China e o impacto global do TikTok: como uma plataforma chinesa transformou as redes sociais

O TikTok domina o mundo com entretenimento, enquanto o Douyin educa jovens na China
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Quantas horas você passou no TikTok neste mês? Se a resposta for “muitas”, você não está sozinho.

O fenômeno do TikTok representa muito mais do que o surgimento de mais uma rede social, trata-se de uma transformação profunda em como consumimos informação e passamos nosso tempo online.

Com mais de 1,5 bilhão de usuários ativos mensais em 2025, a plataforma chinesa conquistou algo inédito: segundo dados da Meltwater analisados pela WARC Media, o usuário médio passa impressionantes 35 horas por mês no TikTok – mais do que o dobro do tempo gasto no Instagram.

Mas enquanto o mundo inteiro consome vídeos curtos no TikTok, poucos sabem que na China opera uma versão paralela e significativamente diferente: o Douyin – uma plataforma de vídeos curtos focados em educação.

Vamos entender como essas duas plataformas incentivam o comportamento do usuário de maneiras completamente diferentes e quais são os impactos no dia a dia de jovens do mundo inteiro.

A ascensão do TikTok e o poder do algoritmo chinês

Lançado internacionalmente em 2017 pela empresa chinesa ByteDance, o TikTok experimentou um crescimento sem precedentes na história das redes sociais chinesas.

A plataforma alcançou 1 bilhão de usuários em menos de quatro anos – uma marca que levou quase uma década para Facebook e Instagram atingirem. Nos Estados Unidos, principal mercado fora da Ásia, o aplicativo saltou de cerca de 11 milhões de usuários em janeiro de 2018 para mais de 170 milhões em 2025, representando quase metade da população do país.

No Brasil, o crescimento foi igualmente impressionante.

De acordo com a Statista, em 2024 o país contava com 101,8 milhões de usuários ativos, consolidando-se como o terceiro maior mercado global do TikTok. E o segredo desse sucesso reside no sofisticado algoritmo de recomendação desenvolvido pela ByteDance.

Diferentemente de outras plataformas que priorizam conexões sociais, o TikTok alimenta os usuários com um fluxo contínuo de conteúdo personalizado através da página “Para Você”, aprendendo preferências individuais a partir de cada interação.

O TikTok cresceu como nenhuma outra rede e domina o mundo graças a um algoritmo que aprende tudo sobre você. Imagem: Freepik
O TikTok cresceu como nenhuma outra rede e domina o mundo graças a um algoritmo que aprende tudo sobre você. Imagem: Freepik

O que é Douyin?

Como vimos, enquanto o mundo inteiro consome vídeos curtos no TikTok, poucos sabem que na China opera uma versão paralela e significativamente diferente: o Douyin.

Apesar de chinês, o TikTok não opera na China porque é bloqueado pelo Grande Firewall – o sofisticado sistema de censura chinês que controla o acesso à internet no país.

Assim como Wikipedia, Facebook e Instagram, o bloqueio do TikTok faz parte da estratégia do governo de controlar rigorosamente o fluxo de informações e garantir que apenas conteúdos aprovados estejam acessíveis aos cidadãos.

Leia também: A atuação das Big Techs e a regulamentação das redes sociais

E é aí que entra o Douyin: enquanto jovens ocidentais passam horas assistindo danças virais e trends de entretenimento no TikTok, jovens chineses no Douyin são expostos a conteúdos educacionais, científicos e patrióticos, com limites super rigorosos de tempo de tela.

Na China, a versão do TikTok é totalmente diferente: educa, disciplina e é rigidamente controlada pelo Estado. Imagem: GMA 
Na China, a versão do TikTok é totalmente diferente: educa, disciplina e é rigidamente controlada pelo Estado. Imagem: GMA

Douyin vs TikTok: duas versões, duas realidades

Hoje o TikTok e Douyin operam como plataformas fundamentalmente distintas, refletindo diferenças profundas entre os mercados chinês e internacional.

O Douyin, lançado em 2016 – um ano antes do TikTok -, alcançou mais de 700 milhões de usuários ativos diários na China.

Apesar do crescimento global do TikTok, o mercado doméstico chinês continua sendo a principal fonte de receita da ByteDance: em 2024, aproximadamente 75% da receita total de 155 bilhões de dólares veio de operações na China, principalmente através do Douyin, enquanto apenas 25% (39 bilhões de dólares) veio dos mercados internacionais onde opera o TikTok.

A diferença mais evidente entre as plataformas está no tipo de conteúdo promovido.

Enquanto o TikTok global é conhecido por danças virais, challenges e entretenimento leve, o Douyin enfatiza conteúdo educacional, científico e comercial.

Para usuários menores de 14 anos, o contraste é ainda mais dramático: o Douyin limita o uso a 40 minutos diários, bloqueia acesso entre 22h e 6h da manhã, e prioriza vídeos com experimentos científicos, aulas de idiomas e conteúdo patriótico.

Entre pausas nos vídeos, mensagens aparecem orientando usuários a “pousar o telefone” ou “ir para a cama”. Uma seção especial chamada “zheng nengliang” (energia positiva) exibe conteúdos promovendo os ideais do Partido Comunista Chinês.

Diferentemente do modelo vigente na China, as políticas digitais norte-americanas são estruturadas sob o princípio da liberdade de expressão — com um limite bem amplo — e da autorregulação das plataformas, o que faz com que o Estado intervenha muito pouco no consumo de internet pelos jovens.

Nos EUA, a principal regulação federal voltada para proteger menores de idade é a Children’s Online Privacy Protection Act (COPPA), que desde 2000 limita a coleta de dados de crianças menores de 13 anos, mas não estabelece controle de tempo de uso, tipo de conteúdo ou restrições comportamentais.

