Com Igor Mello e Karla Gamba
O ministro Alexandre de Moraes derrubou nesta quinta-feira (15) o sigilo dos 27 depoimentos colhidos na Operação Tempus Veritatis, deflagrada em fevereiro pela Polícia Federal e que atingiu Jair Bolsonaro e seu núcleo político e militar.
Assim como o depoimento do ex-comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, o depoimento do ex-comandante da Aeronáutica, Carlos Baptista Junior, à Polícia Federal, é bastante comprometedor para Jair Bolsonaro. Segundo o brigadeiro, ele tentou por várias vezes demover o ex-presidente da intenção de manter-se no poder e impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A seguir, alguns trechos:
A “assessoria jurídica” Anderson Torres
“Indagado sobre a participação do então ministro da justiça Anderson Torres nas reuniões presidenciais, respondeu que Anderson Torres chegou a participar de uma reunião em que comandantes de força estavam presentes que Torres procurava pontuar aspectos jurídicos que dariam suporte às medidas de exceção (GLO e Estado de Defesa); Que o papel do ministro Anderson Torres na referida da reunião foi de assessorar o então presidente Jair Bolsonaro em relação às medidas jurídicas que o Poder Executivo poderia adotar no cenário discutido”.
Na contramão do golpe
“Que o depoente tentava demover o então presidente Jair Bolsonaro de utilizar os referidos institutos jurídicos; Que o depoente deixou claro a Jair Bolsonaro em uma dessas reuniões que tais institutos não serviriam para manter o então Presidente da República no poder após 1º de janeiro de 2023. Que o ex-presidente ficava assustado”.
Freire Gomes ameaça prender Bolsonaro
“Que o então comandante do Exército, general Freire Gomes, também tentava convencer o então Presidente a não usar os referidos institutos; Que em uma das reuniões dos comandantes das forças com o então Presidente da República, após o segundo turno das eleições, depois de o Presidente da República, Jair Bolsonaro, aventar atentar contra o regime democrático, por meio de algum instituto previsto na Constituição (GLO ou Estado de Defesa ou Estado de Sítio); o então comandante do Exército, general Freire Gomes, afirmou que caso tentasse tal ato teria que prender o Presidente da República”.
“Não” à ruptura institucional
“Que em outra reunião dos comandantes das forças com o então Presidente da República, o depoente deixou evidente a Jair Bolsonaro, que não haveria qualquer hipótese do então presidente permanecer no poder após o término de seu mandato; Que deixou claro ao então presidente Jair Bolsonaro que não aceitaria qualquer tentativa de ruptura institucional para mantê-lo no poder; Que a Aeronáutica não apoiaria qualquer tentativa de manutenção no poder do então Presidente da República no poder, após o 1º de janeiro de 2023”.
Garnier topou o golpe
“Que em uma das reuniões com os Comandantes das Forças, após o segundo turno das eleições presidenciais, dentro do contexto apresentado pelo então Presidente Jair Bolsonaro de possibilidade de utilizar dos institutos jurídicos da GLO e do Estado de Defesa, o então Comandante da Marinha, Almirante Almir Garnier dos Santos, afirmou que colocaria suas tropas a disposição de Jair Bolsonaro; que tal posição do Comandante da Marinha foi dissonante dos demais Comandantes (Exército e Aeronáutica)”.
Ganhando tempo
“Que o depoente utilizou uma estratégia para ganhar tempo e evitar que o então Presidente assinasse alguma medida de exceção, que subvertesse o Estado de Direito; que o depoente insistiu que não haveria qualquer justificativa para decretação dessas medidas”.
Pressão de general Heleno por reunião com Bolsonaro
“Que no dia 16/12/2022 (sexta-feira) o depoente encontrava-se na cidade de São José do Campos/SP onde participou da formatura de graduação do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA); Que após a conclusão da cerimônia, o depoente foi procurado pelo General Augusto Heleno, que também encontrava-se no local para formatura de seu neto; Que o referido General o indagou se o depoente poderia disponibilizar uma vaga no avido de apoio da FAB, pois o então chefe do GSI havia sido acionado pelo então presidente, Jair Bolsonaro, para uma reunião urgência no dia 17/12/2022 (sábado), em Brasília/DF; Que perguntou ao General Heleno se o mesmo havia ponderado ao presidente que estava participando da formatura de seu neto, uma ocasião especial; Que o General Heleno disse que sim e que mesmo assim a ordem seria para o General voltar a Brasília/DF; Que diante da conjuntura estranhou o fato de a reunido ocorrer no fim de semana e com urgência; Que então o depoente chamou o General Heleno até uma sala reservada nas instalações do ITA; Que na conversa, o depoente afirmou de forma categórica ao General Heleno que a Força Aérea Brasileira (FAB) não anuiria com qualquer movimento de ruptura democrática; Que, por não ter sido convidado para a referida reunido, solicitou ao General Heleno que reafirmasse ao então presidente, Jair Bolsonaro, a posição do depoente e da Aeronáutica; Que o General Heleno ficou atônito e desconversou sobre o assunto com o depoente; Que no mesmo dia 16/12/2022, o depoente voltou para Brasília/DF com o General Heleno: Que foi o próprio depoente quem pilotou a aeronave; QUE não tocou mais no assunto com o General Heleno”.
Pressão de Carla Zambelli
“No dia 08/12/2022, após a formatura dos aspirantes a oficial da FAB, na cidade de Pirassununga/SP, o depoente foi interpelado pela Deputada Federal Carla Zambelli, com a seguinte indagação: “Brigadeiro, o senhor não pode deixar o Presidente Bolsonaro na mão”; Que, em seguida, o depoente disse: “Deputada, entendi o que a senhora está falando e admito que a senhora proponha qualquer ilegalidade” ; Que o depoente reportou tal fato ao então ministro da Defesa Paulo Sergio de Oliveira; Que o ministro reportou ao depoente, que foi abordado pela Deputada Federal Carla Zambelli de forma semelhante”.
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