Por Iago Filgueiras
Você se senta no sofá, abre um livro, lê algumas páginas e, de repente, percebe que já não está mais prestando atenção. O livro nem sequer está em suas mãos. As páginas de papel deram lugar às páginas do Instagram. O folhear deu lugar à rolagem do feed e você nem mesmo se recorda do último post que viu. No fundo, passa-se muito tempo lendo, mas pouco absorvendo o que acabou de ser lido.
O excesso de informação criou uma situação curiosa: temos mais acesso ao conhecimento, mas menos tempo para permanecer diante de uma única ideia. Entre uma notificação e outra, vídeos curtos, manchetes, comentários e novos conteúdos disputam continuamente a atenção. A leitura, especialmente aquela que exige tempo, concentração e profundidade, passou a competir com um ambiente construído para que o usuário nunca termine de consumir.
A leitura profunda tem perdido cada vez mais espaço. Se engajar em um romance, acompanhar um argumento por dezenas de páginas ou voltar um parágrafo para entender uma ideia não são atividades compatíveis com a lógica da rolagem infinita. Elas exigem continuidade, memória, concentração e disposição para permanecer diante de algo que não oferece uma recompensa imediata.
O debate vai além do número de livros lidos por cada um. O que acontece com nossa capacidade de ler quando quase tudo ao nosso redor foi projetado para sequestrar nossa atenção?
O excesso de informação também é um excesso de estímulos
Durante boa parte da história, o problema relacionado à informação era diferente: a escassez. Os livros eram inacessíveis, as bibliotecas eram restritas aos nobres e o acesso ao conhecimento era mediado por instituições, professores e pela Igreja. Tudo isso em um cenário que já impunha uma outra dificuldade enfrentada pela grande maioria da população: pouca gente sabia — e tinha permissão para — ler.
Hoje, no entanto, o desafio nem sempre é encontrar a informação em si. Às vezes, ela chega até nós, mesmo contra nossa vontade. A escassez deu lugar ao excesso e, em meio a uma quantidade inesgotável de conteúdos, decidir o que, de fato, merece nossa atenção tornou-se quase impossível.
Em muitos sentidos, o acesso ampliado à informação democratizou conhecimentos que antes estavam restritos a determinados grupos. Mas a abundância também criou um novo problema. Basta olhar para a lista de conteúdos digitais salvos para perceber: acumulamos reels, posts, reportagens e vídeos para “ver depois” que, na maioria das vezes, nunca mais serão revisitados.
Na década de 1970, o economista Herbert Simon já havia identificado que a abundância de informações produz uma escassez de atenção. Isso, segundo ele, levaria a um estado em que o foco se tornaria uma mercadoria valiosa: a Economia da Atenção. Décadas depois, a expansão das plataformas digitais e de uma economia digital baseada na disputa por atenção e no engajamento levou essa ideia a uma dimensão inédita.
É uma arquitetura muito eficiente para o consumo contínuo, mas incompatível com uma lógica em que o ponto final realmente significa um fim.

Afinal, o que é leitura profunda?
Ler vai muito além de percorrer uma série de símbolos gráficos com os olhos. Quando uma pessoa acompanha uma história, se esforça para compreender um argumento ou volta algumas linhas porque deixou passar algo, diferentes processos ocorrem ao mesmo tempo. A leitura exige atenção, memória, interpretação e capacidade de relacionar aquilo que está diante dos olhos ao repertório construído ao longo da vida.
É essa experiência que define o conceito de leitura profunda. Um processo que vai além da identificação de informações, mas envolve a compreensão de ideias, a criação de conexões entre assuntos, interpretação de nuances e o questionamento sobre aquilo que foi lido. No fundo, é um processo em que a leitura vem acompanhada de reflexão.
Como a economia da atenção captura nosso foco
Se a leitura profunda depende de atenção prolongada, o ambiente digital oferece quase tudo o que pode interrompê-la. As notificações pipocam na tela do celular e os ecossistemas digitais foram desenvolvidos para assegurar a permanência do usuário. O celular ocupa uma parte tão relevante do dia a dia que ter a sensação de que ele vibrou no bolso, mesmo quando o aparelho não está com você, já é um fenômeno reconhecido pela ciência e tem até nome: síndrome da vibração fantasma.
Esse ambiente de excesso de informação faz com que não sobre tempo para se aprofundar em muita coisa. Os vídeos curtos se tornaram comuns em quase todas as redes sociais mais utilizadas. Somado a isso, existe até mesmo a possibilidade de aumentar a velocidade de reprodução e reduzir ainda mais a duração de um conteúdo.
Tudo isso modificou a forma como interagimos com a informação e, consequentemente, tem transformado nosso relacionamento com a leitura. Isso não significa uma defesa do livro de papel como a única forma de acessar conhecimento ou uma hierarquização de leituras boas ou ruins. O que importa não é necessariamente o gênero ou o formato, mas a relação estabelecida com o texto. Uma leitura profunda pode acontecer em algumas páginas e uma leitura superficial pode ocupar centenas delas.
Como a rolagem infinita transformou a distração em modelo de negócio?
O volume de conteúdo competindo pela atenção é enorme. Segundo a 12ª edição do relatório Data Never Sleeps, da consultoria Domo, em um minuto mais de 16 mil vídeos são publicados no TikTok; 362.962 horas de conteúdo são assistidas na Netflix e 5,9 milhões de buscas são feitas no Google.
Em todo o mundo, são mais de 5,7 bilhões de usuários de redes sociais. Tudo isso em um universo de 8,3 bilhões de habitantes. Ou seja, a cada dez pessoas, sete utilizam plataformas. Por isso, conquistar a atenção do usuário é parte central do modelo de negócios dessas empresas.
