Lula para Trump: ‘Processo eleitoral brasileiro é confiável’

Governo brasileiro acredita que ligação reabre diálogo com Trump e potencialmente reduz espaço para a ação de bolsonaristas e ala mais ideológica nos EUA
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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ao presidente Donald Trump que o processo eleitoral brasileiro é “confiável” e que as campanhas estão ocorrendo de forma positiva. O tema foi abordado no telefonema entre o brasileiro e o americano, nesta sexta-feira, e que durou mais de uma hora.

Num dos momentos iniciais da conversa, Trump afirmou que sabia que o país estava caminhando para um momento político importante e quis saber, de forma cordial, como estavam as eleições no Brasil.

Lula respondeu que a eleição caminhava bem e fez questão de destacar que o “processo eleitoral é confiável”. Ele também explicou que as campanhas dos diferentes candidatos começaram, que são vários nomes e que “está tudo bem”.

Trump não continuou a conversa e o brasileiro deu por encerrado o tema. O governo, de fato, havia preparado informações sobre a reunião do TSE com embaixadores estrangeiros, caso o tema surgisse.

Mas a troca de impressões sobre a eleição no Brasil foi considerado como tendo ocorrido num “nível adequado”.

Com Flávio Bolsonaro, há poucos meses, Trump também quis saber como estavam as eleições e chegou a perguntar o que diziam as pesquisas de opinião.

A ausência de uma postura mais desafiadora de Trump se contrasta com a realidade dos últimos meses. O Departamento de Estado tem indagado a eleição no Brasil e colocado em questão a transparência do processo. Mais recentemente, a diplomacia americana insistiu que iria reconhecer o resultado da eleição brasileira, mas indicou que elas precisariam ser “livres e justas”. A qualificação sinalizou para observadores que será Washington que determinará se considera a eleição suficientemente democrática ou não.

Lula, que criticou publicamente o Departamento de Estado e Marco Rubio, não citou qualquer fricção entre os funcionários de Trump e o Brasil no telefonema.

Durante a conversa, que foi a mais longa entre os dois presidentes, nem as sanções contra a embaixadora do Brasil em Washington foram mencionadas e nem a situação da aprovação de Daniel Perez para ocupar a embaixada dos EUA em Brasília. A impressão do governo é de que esses temas não são prioridade para Trump.

Não entrou na agenda tampouco a recusa do Brasil de dar vistos para funcionários a funcionários americanos que viajariam ao país para avaliar o processo eleitoral.

Neutralizar bolsonaristas e Marco Rubio

Para o Brasil, a ligação reabre o diálogo com Trump e tem o potencial de tornar mais difícil uma ação direta do presidente americano contra o processo eleitoral brasileiro.

A dúvida que paira no ar é como essa relação cordial entre os dois terá um impacto no segundo escalão do governo americano. O Palácio do Planalto aposta que essas pressões vão continuar. Mas o custo político disso seria mais elevado para agir contra o Brasil.

Apesar do tom positivo da conversa, o governo não acha que pode baixar a guarda e a experiência mostra que, quando o tema sai da Casa Branca, há um processo de turbulência.

Para o Brasil, a ingerência americana vem ocorrendo desde 2025 e as diferentes ações do Planalto têm como objetivo “desidratar” seus impactos.

Apesar de a conversa ter estabelecido a volta de um processo negociador entre os dois países no setor comercial, o Brasil não acredita que o tarifaço seja retirado antes da eleição.

Mas o gesto manda um sinal de que o Brasil não saiu da mesa de negociação e que não quer retaliar

O governo também acredita que a cordialidade entre Trump e Lula reduz a margem para ação dos bolsonaristas. Mas a expectativa é de que o “baixo clero” americano continuará a buscar uma aliança com a campanha de Flávio Bolsonaro.

Ainda que o governo considere que a relação entre Lula e Trump sejam “muito boas” e que a conversa tenha sido “muito convergente”, Brasília continua vendo o Departamento de Estado como “foco de ingerência” na eleição.

Ao final do encontro, Trump disse para Lula que ele tem “canal direto” com ele e que a relação entre os dois países não precisa passar por outros caminhos. Ele também se colocou à disposição para conversar, quando houver necessidade, e deixou claro que Lula poderia procurá-lo.

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