Meritocracia e desigualdade social no Brasil

Ideologia do mérito, racismo estrutural e disputas por cotas revelam como a meritocracia funciona para justificar privilégios
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A desigualdade social marca a história brasileira desde a colonização. Mesmo com avanços recentes na redução da pobreza, seguimos entre os países mais desiguais do mundo em renda, acesso à educação, saneamento, saúde e representação política.

Em 2023, por exemplo, o IBGE mostrou que 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza, mas o índice de Gini, indicador que avalia a distribuição de riqueza em um país ou grupo, continuou em 0,518, mostrando que a concentração de renda continuava praticamente intacta.

É justamente nesse cenário de desigualdade social que a ideologia do mérito ganha força. Ela promete um mundo em que “basta se esforçar” para vencer, mas até que ponto essa narrativa se sustenta diante dos dados sobre desigualdade social, raça e classe no Brasil?

Aqui vamos entender o que é a ideologia de mérito, seu contexto histórico e as relações com o atual cenário de desigualdade social no Brasil.

O que é a ideologia do mérito e o que chamamos de meritocracia?

A meritocracia é a ideia de que cada pessoa deveria ganhar de acordo com seu esforço, talento e dedicação. Na teoria, parece justo: quem se esforça mais deveria ganhar mais.

Mas a ideologia do mérito vai além disso. Ela faz parecer que as desigualdades sociais existem porque algumas pessoas se esforçam menos ou têm menos capacidade. Por exemplo: se alguém é de baixa renda, a culpa seria da falta de esforço dessa pessoa; se há poucos negros nas melhores universidades, o problema seria a “falta de preparo”; e não o fato de que as oportunidades são diferentes para cada um desde o começo.

A meritocracia funciona, na prática, como um discurso que esconde privilégios estruturais ao mesmo tempo que culpabiliza indivíduos e famílias pela própria situação.

Veja mais em: Saiba o que a meritocracia ignora: o esforço individual supera a desigualdade sistêmica?

A origem histórica da meritocracia

O próprio termo “meritocracia” nasce de uma crítica. A palavra tem origem híbrida, unindo o latim meritum (merecer, dignidade) e o grego kratos (poder, governo), significando literalmente “poder do mérito” ou “governo pelo merecimento”.

Ele aparece em 1958, no livro The Rise of the Meritocracy (A Ascensão da Meritocracia), do sociólogo britânico Michael Young, que é uma sátira: mostra uma sociedade em que testes de inteligência e desempenho escolar definem tudo e, em vez de justiça, produzem uma elite tão convencida do próprio mérito que passa a desprezar os pobres e a democracia.

Com o avanço do capitalismo industrial e, depois, do neoliberalismo, essa sátira virou programa político. A promessa era simples: se o mercado for “livre” e a educação abrir oportunidades iguais, a desigualdade social deixaria de ser um problema porque cada um estaria “onde merece estar”.

A crítica que Young fazia acabou sendo apropriada como o mundo ideal e a direita abraçou isso. Hoje, a meritocracia é parte da cultura do capitalismo contemporâneo que transforma tudo, inclusive a crítica, em mercadoria.

A charge retrata como a meritocracia ignora as desigualdades de origem: quem tem vantagem critica o outro por não alcançar o mesmo resultado. Imagem: Duke
A charge retrata como a meritocracia ignora as desigualdades de origem: quem tem vantagem critica o outro por não alcançar o mesmo resultado. Imagem: Duke

Mérito e capitalismo: por que a desigualdade social é funcional ao sistema

O capitalismo depende de hierarquias: há quem viva de salário e há quem viva dos lucros. Para que essa estrutura se mantenha, é preciso justificar por que alguns têm tanto e outros tão pouco. A meritocracia entra aí como justificativa moral da desigualdade social.

Na lógica capitalista, o sucesso de poucos é apresentado como prova de que qualquer um poderia “chegar lá”, apesar de, estatisticamente, isso quase nunca acontecer de verdade. O sociólogo Jessé Souza, por exemplo, defende que todo mérito individual é, na verdade, fruto de uma construção social.

Quando a ideologia do mérito diz que o pobre é pobre porque “não correu atrás”, ela desvia o olhar da estrutura: da forma como o mercado de trabalho explora, como o Estado investe mais em alguns territórios do que em outros, como a herança de riqueza mantém os ricos mais ricos por gerações.

Na foto, o sociólogo Jessé Souza, autor de livros como Pobre de Direita e A Elite do Atraso, referência na crítica à desigualdade social e à ideologia do mérito. Imagem: Claudia Araujo
Na foto, o sociólogo Jessé Souza, autor de livros como Pobre de Direita e A Elite do Atraso, referência na crítica à desigualdade social e à ideologia do mérito. Imagem: Claudia Araujo

Como a ideologia do mérito naturaliza a desigualdade social?

Para entender por que a meritocracia não funciona na prática, basta olhar os números.

Segundo dados do IBGE de 2023, mais de 1 em cada 4 brasileiros (27,4%) ainda vivia abaixo da linha de pobreza, mesmo com programas sociais em pleno funcionamento.

Além disso, trabalhadores brancos ganhavam 67,7% a mais por hora do que trabalhadores pretos ou pardos fazendo o mesmo trabalho. E quase metade (45,8%) dos trabalhadores pretos ou pardos estava na informalidade, sem carteira assinada nem direitos garantidos. Entre brancos, eram 34,3%.

