A cidade do Rio de Janeiro completa 461 anos de fundação no dia 1º de março. A efeméride duvidosa (há controvérsias que envolvem a fundação) me leva a escrever esse texto expressando um desejo de quem nasceu, vive e provavelmente morrerá no chão da Guanabara: que a cidade e seus habitantes tenham mais apreço por aquilo que fomos e nos constituiu; menos para celebrar e mais para encarar e reconhecer o horror (sim, a cidade é filha do horror) e a beleza (sim, a cidade é danada para produzir beleza) da nossa formação.
Digo isso porque o Rio de Janeiro tem, ao longo dos tempos, a chocante tendência de destruir seus lugares de memória. O Palácio Monroe foi demolido; o Mercado da Praça XV, um marco da arquitetura em ferro, foi extirpado; a Praça Onze, depositária do contato entre as culturas de negros, judeus e ciganos, acabou em nome de progresso; o local em que Machado de Assis viveu, no Cosme Velho, virou um edifício amorfo; botequins centenários sucumbiram; históricos cinemas de rua tiveram fachadas descaracterizadas para funcionar como igrejas; centenários sobrados dos subúrbios foram destroçados, sem que deles reste ao menos o vestígio.
Não se ensina, na maioria das escolas do Rio de Janeiro, a história da cidade, dos seus bairros e ruas, como matéria sistemática do aprendizado. Fala-se mais, para um menino carioca do Palácio de Versalhes do que do Palácio Monroe. Uma menina da quinta série do ensino fundamental aprende sobre as ágoras gregas e sequer escuta falar sobre a Praça Onze, ágora carioca e um dos berços da peculiaridade da nossa experiência civilizacional. Querem que um garoto do Morro da Providência aprenda que a Grécia foi o berço da filosofia ocidental (é ótimo que ele aprenda isso), mas esquecem de dizer ao moleque que a Pedra do Sal, pertinho de onde ele mora, moldou os batuques cariocas dos primeiros sambas.
Sem o conhecimento, impera o descaso.
As reflexões sobre os nossos problemas urbanos, como de resto os de qualquer cidade, devem ser feitas em uma perspectiva que encare o Rio como um organismo vivo. A nossa aldeia é feita de história, lugares de memória, espaços de conflito, instâncias de urbanidade e relações tensas e intensas, inscritas no tempo, entre os diferentes grupos que nela reinventam constantemente seus modos de vida. Mudanças, transformações e permanências só podem ser solidamente advindas dessa relação profunda, vivenciada, ensinada, compartilhada e pensada.
As cidades, no fim das contas, não se revelam apenas no que acontece nas suas esquinas. Elas se mostram também — e muitas vezes de maneira mais visceral — em tudo aquilo que já não é.