Já é de conhecimento público que a CPI é quase um reality show da política, afinal, é com uma certa frequência que percebemos a alta demanda de criação ou pedido de criação de novas Comissões Parlamentares de Inquérito.
Mas o que exatamente é uma CPI ou CPMI, como ela é criada, quais são os critérios para escolher quando um assunto é mais urgente que o outro e, principalmente, quais são os impactos sociais e políticos de uma comissão com tanta visibilidade midiática?
Vamos entender essas e outras questões aqui.
O que é uma CPI?
Para entender o que é CPI, precisamos voltar à Constituição de 1988, que prevê em seu artigo 58 a possibilidade de criação de Comissões Parlamentares de Inquérito, conhecidas pela sigla CPI. Essas comissões têm como objetivo principal investigar fatos determinados com prazo certo de duração.
As CPIs têm poder de investigação próprio das autoridades judiciais, podendo convocar testemunhas, requisitar documentos, quebrar sigilos bancários e telefônicos, entre outras medidas.
Ao final das investigações, a comissão elabora um relatório com suas conclusões e o encaminha ao Ministério Público ou à Advocacia-Geral da União. Cabe a essas instituições avaliar possíveis responsabilizações civis ou criminais dos envolvidos, além de adotar outras providências.
A entidade que recebe o relatório tem o dever de informar sobre as ações tomadas — além disso, é comum que o documento final traga sugestões de mudanças na legislação vigente.
Um caso recente é a CPI das BETS que, durante as investigações, teve uma exposição midiática gigantesca e trouxe luz a questões tão importantes como a falta de mais regulamentação da atuação de influenciadores.
Por isso, os parlamentares começaram a discutir a criação de novas leis para evitar fraudes, manipulação de resultados e contratos suspeitos entre atletas e empresas de apostas.

Qual a diferença entre CPI e CPMI?
A diferença entre CPI e CPMI está na composição dos parlamentares envolvidos na investigação.
Enquanto a CPI é instaurada no âmbito de apenas uma das casas do Congresso Nacional – Câmara dos Deputados ou Senado Federal —, a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) integra representantes das duas casas, promovendo uma atuação conjunta.
Também é por essa razão que as CPMIs tendem a ter maior peso político, pois envolvem um consenso mais amplo do Poder Legislativo.
A formação da comissão, tanto nas CPIs quanto nas CPMIs, segue a proporcionalidade partidária, respeitando a representação dos partidos ou blocos com base no tamanho de suas bancadas.
Ou seja, quanto maior o número de parlamentares de um partido, maior seu número de cadeiras na comissão. A partir dos nomes indicados, são eleitos os ocupantes dos cargos de presidente, vice-presidente e relator.
Este último desempenha uma função central: é ele quem conduz a linha investigativa, analisa provas, organiza os depoimentos colhidos e redige o relatório final da comissão. Este documento pode incluir sugestões de prisões, recomendações ao Ministério Público e órgãos de controle, além de propor alterações legislativas.

Como se começa uma CPI
A abertura de uma CPI depende de um requerimento assinado por, no mínimo, um terço dos membros da casa legislativa em questão.
No caso da Câmara dos Deputados, são necessárias 171 assinaturas; enquanto no Senado, apenas 27. Após a formalização do pedido, a presidência da casa deve instalar a CPI e indicar os integrantes.
Foi esse o caminho seguido na criação da CPI da COVID-19, por exemplo.
O pedido ganhou força no início de 2021, impulsionado pela pressão da opinião pública, pela escalada do número de mortes e pela atuação considerada negligente do governo federal da época frente à pandemia.
Apesar da resistência inicial do então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou a instalação da CPI em abril de 2021, reconhecendo que os requisitos regimentais estavam atendidos — e assim foi dado início à investigação.

A formação do colegiado
Como vimos, a composição do colegiado de uma CPI respeita a proporcionalidade dos partidos e blocos parlamentares, e os membros são indicados pelas lideranças partidárias.
Em seguida, é realizada uma eleição interna entre os integrantes da CPI para definir quem ocupará os cargos de presidente, vice-presidente e relator.
O voto é aberto e realizado em sessão deliberativa da comissão. Apesar de ser uma escolha formalmente democrática, muitas vezes o resultado reflete acordos políticos prévios entre as lideranças.
É importante dizer que esses cargos são altamente cobiçados, porque, no fim do dia, acabam exercendo grande influência sobre o direcionamento dos trabalhos daquela comissão e sobre o tom político em geral da investigação.