Esses números deixam claro: a desigualdade não é resultado do esforço individual de cada um. Ela é construída pelo jeito como o Estado e o mercado distribuem oportunidades, salários e direitos.

O grande exemplo disso é o estudo “Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil“, do IBGE, que mostra que pessoas pretas e pardas estão em desvantagem em praticamente tudo: emprego, renda, educação, saneamento básico, violência e até representação política.

Mesmo assim, a ideologia do mérito insiste em tratar a desigualdade como um “retrato do esforço de cada um”.

É assim que ela disfarça a exclusão: se os dados mostram desigualdade, o problema seria a falta de empenho das pessoas e não o racismo estrutural, o machismo, a concentração de renda ou as escolhas da política econômica.

Se a ideologia do mérito fosse uma pessoa, Freud diria que isso é projeção: jogar nos outros a responsabilidade por problemas que são do todo. Neste caso, do sistema.

De um lado, piscina na varanda; do outro, moradias precarizadas. A imagem escancara a desigualdade social que a meritocracia insiste em chamar de “mérito”. Imagem: iStock
De um lado, piscina na varanda; do outro, moradias precarizadas. A imagem escancara a desigualdade social que a meritocracia insiste em chamar de “mérito”. Imagem: iStock

O caso Érica Bispo: quando o discurso de mérito esbarra na realidade

O episódio vivido pela professora Érica Bispo, doutora em Literatura, representa exatamente o que estamos falando.

Em 2024, ela foi aprovada em primeiro lugar em um concurso para docente de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa na USP. Após nove meses de espera, com concurso homologado e exames médicos feitos, seu resultado foi anulado depois de um recurso apresentado por seis candidatos brancos, que alegaram suspeita de parcialidade da banca.

A Defensoria Pública de São Paulo entrou com ação civil pública exigindo que a USP cumpra integralmente a política de cotas raciais nos concursos para docentes e técnicos – política que, na prática, é dificultada por editais que costumam oferecer apenas uma vaga, o que impede a reserva prevista nas normas internas.

Érica relata ter percebido um componente discriminatório claro: seis pessoas brancas contra uma candidata negra em uma área diretamente ligada à literatura africana. O caso mostra como, mesmo em instituições que se afirmam meritocráticas, decisões políticas e raciais atravessam o que é considerado “mérito”.

Afinal, é sob o discurso de que “o melhor deve vencer” que muitas vezes se esconde o incômodo com a presença de pessoas negras em posições de prestígio. Não por acaso, as políticas de cotas – que são justamente mecanismos para enfrentar a desigualdade social racializada – são atacadas em nome da “meritocracia”.

Como o racismo institucional desmonta a ideia de seleção puramente meritocrática. Imagem: Renner Boldrino
Como o racismo institucional desmonta a ideia de seleção puramente meritocrática. Imagem: Renner Boldrino

Existe alternativa à lógica meritocrática?

Questionar a meritocracia não significa dizer que o esforço não importa, mas, sim, recusar a farsa de que o esforço individual, sozinho, dá conta de superar uma desigualdade social construída historicamente.

Alguns caminhos para além da lógica meritocrática incluem, em primeiro lugar, políticas universais e redistributivas como programas sociais robustos, cobrança de impostos maiores sobre grandes fortunas e lucros, fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) e da escola pública.

Os próprios dados do IBGE que vimos aqui mostram que sem esses programas a pobreza e extrema pobreza seriam muito maiores. Outro caminho são as ações afirmativas e a reparação histórica.

Cotas raciais em universidades e concursos públicos são respostas a um padrão de exclusão que não se resolve sozinho. Elas reconhecem que igualar oportunidades exige enfrentar o racismo e passar a aceitar que a desigualdade social tem cor e classe.

Também é necessária a democratização do poder econômico e político. A perspectiva da esquerda política valoriza participação popular, controle da sociedade sobre políticas públicas e fortalecimento de movimentos sociais. Isso significa tirar do mercado e das elites o monopólio de decidir o futuro da sociedade.

Veja mais: Esquerda política: origem, valores e desafios no mundo atual

A discussão sobre meritocracia e desigualdade social no Brasil mostra que não estamos falando de escolhas individuais, mas de um sistema inteiro organizado para produzir e reproduzir privilégios.

Quando olhamos para os dados de renda, raça, gênero e território, fica evidente que o ponto de partida das pessoas é radicalmente desigual.

Ainda assim, o discurso do “basta se esforçar” é usado para justificar que poucos concentram riqueza enquanto muitos seguem sem direitos básicos. Casos como o de Érica Bispo, as críticas de Jessé Souza e as imagens que escancaram a separação entre favela e condomínio de luxo revelam o quanto a ideologia do mérito serve para mascarar o racismo estrutural e a exploração de classe.

Enfrentar a desigualdade social exige ir além da meritocracia: é preciso fortalecer políticas públicas redistributivas, ações afirmativas, participação popular e projetos coletivos de transformação.

Só assim o mérito individual poderá existir sem ser mais uma desculpa para manter tudo como está.

Para transformar a realidade, é preciso romper com as estruturas que sustentam a desigualdade social e, para isso, é preciso enxergá-las. Se você quer se aprofundar no assunto e aprender as ferramentas essenciais para questionar o mundo ao nosso redor e transformá-lo, conheça a pós-graduação do ICL em Teoria Crítica da Sociedade e tenha aulas com os principais nomes do Brasil e do mundo, como Jessé Souza, Marcia Tiburi e Nancy Fraser.

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