Por Leila Cangussu
A palavra “esquerda” carrega séculos de história, lutas e transformações. Ela não representa apenas um lado no espectro político, mas uma visão de mundo: a defesa da igualdade, da solidariedade e da justiça social.
Ao longo do tempo, porém, o termo foi distorcido. No Brasil e no mundo, a esquerda política passou a ser alvo de campanhas de desinformação, que transformaram ideias progressistas em caricaturas e criaram uma falsa guerra moral entre “cidadãos de bem” e “inimigos da nação”.
Com base nas reflexões do sociólogo Jessé Souza, autor do livro Por que a esquerda morreu, este artigo explica como a esquerda surgiu, o que ela defende, como foi atacada e o que precisa fazer para se reconectar com o povo.
Mais do que um debate ideológico, entender a esquerda política é entender o papel da consciência na luta por um país mais justo.
O que é esquerda política?
A esquerda política é o conjunto de ideias, movimentos e partidos que buscam reduzir desigualdades e garantir direitos coletivos. Seu princípio é simples: ninguém é livre em uma sociedade injusta.
Enquanto a direita defende que o mercado e o mérito individual são os motores do progresso, a esquerda acredita que a liberdade verdadeira exige igualdade de condições, o que só é possível com políticas públicas, solidariedade social e participação popular.
Para Jessé Souza, a esquerda nasceu quando os oprimidos deixaram de se enxergar como indivíduos isolados e passaram a se reconhecer como parte de uma classe explorada. Esse processo — o surgimento da consciência de classe — foi o primeiro passo da luta por direitos políticos, econômicos e humanos.
Como surgiu a esquerda política?
A origem da esquerda política está ligada à Revolução Francesa (1789–1799), no final do século XVIII.
Na época, os integrantes da Assembleia Nacional se dividiam fisicamente conforme suas ideias: de um lado, os que defendiam a manutenção da monarquia e dos privilégios da nobreza; do outro, os que lutavam por uma sociedade mais igualitária, guiada pelos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade.
Esse gesto simbólico atravessou os séculos. A partir dele, “esquerda” passou a significar mudança, emancipação e justiça social, enquanto “direita” se associou à manutenção da ordem e dos privilégios.
No século XIX, com a Revolução Industrial, o capitalismo transformou profundamente a sociedade. Milhares de pessoas foram expulsas do campo e passaram a trabalhar nas fábricas em jornadas exaustivas, sem direitos. Foi nesse cenário que a classe trabalhadora começou a se organizar e a criar uma cultura política própria.
Como explica Jessé Souza, a consciência de classe não nasce da teoria, mas da experiência de vida — das longas jornadas, da exploração, da fome e da injustiça. Os trabalhadores se uniram em sindicatos, movimentos e partidos que passaram a reivindicar direitos civis, políticos e sociais.
A esquerda política no Brasil
No Brasil, a esquerda tem raízes nos movimentos abolicionistas e operários do século XIX. Mas foi no século XX que ela ganhou força política, especialmente durante a ditadura militar (1964-1985), quando artistas, estudantes e trabalhadores resistiram à repressão e defenderam a democracia.
Com a redemocratização, o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) em 1980 representou uma virada histórica: pela primeira vez, o povo organizado chegava à política institucional. A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, simbolizou o auge dessa trajetória, com a ascensão de um operário à Presidência da República.
Durante os governos progressistas, o Brasil reduziu a pobreza, ampliou o acesso à universidade, valorizou o salário mínimo e fortaleceu a soberania nacional. Mas, como explica Jessé Souza, os avanços da esquerda despertam inevitavelmente a reação das elites, que recorrem à mídia, à moral e à religião para reconstruir a dominação.
Do cidadão ao consumidor
Em Por que a esquerda morreu, Jessé Souza identifica um ponto de virada decisivo na história: a transformação do cidadão em consumidor.
Durante o século XX, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, as elites perceberam que era possível controlar o povo não pela força, mas pelo desejo. O capitalismo criou uma nova forma de dominação: em vez de reprimir o trabalhador, ofereceu conforto, crédito e consumo.