Leia mais: Controle social digital: quando o algoritmo vira autoridade

Impacto cultural do Tik Tok

O TikTok não apenas distribuiu conteúdo, ele criou uma nova linguagem visual e narrativa que se espalhou por todo o ecossistema digital.

O formato de vídeos verticais curtos, com transições rápidas, música sincronizada e edição dinâmica, tornou-se um padrão copiado por outras redes sociais e acabou forçando toda a indústria a se adaptar.

E esta transformação pode ter alterado como a informação é consumida, compartilhada e emocionalmente digerida pelo cérebro.

Um estudo publicado na revista NeuroImage demonstrou que usuários intensos de vídeos curtos apresentam menor atividade no pré-cúneo, região cerebral ligada à avaliação de riscos, tornando o comportamento do usuário mais impulsivo, além de apresentarem queda na velocidade de processamento de informações.

A preferência por conteúdo visual, rápido e algoritmicamente curado contrasta com formas anteriores de comunicação digital baseadas em texto ou conexões sociais.

Em 2022, Tristan Harris, cofundador do Centre for Humane Technology, destacou que enquanto pré-adolescentes chineses aspiram ser astronautas, jovens americanos almejam ser influenciadores. Harris descreveu o Douyin como “versão saudável” do TikTok, enquanto o resto do mundo recebe a “versão opiácea” – uma crítica que foi ecoada com declarações do presidente francês Emmanuel Macron acusando a China de “emburrecer” crianças europeias.

No Brasil, essa realidade não é diferente. Uma pesquisa da INFLR diz que 75% dos jovens brasileiros sonham em ser influenciadores digitais, um fenômeno comparável ao tradicional sonho de ser jogador de futebol.

Com o intenso uso de redes sociais no Brasil, é possível dizer que elas ajudam a moldar as vontades dos jovens brasileiros. Nesse contexto, o TikTok não escapa dessa lógica, já que, em nosso país, os usuários passam, em média, 3,5h por dia na plataforma, e 49% dos consumidores já compraram algo porque foram influenciados pelo conteúdo visto na rede

O TikTok mudou a forma de pensar, consumir informação e até de sonhar - e isso tem efeitos profundos na juventude global. Imagem: Arthur Mota
O TikTok mudou a forma de pensar, consumir informação e até de sonhar – e isso tem efeitos profundos na juventude global. Imagem: Arthur Mota

EUA x China e a disputa pela hegemonia digital

A relação entre Estados Unidos e TikTok se transformou em um dos principais campos de batalha da disputa geopolítica entre as duas potências.

Em abril de 2024, o Congresso norte-americano aprovou o Protecting Americans from Foreign Adversary Controlled Applications Act (Lei de Proteção dos Americanos contra Aplicativos Controlados por Adversários Estrangeiros), exigindo que a ByteDance vendesse as operações do TikTok nos EUA até 19 de janeiro de 2025.

As preocupações americanas giram em torno de três eixos principais: segurança de dados, influência algorítmica e controle narrativo.

Autoridades argumentam que o TikTok coleta quantidades massivas de informações sensíveis, desde localização, hábitos de navegação até padrões de consumo dos usuários e que esses dados poderiam ser acessados pelo governo chinês através da Lei Nacional de Inteligência da China de 2017.

Além da questão dos dados, preocupa aos EUA a capacidade do algoritmo do TikTok de moldar percepções e influenciar debates públicos. Com 170 milhões de usuários americanos, sendo maioria jovens da Geração Z, a plataforma tem poder significativo sobre a formação de opinião, e o governo dos EUA teme que a China possa manipular o algoritmo para promover narrativas favoráveis ao regime chinês.

Porém, vale lembrar que esse risco não é exclusivo de plataformas chinesas.

O escândalo da Cambridge Analytica, envolvendo o Facebook, mostrou como dados de milhões de usuários foram coletados indevidamente para criar perfis psicológicos e direcionar propaganda política nas eleições de 2016 – um retrato de que a manipulação algorítmica também já ocorreu dentro das próprias redes ocidentais.

A Suprema Corte dos EUA, ao confirmar a lei de banimento em janeiro de 2025, afirmou que, mesmo que a coleta de dados seja algo normal hoje em dia, o TikTok funciona em uma escala muito maior e pode ser influenciado por um “país adversário”. Por isso, merece um cuidado especial.

Saiba mais: Big techs recusam convite de audiência pública do governo para tratar da regulação

A disputa em torno do TikTok mostra que, por trás de uma simples tela cheia de vídeos curtos, existe uma batalha muito maior envolvendo cultura, economia, tecnologia e poder global.

Enquanto o Ocidente consome conteúdo de entretenimento em ritmo acelerado, a China molda o Douyin como uma ferramenta de educação, disciplina e alinhamento ideológico – evidenciando que plataformas semelhantes podem produzir impactos completamente diferentes conforme os interesses por trás delas.

Nesse cenário, entender como cada país usa algoritmos para influenciar hábitos, ambições e até visões de mundo deixa de ser uma curiosidade e se torna uma necessidade. A rivalidade entre EUA e China pelo controle das redes sociais e dos fluxos de informação mostra que a guerra do futuro não será apenas por territórios ou recursos, mas sim pela atenção e pela mente das pessoas. Por mais perigoso que isso seja.

 

O que você consome nas redes não é neutro e nem decidido por você. As big techs filtram o que aparece, priorizam o que engaja e escondem o que ameaça seu modelo. Para entender o que existe fora desse controle, Eduardo Moreira foi à China investigar outro arranjo possível entre tecnologia, Estado e informação. Exibição gratuita em 12 de abril, domingo, às 20h, ao vivo e sem replay. Garanta seu acesso.

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