Câncer colorretal em foco: especialista explica riscos, prevenção e sinais de alerta

Em entrevista, oncologista explica fatores de risco, sintomas e a importância da colonoscopia para o diagnóstico precoce
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Por Gustavo Cabral*

O mês de março é marcado pela campanha Março Azul-Marinho, iniciativa dedicada a ampliar a conscientização sobre o câncer de cólon e reto, também conhecido como câncer colorretal. A mobilização tem como objetivo principal incentivar a prevenção, reforçar a importância do diagnóstico precoce e ampliar o acesso a informações confiáveis sobre uma neoplasia muito frequente no mundo e também no Brasil.

Apesar de ser um tipo de câncer que, na maioria dos casos, pode ser prevenido ou tratado com maiores chances de sucesso quando identificado em estágios iniciais, o câncer colorretal ainda é cercado por dúvidas, tabus e desinformação. Questões relacionadas aos fatores de risco, aos sinais de alerta e aos exames de rastreamento muitas vezes permanecem pouco discutidas fora do ambiente médico, o que pode atrasar a busca por diagnóstico e tratamento.

Diante desse cenário, ouvir especialistas torna-se fundamental para esclarecer a população e promover uma compreensão mais ampla sobre a doença. Informação de qualidade é uma ferramenta essencial tanto para estimular hábitos de prevenção quanto para orientar a identificação precoce de sintomas e a procura por acompanhamento médico adequado.

Com o objetivo de aprofundar esse debate sob uma perspectiva científica e responsável, conversei com a doutora Carolina Ribeiro Victor, médica oncologista especializada no tratamento de tumores gastrointestinais.

A especialista atua no ICESP (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) e na Oncologia D’Or, instituições de referência no atendimento oncológico. Na entrevista, ela explica os principais aspectos relacionados ao câncer colorretal, desde fatores de risco e formas de prevenção até os avanços no diagnóstico e nas opções de tratamento.

O que é o câncer de cólon e reto e como ele se desenvolve no organismo?

Carolina Ribeiro Victor — Importante explicar que cólon é o intestino grosso e o reto é a parte final do intestino grosso. Na maioria das vezes, o câncer começa como pequenos pólipos, que são pequenas lesões na parede do intestino, como se fossem “verrugas”. Esses pólipos geralmente são benignos no início, mas alguns podem crescer ao longo dos anos e se transformar em câncer. Por isso o exame da colonoscopia é tão importante: muitas vezes conseguimos identificar e retirar esses pólipos antes que eles se tornem um câncer.

Quais são os principais fatores de risco? Alimentação, sedentarismo e histórico familiar influenciam?

Sim, esses fatores influenciam bastante. Alguns hábitos do dia a dia aumentam o risco, como:

  • consumo frequente de embutidos (como salsicha, bacon, linguiça e presunto) e alimentos ultraprocessados;
  • sedentarismo;
  • obesidade;
  • tabagismo e consumo excessivo de álcool.

O histórico familiar também é importante. Pessoas que têm parentes próximos com câncer de intestino (principalmente se em idade mais jovem) podem ter maior risco e, nesses casos, muitas vezes precisam começar os exames mais cedo. Ou seja, tanto o estilo de vida quanto a genética podem influenciar no desenvolvimento da doença.

Quais sinais e sintomas merecem atenção?

Alguns sinais que merecem atenção são:

  • sangue nas fezes;
  • mudança persistente no funcionamento do intestino (diarreia ou prisão de ventre por várias semanas);
  • dor abdominal frequente;
  • sensação de evacuação incompleta;
  • perda de peso sem explicação;
  • cansaço ou anemia

Portanto, qualquer alteração que persista por algumas semanas deve ser avaliada por um médico
Mas é importante destacar que o câncer de intestino pode se desenvolver silenciosamente durante anos e por isso a importância de realização de exames preventivos.

A partir de que idade é recomendado iniciar os exames de rastreamento?

Quando falamos em rastreamento a definição é realizar exames preventivos em pessoas sem sintomas (já que na fase inicial a maior parte dos tumores não ocasiona sintomas). O Ministério da Saúde do Brasil recomenda começar a partir dos 50 anos, porém como estamos já vendo casos mais jovens, há recomendações internacionais de iniciar  a partir dos 45 anos, em pessoas sem sintomas.

Importante reforçar que se alguém começar a ter sintomas persistentes como comentei anteriormente, independente da idade, precisa ser investigado. A colonoscopia é o exame mais completo porque permite ver o intestino por dentro e retirar pólipos durante o próprio exame, prevenindo o câncer.

O câncer colorretal tem cura?

Sim, principalmente quando é diagnosticado cedo. Quando o câncer é identificado nas fases iniciais, as chances de cura são muito altas, muitas vezes realizando apenas cirurgia.

Por outro lado, quando o diagnóstico acontece em fases mais avançadas, o tratamento costuma ser mais complexo e pode envolver quimioterapia, radioterapia ou outros medicamentos.
Por isso o diagnóstico precoce faz toda a diferença.

Qual a importância da campanha Março Azul-Marinho?

O Março Azul-Marinho é uma campanha criada para alertar a população sobre o câncer de intestino, que é um dos mais comuns no mundo. Campanhas como essa ajudam a informar, quebrar tabus sobre exames como a colonoscopia e estimular o diagnóstico precoce, que salva vidas.

Quais hábitos ajudam na prevenção?

Algumas mudanças simples podem reduzir o risco da doença:

  • manter uma alimentação equilibrada, com mais frutas, verduras e fibras;
  • reduzir o consumo de alimentos ultraprocessados;
  • praticar atividade física regularmente;
  • manter um peso saudável;
  • evitar tabagismo e excesso de álcool;
  • e, claro, fazer os exames de rastreamento na idade recomendada.

Por fim, gostaria de deixar alguma mensagem?

Uma mensagem importante é que o câncer de intestino pode ser prevenido e tem grandes chances de cura quando descoberto cedo. Por isso, não devemos ignorar sintomas como sangue nas fezes ou mudanças persistentes no intestino. E mesmo sem sintomas, a partir dos 45 anos é fundamental conversar com o médico sobre os exames de rastreamento. Informação e prevenção ainda são as melhores ferramentas para salvar vidas.

*Professor e doutor Gustavo Cabral, imunologista PhD pela USP, pós-doutor pela Universidade de Oxford (Inglaterra), e pós-doutor sênior pelo Hospital Universitário de Bern (Suíça). 

 

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