Por Marcelle Vieira Salles
Em entrevista ao podcast 15cast, produzido pelo Jornal Valor Econômico, o executivo-chefe da agência de publicidade BETC Havas, Erh Ray, afirmou que, quando falamos sobre I.A. e criatividade humana, o nosso repertório criativo é o que nos diferencia e nos possibilita descolar das habilidades e previsibilidades já apropriadas por esse tipo de tecnologia.
Sabemos que desde a emergência das IAs generativas (aquelas programadas para gerar ideias, imagens, vídeos, músicas, vozes, diálogos e textos), têm surgido questionamentos por parte de artistas, escritores e organizações do conhecimento, em face do sequestro substancial que essas tecnologias fazem dos direitos autorais.
E ainda que a inteligência artificial venha ser melhor regulada, é inevitável que se expanda e produza obsolescências nos diversos setores da economia.
I.A. e criatividade humana: o potencial do repertório criativo
Um ponto muito interessante é exposto pela opinião do executivo Erh Ray, no que diz respeito ao potencial da criatividade humana em driblar seus adversários tecnológicos e conduzir o jogo com mais artimanhas retiradas do nosso repositório criativo. Confesso que tal pensamento me levou a memórias do passado onde a criatividade corria mais naturalmente.
Em um passado não tão distante — a criatividade analógica
Em 1998, época em que a internet era discada e recurso raríssimo nos lares brasileiros, uma das principais distrações dos adolescentes era a televisão. Tenho muitas lembranças da minha rotina que consistia em chegar da escola, almoçar, ler páginas de algum dos livros da Coleção Vaga-Lume e passar o restante da tarde assistindo aos videoclipes da MTV ao lado do meu irmão.
Adorava ver seu polegar pressionando com força a tecla REC do controle remoto sempre após o anúncio do videoclipe que tanto aguardávamos. Era assim que podíamos rever atrações numa época sem Youtube.
Penso que a adrenalina que envolvia aquelas sequências diárias entre esperas e realizações acabam tornando insípidos nossos dias de impaciência, áudios acelerados e plataformas de streaming (tipo de tecnologia que transmite filmes, vídeos e áudios em tempo real), nos fazendo engolir velozmente muito entretenimento sem nos dar a devida chance de digerir e sentir a cadência das pausas.
É fato também que a monotonia dos dias analógicos do passado nos proporcionava circunstâncias para inventar e sermos mais manuais em nossas ideias. Às vezes sinto saudade da engenhosidade que o avanço da tecnologia fez sumir às nossas vistas.
A capacidade humana de inventar
Foi naquele tempo nostálgico, que meu irmão concebeu de enviar carta para que um dos nossos vídeos preferidos fosse transmitido na MTV.
Só sei que foi tão original o que ele criou que a apresentadora do programa Radiola, Chris Niklas, tornou a obra do meu irmão conhecida em cadeia nacional.
A carta dele era formada por uma fita VHS inutilizada, onde ele substituiu a bobina preta do filme por uma tira gigantesca emendada de papel e perfeitamente enrolada no mesmo espaço da bobina anterior.
Nessa tira de papel, ele escreveu a mensagem com o pedido para transmitirem o videoclipe. E por meio do pino instalado na caixa de plástico do VHS, a apresentadora conseguia girar a engrenagem e ler ao mesmo tempo o que estava escrito ali. Assim, além de alcançar o objetivo de gravar o tão desejado clipe, meu irmão superou as expectativas da produção do programa e ganhou prêmios que ainda guarda de recordação.
A importância de retomar o repertório criativo frente ao avanço da I.A.
Bem, quis contar essa história para ilustrar o fato de que nosso repertório de experiências (especialmente das pessoas com faixa etária 30+) pode ser o caminho para vencer o temor relativo à emergência e transformação acelerada das IAs, considerando também o inevitável desaparecimento de muitos negócios e funções que permanecem ainda ativos.
Afinal, o exemplo de criatividade que resgatei do meu passado, utilizou de recurso um tanto obsoleto para nós já naquela época, devido à tendência que se apontava com o lançamento dos aparelhos de DVDs.
Nesse sentido, quando falamos sobre I.A. e criatividade humana, é importante reforçar o retorno ao nosso repertório e refletir sobre as carências da natureza humana: educação, saúde, segurança, afeto, atenção, relações saudáveis, generosidade, descanso e arte em suas múltiplas formas. Indubitavelmente, todas essas demandas essenciais jamais serão plenamente satisfeitas pelas tecnologias.
Mesmo que encontremos IAs imitando conexões neurais, creio que não poderão superar o sentimento genuíno que a esperança carrega ao escrever carta em fita VHS para ser lida no futuro.
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