Por Cleber Lourenço
O Centrão decidiu empurrar para a próxima semana a votação da anistia — também chamada de dosimetria — e da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil. A estratégia é equilibrar a agenda, evitando que o Plenário tenha apenas uma pauta considerada negativa. Integrantes do bloco avaliam que votar a anistia isoladamente aumentaria o desgaste político, especialmente após as manifestações contrárias realizadas no último fim de semana. Colocar a dosimetria em votação agora significaria abrir a semana com um tema de grande impopularidade, sem contrapeso capaz de atenuar as críticas.
Sobre isso, ao ICL Notícias, o senador Renan Calheiros reagiu e afirmou que “a pauta que realmente interessa à sociedade está sendo deixada de lado, enquanto se priorizam agendas para atender minorias e grupos”. Ele explicou que levou o debate sobre a isenção do IR para a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado porque, segundo ele, “existe o princípio da anualidade e, para vigorar em 2026, precisamos votar a isenção até R$ 5 mil ainda este ano”.

Nos bastidores, a leitura é clara: se a isenção do IR fosse aprovada de imediato, o grupo perderia um trunfo essencial para negociar a aprovação da anistia. O cálculo do Centrão é atrelar a votação das duas matérias e vender a narrativa de que, ao mesmo tempo em que se aprova um benefício de forte apelo social, também se avança em uma proposta de interesse direto de um grupo específico de parlamentares. Assim, a isenção funcionaria como escudo para reduzir o impacto negativo da anistia diante da opinião pública.
Além disso, o Centrão quer mexer na forma de compensação da isenção. O bloco resiste à proposta do governo de financiar a medida com a taxação dos super-ricos, e esse embate pesa na balança. Deputados temem acumular mais uma frente de desgaste, já que ainda estão enfrentando a repercussão negativa da PEC da blindagem, criticada até mesmo por aliados. Ao ICL Notícias, o senador Sóstenes Cavalcante afirmou que o PL defende também o adiamento da votação da proposta e considera necessário discutir mais o mérito. Segundo ele, há preocupação no partido de que o texto acabe não alcançando o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A manobra, no entanto, tem custo político e institucional. O adiamento atrasa uma das principais promessas do governo, que esperava ver a isenção do IR avançar ainda em setembro como símbolo de sua agenda econômica e social. Fontes da articulação reconhecem que a decisão deixa claro que a anistia não tem força própria para caminhar sozinha e precisa se escorar em uma pauta popular para ser empurrada no Plenário. A avaliação é de que o bloco não está disposto a arriscar uma derrota sonora em uma semana marcada pela repercussão das ruas.
Enquanto isso, cresce a pressão sobre a Câmara. O centrão teme que a população perceba que uma demanda social legítima — a atualização da tabela do IR — esteja sendo usada como moeda de troca para aprovar uma proposta que enfrenta forte resistência nas ruas, no Senado e até em setores da própria base governista. Rubens Pereira Jr, presidente da comissão especial da isenção do IR na Câmara, alertou que “se o Congresso mexer, blindando os super-ricos, vai estar de costas para o povo, o que já se mostrou perigoso. Essa proposta é a maior novidade de justiça tributária que tivemos em período democrático. É justamente essa cobrança mínima do super-rico, que ainda paga menos do que um trabalhador normal”. Deputados de diferentes partidos já manifestam preocupação com o desgaste de vincular o avanço de uma conquista social ao interesse de grupos que buscam blindagem judicial e política.

A tendência é que a próxima semana se transforme em um teste de forças, com o Centrão tentando equilibrar o jogo e o Planalto pressionado a mostrar resultados concretos sem ceder completamente às chantagens do bloco majoritário.