Nas palavras de Jessé, foi a “vingança dos super-ricos”. Os altos salários e o acesso a bens materiais trouxeram uma sensação de liberdade — mas uma liberdade limitada, baseada no consumo e na individualidade, e não na cidadania e na participação política.
Enquanto a classe média se tornava “satisfeita” e apática, as estruturas de poder continuavam concentradas nas mãos das elites. O cidadão que antes se via como parte de uma coletividade passou a se enxergar como cliente, competindo com os outros e medindo o valor da vida pelo que podia comprar.
A manipulação da consciência
Essa mudança não foi natural. Ela foi planejada e teve como base a manipulação da informação e da opinião pública.
Jessé Souza cita pensadores como Walter Lippmann e Edward Bernays, que, nos Estados Unidos do início do século XX, desenvolveram as primeiras teorias sobre propaganda e persuasão em massa.
Lippmann dizia que as pessoas não enxergam a realidade diretamente, mas através de “pseudoambientes”, que eram versões filtradas do mundo, construídas pela mídia e pela cultura. Bernays, sobrinho de Freud, aplicou a psicanálise à publicidade e criou o conceito de “manufatura do consentimento”: o processo de moldar a opinião das pessoas por meio de símbolos, emoções e mentiras convenientes.
Com isso, a esfera pública — o espaço do debate racional e da crítica — foi substituída por um teatro de aparências. A democracia virou marketing, o voto virou produto e o cidadão virou público-alvo.
Segundo Jessé, é aqui que começa a morte simbólica da esquerda: quando a luta por direitos perde espaço para a luta por curtidas, consumo e status.
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O papel da esquerda e seus valores fundamentais
Mesmo diante dessa distorção, a esquerda política continua sendo sustentada por quatro pilares fundamentais:
- Justiça social: combate à pobreza, redistribuição de renda e defesa dos serviços públicos universais.
- Igualdade de oportunidades: acesso à educação, moradia, emprego e cultura como base da cidadania.
- Progressismo social: defesa dos direitos humanos, da diversidade e da inclusão de grupos historicamente marginalizados.
- Intervenção do Estado: atuação pública para regular o mercado, proteger os trabalhadores e reduzir desigualdades.
Esses valores nasceram com as lutas dos trabalhadores do século XIX e continuam sendo o eixo da disputa política no século XXI. No entanto, como observa Jessé Souza, a esquerda falhou em se adaptar à nova forma de dominação capitalista: a dominação pela mente e pela emoção.
Os desafios da esquerda para se reinventar
A crise da esquerda política é também a crise da educação crítica. Durante boa parte do século XX, sindicatos, partidos e movimentos sociais foram escolas de consciência, espaços onde o povo aprendia a ler o mundo.
Mas, nas últimas décadas, o capitalismo globalizado substituiu o diálogo pela competição, e as redes sociais transformaram a política em espetáculo. Enquanto a extrema direita aprendeu a usar linguagem simples, memes e emoções, a esquerda permaneceu falando para iniciados, em jargões técnicos e discursos abstratos.
Jessé Souza afirma que a esquerda morreu quando deixou de formar cidadãos e passou a disputar cargos. Ela se institucionalizou, perdeu o vínculo orgânico com as bases e deixou o povo à mercê da manipulação midiática e religiosa.
Reconstituir essa conexão é o grande desafio do presente: voltar a falar com quem foi ensinado a odiar a política.
Reerguer a esquerda é reerguer a consciência crítica
Jessé Souza propõe uma saída: ressuscitar a esquerda é ressuscitar a consciência crítica. Isso não significa apenas eleger governos progressistas, mas reconstruir o sentido coletivo da política. Significa ocupar novamente os espaços de formação — escolas, universidades, igrejas, redes sociais — com pensamento, diálogo e solidariedade.
É preciso reconstruir a esfera pública, onde as pessoas possam debater ideias e não apenas reagir a emoções fabricadas. Como lembra o autor, o verdadeiro inimigo não é o outro cidadão, mas o sistema que transforma todos em consumidores alienados.
Ressuscitar a esquerda, portanto, é relembrar que a democracia só é real quando o povo entende o seu próprio poder.