As principais CPIs da história brasileira
As CPIs têm desempenhado um papel crucial na vida política do Brasil, funcionando como uma espécie de termômetro institucional e moral do Congresso Nacional.
Muitas dessas comissões expuseram esquemas complexos de corrupção, desvios de recursos e negligências administrativas que, em vários momentos, abalaram profundamente a opinião pública e a estabilidade dos governos.
Além de provocar renúncias, prisões e mudanças em ministérios e estruturas do Executivo, algumas CPIs ainda influenciaram decisões do Judiciário e contribuíram para a formulação de novas leis.
Afinal, o impacto dessas investigações vai além do campo legal: mexem com narrativas, agendas políticas e a percepção que a população tem sobre a ética na gestão pública. Vamos conhecer as principais CPIs aqui:
CPMI do P.C. Farias
A CPMI do P.C. Farias, em 1992, investigou as relações entre o tesoureiro de campanha de Fernando Collor de Mello e o presidente da República. A CPMI foi essencial para o processo de impeachment de Collor, marcando a primeira vez na história recente que um presidente perdeu o mandato por pressão popular e parlamentar.
CPI dos Anões do Orçamento
Essa CPI ficou marcada pela descoberta de um esquema bilionário de desvio de verbas do Orçamento da União, liderado por parlamentares que manipularam emendas.
Conhecidos como “anões”, pela pouca expressão política, esses deputados usaram a estrutura do Congresso para fins criminosos. A CPI de 1993 teve impacto direto na legislação sobre emendas parlamentares.
CPI do Apagão Aéreo
Esta CPI investigou as causas dos acidentes aéreos ocorridos no Brasil, como a colisão de um voo comercial da Gol e um jato em 2006, que resultou na morte de 154 pessoas.
A CPI do Apagão Aéreo, em 2007, revelou problemas graves na infraestrutura aeroportuária e nas condições de trabalho dos controladores de voo. Embora não tenha resultado em punições do alto escalão, por exemplo, serviu para reformular a gestão do setor.
CPI da COVID-19
Talvez a CPI mais midiática da história recente, como já contamos, a CPI da COVID-19 em 2021 investigou a omissão do governo federal na gestão da pandemia.
A comissão apontou negligências na compra de vacinas, colaboração com esquemas de corrupção e divulgação de fake news sobre a saúde pública. Apesar do amplo acervo de provas e depoimentos, poucas consequências práticas foram vistas até agora.

Quais são as consequências de uma CPI?
Embora tenham caráter investigativo, sem função condenatória, as CPIs podem gerar grandes impactos na política nacional.
Podem reforçar a percepção de justiça, pressionar o Judiciário e o Executivo a tomarem atitudes ou, em muitos casos, alimentar a imagem de impunidade, uma vez que várias CPIs se encerram sem efeito prático sobre os acusados.
Ainda assim, são importantes instrumentos de transparência e fiscalização.
A CPI e o impacto político
Não é segredo que as CPIs têm sido cada vez mais utilizadas como ferramenta política.
A disputa pelos cargos de presidência e relatoria é intensa, pois quem ocupa essas funções têm grande poder sobre o ritmo e o direcionamento das investigações.
Em tempos de polarização, a CPI pode tanto fortalecer o governo quanto desgastar a imagem dos adversários, dependendo do controle da narrativa. O mesmo vale para a CPMI, que, por sua composição mista, ganha contornos ainda mais polêmicos.
A cobertura midiática também contribui para esse uso político, transformando audiências em espetáculos que muitas vezes visam mais a opinião pública do que a responsabilização efetiva dos envolvidos.
Um bom exemplo foi a CPI da COVID-19, que ampliou de forma expressiva a audiência da TV Senado. Segundo dados da própria emissora, a transmissão das sessões levou a um aumento de 1.200% na audiência do canal no YouTube e fez disparar o número de acessos ao site institucional.
Esse crescimento não apenas demonstra o interesse popular pelas investigações, mas também revela como essas comissões se tornaram palco de disputas narrativas em rede nacional e digital, moldando opiniões e ampliando o alcance político de seus protagonistas.
Entender o que é CPI, como ela funciona e qual o seu impacto no jogo político é essencial para que a população acompanhe o debate público com senso crítico e participe de forma mais consciente da vida democrática do país.
As CPIs e CPMIs são ferramentas importantes de fiscalização e de pressão popular, capazes de revelar escândalos, influenciar decisões e criar um governo, ambiente e país mais transparente.
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