Brasileiros acorrentados são expulsos do sonho americano

Ao tratar imigrantes como criminosos, sistema atual expõe face mais brutal
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Por Valter Mattos da Costa*

Assisti na sexta à noite, perplexo, às imagens de brasileiros deportados dos Estados Unidos, chegando algemados e com os pés acorrentados em Manaus, como se fossem criminosos perigosos.

Essa cena grotesca, fruto das políticas migratórias implementadas pelo atual governo de extrema direita de Donald Trump, revela não apenas o descaso com a dignidade humana, mas também a herança de um sistema que, ao longo da história, construiu fronteiras para dominar, explorar e segregar.

Penso, inevitavelmente, no impacto que essas fronteiras tiveram na construção da nossa visão de mundo. Elas não são naturais, nunca foram. São invenções humanas, justificadas por discursos de poder e perpetuadas pela violência. Desde a partilha dos continentes até a consolidação dos Estados-nação, as fronteiras serviram para delimitar espaços de dominação, onde a Terra e tudo que nela habita – sejam recursos naturais, culturas ou pessoas – tornaram-se propriedade de alguns poucos.

Trump, ao deportar centenas de brasileiros com o rigor desumano de correntes e algemas, reforça essa lógica perversa. Para ele, o imigrante não é um ser humano em busca de sobrevivência, mas uma ameaça a ser contida, algemada e descartada.

A cena das algemas em brasileiros deportados me remete a outro momento de brutalidade histórica: o genocídio dos povos indígenas na América. No livro “Enterrem meu coração na curva do rio” (de 1970), o historiador e escritor norte-americano Dee Brown narra a destruição das culturas indígenas nos Estados Unidos, mostrando como os colonizadores tomaram terras que não lhes pertenciam, destruíram ecossistemas e reduziram povos inteiros à submissão.

Quando observo a maneira como os imigrantes brasileiros foram tratados, percebo a continuidade dessa mesma lógica colonial: as fronteiras, assim como as reservas indígenas demarcadas pelos colonizadores, não servem para proteger, mas para excluir e explorar – como evidencia o fato de que, antes dos latino-americanos, os primeiros colonos de origem inglesa migraram para a América do Norte no início do século XVII, marcando sua presença com violência e dominação.

A maioria dos povos indígenas (com exceção daqueles que constituíram Estados no período pré-colombiano, como os Astecas, Maias e Incas, ainda assim com uma relação distinta do conceito ocidental de propriedade privada), em sua sabedoria milenar, nunca compreendeu a terra como propriedade. Para eles, a relação entre homem e natureza é de coexistência, não de domínio.

Segundo, portanto, a cosmologia dos povos originários das Américas, a terra não pertence ao homem; o homem é parte da terra. Essa visão contrasta radicalmente com a prática de governos como o de Trump, que enxergam o mundo como um território a ser cercado, dividido e explorado até o esgotamento (o bolsonarismo, pelas suas declarações e práticas, tem uma visão semelhante).

Ao deportar brasileiros em condições degradantes, Trump expôs a face mais brutal do sistema capitalista contemporâneo. Um sistema que, ao se apoiar na separação artificial entre “nós” e “eles”, exclui aqueles que não se encaixam no ideal de produtividade ou de pertencimento. Os deportados, na maioria trabalhadores que buscavam nos Estados Unidos uma vida melhor (trabalhando naquilo que na maioria das vezes o estadunidense não quer fazer), são tratados como invasores, enquanto corporações multinacionais
saqueiam os recursos naturais de países pobres sem encontrar qualquer resistência. O paradoxo é gritante: o capital atravessa fronteiras livremente; os corpos humanos, não.

Se o século XXI nos impõe um desafio ético, é o de desmontar a lógica de exploração e exclusão que moldou as relações humanas desde os primórdios da modernidade. Isso exige que revisitemos a relação do homem com a terra e com o outro. Os imigrantes deportados não são criminosos; são vítimas de um sistema que concentra riqueza em poucas mãos enquanto precariza a existência de milhões.

Como professor de História, sinto o peso de alertar meus alunos que as fronteiras que definem o mundo não são inevitáveis. Elas foram criadas para atender a interesses específicos e, como toda criação humana, podem ser repensadas e derrubadas. Não há nada de natural na deportação em massa de pessoas que apenas buscaram sobreviver.

Não há nada de justo em algemar quem já está ferido pela pobreza.

Enquanto Trump e outros líderes mundiais continuarem a tratar o planeta como um grande tabuleiro de xadrez, onde o poder de poucos prevalece sobre o direito de muitos, seguiremos construindo muros, algemando sonhos e explorando vidas.

É tempo de aprender com os povos originários, com sua visão de um mundo sem proprietários, sem fronteiras artificiais – até porque, a história da humanidade, desde que os primeiros Homo sapiens saíram da África para colonizar outros continentes, é uma história de migração. Portanto, é tempo de lembrar que a terra, assim como a dignidade humana, não pertence a ninguém.

Em retaliação, cabe ao governo brasileiro, diante desta grave violência, considerar o rompimento total ou parcial das relações diplomáticas entre os dois países, adotando, no mínimo, ações previstas no direito internacional, como o fechamento de embaixadas e consulados nos Estados Unidos.

Essa realidade que testemunhamos hoje não pode ser aceita como norma. É preciso, como dizia Dee Brown ao narrar a tragédia indígena, “enterrar nossos corações na curva do rio”, para que a história não se repita. Para que, um dia, todos possamos viver em um mundo sem correntes – nem nos pés, nem no pensamento.

 

*Professor de História, especialista em História Moderna e Contemporânea e mestre em História social, todos pela UFF, e doutor em História Econômica pela USP

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