O inimigo invisível: o capitalismo que corrompeu tudo
O “inimigo” da esquerda política, segundo Jessé Souza, não é uma pessoa ou um partido, mas um sistema que se disfarça de liberdade.
O capitalismo aprendeu a absorver a crítica e vendê-la de volta como mercadoria. Transformou rebeldia em marketing, empatia em campanha, fé em produto. Ele corrompeu até as palavras: “liberdade” virou “livre mercado”, “meritocracia” virou desculpa para desigualdade, e “empreendedorismo” virou eufemismo para precarização.
Esse é o capitalismo que venceu ao colonizar a mente. O que convence o trabalhador a se orgulhar de ser explorado e a enxergar no seu semelhante o inimigo. O que transforma cidadãos em consumidores, e a política em vitrine.
Reverter isso exige um novo projeto de consciência nacional, baseado em educação crítica, solidariedade e soberania popular.
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O papel da esquerda no século XXI
A tarefa da esquerda política hoje é reconectar-se com o povo e recuperar o sentido da política como instrumento de libertação. Não se trata de repetir fórmulas antigas, mas de compreender um mundo novo, pautado pela tecnologia, pela velocidade da informação e pela disputa simbólica nas redes.
Em um cenário de desigualdade profunda e de enfraquecimento da vida coletiva, a esquerda precisa voltar a falar a língua das pessoas comuns, sem abrir mão da complexidade dos temas que enfrenta. É hora de unir razão e emoção, pensamento crítico e sensibilidade humana.
Esse processo passa por três frentes principais:
1. Reconstruir o diálogo com as bases populares.
É preciso voltar a ouvir o povo — suas dores, crenças e esperanças — sem arrogância intelectual. A escuta deve vir antes do discurso. O diálogo real nasce do reconhecimento das experiências cotidianas, da fé, do trabalho, da cultura e da luta de quem sustenta o país.
2. Combater a desinformação com educação e afeto.
Não basta desmentir fake news; é preciso disputar corações e mentes com empatia, verdade e escuta ativa. A educação política precisa voltar a ser prática cotidiana, e não apenas pauta acadêmica. A consciência não se impõe — se constrói, com paciência, linguagem simples e exemplos concretos.
3. Propor um novo pacto civilizatório.
O século XXI exige um projeto que combine sustentabilidade, justiça econômica e valorização da vida humana sobre o lucro. Isso significa repensar o modelo de desenvolvimento, enfrentar o racismo estrutural, promover igualdade de gênero e colocar o bem-estar coletivo no centro das decisões políticas.
Mais do que vencer eleições, a missão da esquerda é reconstruir o sentido da solidariedade em um mundo que tenta nos convencer de que estamos sozinhos. A esquerda só renascerá se for capaz de traduzir seus valores em linguagem simples e acessível, mostrando que igualdade não é utopia, mas sim, necessidade, e que liberdade não existe sem justiça social.
Reconstruir o futuro é reconstruir a consciência
A esquerda política surgiu de disputas reais: das greves operárias, das lutas por direitos, da resistência a governos autoritários. Sua história é marcada por enfrentamento, organização e conquista.
Mas as formas de dominação mudaram e, hoje, o controle se exerce menos pela repressão e mais pela manipulação.
Como explica Jessé Souza, o poder atual se sustenta na distração e na desinformação, convertendo a política em espetáculo e o cidadão em espectador. Nesse ambiente, o primeiro passo para transformar a realidade é recuperar a capacidade de pensar criticamente e agir coletivamente.
Reconstruir o futuro significa devolver à política o seu propósito: garantir condições de vida dignas, reduzir desigualdades e proteger o interesse público. E isso depende de consciência. Não no sentido abstrato, mas prático: entender quem decide, quem lucra e quem perde em cada escolha feita no país.
Essa reconstrução não é tarefa exclusiva dos partidos ou governos. Ela passa por todos os espaços onde se formam percepções: a escola, a imprensa, a cultura e o cotidiano das redes. A esquerda só cumprirá seu papel se for capaz de retomar o diálogo com a sociedade real, aquela que trabalha, estuda, cria seus filhos e tenta sobreviver. Não se trata de “voltar ao passado”, mas de encarar as novas