Os governos do Chile, Brasil e México se uniram para apresentar Michelle Bachelet como candidata para assumir a ONU, a partir do final de 2026. A proposta foi oficializada nesta segunda-feira, pelo governo do Chile.
O português António Guterres encerra seu segundo mandato neste ano e delegações de todo o mundo já mergulham em um intenso lobby para a eleição. Por um princípio de rotatividade, caberia à América Latina assumir a entidade. Mas, desta vez, há um outro argumento que ganha ainda mais intensidade: a de que, depois de 80 anos, a ONU tenha finalmente uma mulher como secretária-geral.
“Já passou da hora de uma mulher ser escolhida”, disse o presidente da Estônia, Alar Karis, durante os discursos da semana passada na Assembleia Geral, em Nova Iorque.
O governo brasileiro também defende que países latino-americanos indiquem apenas mulheres como candidatas e tem defendido a medida como forma de promover, de uma maneira mais ampla, a ideia de igualdade de gênero.
Os apoiadores da candidatura de Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, argumentam que poucas pessoas poderiam superar suas credenciais. Ela foi a primeira mulher presidente na América do Sul, a primeira-ministra da Defesa, foi exilada política depois do golpe de Augusto Pinochet e, ao longo dos últimos anos, ocupou ainda cargos estratégicos dentro da própria ONU.
Sua simpatia por Lula é declarada e o brasileiro também já falou em gratidão diante de seu apoio dado durante os meses em que esteve preso.
Em post na rede social X, Lula defendeu a candidatura de Bachelet: “Em oito décadas de história, é hora de a organização finalmente ser comandada por uma mulher. A trajetória de Bachelet é marcada pelo pioneirismo. (…) Sua experiência, liderança e compromisso com o multilateralismo a credenciam para conduzir a ONU, em um contexto internacional marcado por conflitos, desigualdades e retrocessos democráticos.”
Não foram poucos os embates entre ela e o ex-presidente Jair Bolsonaro, que ironizou a morte de seu pai, um general que se opunha à ditadura de Pinochet e foi assassinado. Em 2019, os comentários do brasileiro criaram um profundo constrangimento internacional para o país.
Mas a escolha para a direção da ONU não é uma simples votação. A candidata precisa, antes, ser aprovada por consenso pelo Conselho de Segurança. Ou seja, não pode ser vetada por Grã-Bretanha, China, França, Rússia ou Estados Unidos.
E é este o aspecto que pode desmontar a articulação da chilena no comando da ONU. Um dos candidatos da região é o atual chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, o argentino Rafael Grossi. Nos últimos meses, ele costurou uma aproximação ao presidente Javier Milei e saiu em busca do apoio de Donald Trump.
Grossi viola o compromisso de dezenas de delegações por uma mulher no comando. Mas tanto ele como potências pelo mundo sabem que, neste momento, contar com o apoio de Trump pode ser decisivo.
A entrada em jogo do argentino ainda mina a esperança das alas progressistas da América Latina por um amplo consenso por Bachelet. Essa aliança seria importante para conquistar o apoio dos demais membros do Conselho de Segurança.
Em maio de 2025, por exemplo, o presidente chileno Gabriel Boric pediu que Xi Jinping apoiasse Bachelet. A sinalização foi de que a China estaria “disposta a considerar”, desde que ela tivesse amplo apoio na região.
Entre diplomatas, a perspectiva é de que os rachas políticos na América Latina se acentuem com a disputa pelo cargo de chefe da ONU. Com uma forte aliança com Milei e Trump, o Paraguai dificilmente sairia ao apoio de Bachelet. Equador, Peru, El Salvador e uma dezena de governos caribenhos e centro-americanos também poderiam ser fortemente influenciados pela pressão americana.
Entre as mulheres, há ainda a candidatura da ex-vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan. Ela ganhou a confiança de europeus e russos ao negociar, em absoluto sigilo, o acordo que permitiu a Ucrânia continuar exportando seus produtos agrícolas, apesar da guerra. Seu nome não é descartado em Washington.
Conhecido como “o emprego mais impossível do mundo”, o cargo da futura secretária-geral terá desafios inéditos. A escolhida assumirá uma entidade sem recursos financeiros e que está sendo obrigada a encolher para poder sobreviver.
Uma das preocupações entre diplomatas é ainda de que seja transferida para a escolha da nova direção a profunda desconfiança entre governos. “Seria catastrófico um processo no qual o veto de um ou outro lado leve a uma ausência de decisão”, afirmou um experiente embaixador.
Um impasse e um cargo vago no posto mais alto da ONU seriam mais um prego no caixão da credibilidade da instituição, já seriamente abalada.