cenário global, as sanções econômicas foram amplamente aplicadas ao Irã, especialmente entre 2012 e 2015, pelos Estados Unidos e aliados. O foco principal foi o bloqueio ao setor petrolífero e financeiro, resultando em recessão, inflação elevada e escassez de produtos básicos – incluindo medicamentos e alimentos.

​Além disso, as declarações de janeiro de 2025 do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, sugerindo a imposição de tarifas de 100% sobre produtos de países que busquem substituir o dólar americano em transações internacionais, podem ser interpretadas como uma forma de sanção econômica.

3. Sanções diplomáticas

Um exemplo de sanções diplomáticas é o caso de Cuba vs Estados Unidos.

O corte de relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba, em 1961, tornou-se uma das sanções diplomáticas mais emblemáticas da história moderna. Após a Revolução Cubana e a crescente aproximação de Fidel Castro com a União Soviética, os EUA decidiram romper oficialmente os laços com o país caribenho.

Como consequência, fecharam sua embaixada em Havana e impuseram um rígido embargo econômico, que se estenderia por décadas.

4. Sanções desportivas e culturais

Embora não sejam tão comuns, as sanções desportivas também têm seu lugar na história.

Um dos casos mais marcantes envolve a Rússia, que enfrentou esse tipo de medida em duas ocasiões significativas: a primeira devido ao escândalo de doping patrocinado pelo Estado, o que resultou na exclusão do país de diversas edições dos Jogos Olímpicos.

A segunda em 2022, após a invasão da Ucrânia, quando atletas e artistas russos foram suspensos de participar de competições esportivas e eventos culturais internacionais.

Cuba enfrenta sanções dos EUA há mais de 60 anos, reforçadas pela direita americana e com graves impactos à população. Imagem: Getty Images

Sanções e guerras comerciais

Em um mundo globalizado, sanções econômicas podem se confundir com mecanismos de guerra comercial. Um exemplo dos últimos anos é o embate entre Estados Unidos e China no setor de tecnologia.

O governo norte-americano impôs sanções às empresas chinesas, como a Huawei, restringindo o acesso a chips de processamento de alta performance. Essas medidas têm como objetivo conter o avanço tecnológico chinês, mas também levantam debates sobre a legitimidade de utilizar sanções como meio de frear o desenvolvimento econômico de outro país.

Nesse caso, os Estados Unidos quiseram limitar o crescimento da China em setores estratégicos como inteligência artificial e redes 5G, onde a liderança por tecnologia representava também vantagem geopolítica e militar.

Outro exemplo são as sanções aplicadas pela União Europeia contra a Rússia em resposta à invasão da Ucrânia em 2022.

Uma delas é a proibição da importação de petróleo russo — até então o sexto pacote de sanções contra o país. Até o início de 2025, a Rússia já enfrentava mais de dez sanções de diferentes tipos, todas em virtude da guerra.

Soldado ucraniano portando uma arma caminha em meio aos escombros causados pela Guerra.
Em 2 anos de guerra, o combate da Rússia contra a Ucrânia já deixou mais de 12 mil civis mortos, de acordo com a ONU. Imagem: divulgação

Consequências das sanções

As sanções internacionais e econômicas, embora sejam frequentemente adotadas como alternativa diplomática ao uso da força, costumam gerar impactos profundos sobre a população dos países alvo.

Essas medidas podem resultar na escassez de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais, além de provocar inflação, desemprego e queda na qualidade de vida.

Um exemplo disso são os casos que já falamos anteriormente. No Irã, as sanções afetaram diretamente o sistema de saúde, dificultando a importação de remédios e equipamentos médicos. Já na Venezuela, as restrições agravaram uma já delicada crise econômica, afetando especialmente os mais pobres.

Embora tenham como objetivo pressionar governos, essas sanções muitas vezes penalizam principalmente os cidadãos comuns — ampliando desigualdades e aprofundando crises humanitárias.

Manifestação em Caracas contra as sanções impostas à Venezuela. Imagem: Conselho Nacional de Direitos Humanos
Manifestação em Caracas contra as sanções impostas à Venezuela. Imagem: Conselho Nacional de Direitos Humanos

Trump e as sanções econômicas

As abordagens protecionistas adotadas por Donald Trump, tanto durante seu primeiro mandato de 2017 a 2021 quanto no governo iniciado em 2025, podem ser compreendidas como formas de sanção econômica.

No passado, ele já havia imposto tarifas bilionárias sobre produtos chineses com o objetivo de reduzir o déficit comercial dos EUA e pressionar o país a mudar práticas consideradas “desleais”. E em 2025, Trump voltou a intensificar a guerra tarifária.

Entre as medidas anunciadas, estava o aumento das tarifas sobre os produtos chineses. Isso levou a uma retaliação de Pequim, que também taxou produtos estadunidenses. A disputa se intensificou, com respostas de ambos os lados. O governo chinês considerou a atitude de Trump uma ofensa aos interesses da China e uma ação que coloca em risco o sistema de comércio multilateral baseado em regras.

Como resultado da disputa, as tarifas comerciais chegaram a ultrapassar os 100%, após diversos aumentos consecutivos de ambas as partes do conflito.

Essas medidas reacendem o debate sobre o uso de sanções e taxações unilaterais como instrumentos de pressão política e econômica, cujos efeitos, como vimos anteriormente, sempre se estendem para além dos governos e atingem a ponta final – os consumidores.

Trump em sua anunciação das medidas tarifárias em resposta.
Trump em sua anunciação das medidas tarifárias em resposta. Foto: Reuters

Como vimos, seus impactos vão além das esferas políticas e econômicas: afetam o acesso a itens essenciais, comprometem sistemas de saúde, aumentam o custo de vida e alimentam crises sociais. Afinal, pelo que entendemos da história recente, governos podem até resistir, mas são os cidadãos que, dia após dia, pagam o preço mais alto dessas decisões.

Sanções que encarecem remédios no Irã, tarifas que aumentam o custo de vida na Venezuela, embargos que chegam como inflação ao bolso do brasileiro — as decisões tomadas entre grandes potências raramente ficam contidas nas chancelarias.

Quem paga o preço mais alto são sempre os cidadãos comuns, nos países alvo e nos que ficam no meio do caminho. Entender a lógica por trás dessas ferramentas de pressão é o que a aula de Jamil Chade propõe, ao vivo da sede da ONU em Genebra. No dia 5 de maio, terça-feira, às 20h, o ICL exibe gratuitamente, com mediação de Eduardo Moreira. Inscreva-se agora!

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