Para assegurar isso, uma série de estratégias são adotadas pelas big techs. O feed de rolagem infinita faz com que não exista a necessidade de buscar ativamente um conteúdo; ele mesmo vem até você.
Para garantir o engajamento na plataforma, sofisticados algoritmos de recomendação entram em cena. Cada interação ajuda a determinar aquilo que aparecerá depois: o vídeo assistido até o fim, a publicação que recebeu uma curtida, o assunto que fez alguém parar por alguns segundos. A plataforma aprende com o comportamento do usuário e reorganiza continuamente o fluxo para aumentar a possibilidade de que ele continue ali.
Esses algoritmos não funcionam misteriosamente. A verdade é que eles são bem pragmáticos: quanto mais tempo o usuário permanece em uma plataforma, mais oportunidades existem para exibir publicidade, coletar dados e produzir novas interações. A economia da atenção, teorizada pelo economista Herbert Simon, é um fato.
Quando toda leitura vira uma disputa pela atenção
Como resultado, a interrupção se torna uma constante. O usuário busca um termo na internet e, de repente, já navegou por dezenas de páginas na Wikipedia. Enquanto rola o feed de uma rede social; dezenas de notificações de outras já chegaram. Mas, com o celular integrado à vida cotidiana, essas distrações extrapolam a esfera online. Enquanto você lê um livro, a vibração do celular já se torna um gatilho para desviar o foco.
Acostumados à rapidez do feed, muitos passaram a esperar que qualquer conteúdo ofereça recompensas imediatas. Quando isso não acontece, cresce a sensação de que o texto é longo demais, lento demais ou difícil demais.
Mesmo quando nenhuma dessas coisas acontece, existe a expectativa de que alguma novidade possa surgir a qualquer momento. Por isso a questão é complexa: não estamos lendo menos ou prestando menos atenção naquilo que foi lido por uma escolha ou fraqueza individual. Não existe uma disputa equilibrada entre uma pessoa se esforçando para manter o foco e sistemas digitais desenvolvidos meticulosamente para explorar gatilhos mentais e capturar, medir e prolongar a atenção.
O que perdemos quando deixamos de ler profundamente?
A dificuldade de permanecer diante de um texto por muito tempo não é só uma questão de paciência ou dedicação. Os impactos decorrentes dessa transformação na forma como focamos e no tipo de conteúdo que consumimos podem ter implicações mais profundas.
A neurocientista estadunidense Maryanne Wolf, diretora do Center for Dyslexia, Diverse Learners, and Social Justice da Universidade da Califórnia em Los Angeles, propõe que, diferentemente da fala, a leitura não é uma habilidade natural.
O ser humano, enquanto espécie, caminha pela Terra há cerca de 300 mil anos. A escrita, por outro lado, é uma invenção relativamente recente e o primeiro registro histórico remonta à escrita cuneiforme criada pelos sumérios há quase 6 mil anos.
Esse processo, embora recente, tem sido responsável por produzir transformações no cérebro humano. Em entrevista à BBC, Wolf afirma que “ler literalmente muda o cérebro”. A leitura profunda obriga o cérebro a estabelecer novas conexões entre áreas visuais, emocionais, de raciocínio lógico e de linguagem. Tudo isso impacta profundamente na capacidade de refletir e compreender a realidade.
A questão se torna mais séria quando pensamos no que uma leitura prolongada permite fazer e que não é facilmente substituído pelo consumo fragmentado de informação.

Nem tudo cabe em um vídeo de 30 segundos
Uma das consequências da fragmentação da atenção é a dificuldade de acompanhar ideias complexas. Nem todo argumento pode ser compilado em uma frase, assim como um vídeo de poucos segundos não pode explicar profundamente uma teoria científica, um fato histórico ou um problema social. Quando nos acostumamos a consumir conteúdos cada vez mais curtos, cresce também a expectativa de que qualquer explicação deva ser rápida, simples e definitiva.
A psicóloga Gloria Mark, professora de informática na Universidade da Califórnia, monitora, desde os anos 2000, o tempo médio que as pessoas passam focadas em uma tarefa. Em entrevista ao podcast da Associação de Psicologia dos Estados Unidos, ela afirmou que por volta de 2004, era de 2,5 minutos. Já em 2020, era de cerca de 40 segundos.
O impacto esperado é que as pessoas dediquem cada vez menos tempo à leitura, já que livros e textos longos seguem uma lógica oposta. Em geral, eles desenvolvem o raciocínio aos poucos, apresentam contexto, evidências, contrapontos e contradições. Ao finalizar um livro, em vez de obter uma resposta, muitas vezes o leitor fica com mais perguntas. A leitura funciona como uma ferramenta capaz de mostrar que a compreensão da realidade dificilmente pode ser resumida a uma causa ou solução.
Isso extrapola a literatura. Interpretar uma reportagem investigativa, compreender uma pesquisa científica, acompanhar um julgamento ou avaliar uma proposta política exige atenção suficiente para conectar informações, identificar nuances e reconhecer que diferentes problemas demandam análises igualmente complexas.
Leia mais: Conheça os benefícios de trocar as redes sociais por um livro
Memória, repertório e compreensão
A leitura profunda também desempenha um papel importante na construção da memória e do repertório. Compreender um romance ou um ensaio depende de manter informações anteriores ativas enquanto novas ideias são incorporadas. Um personagem apresentado no primeiro capítulo pode ganhar outro significado centenas de páginas depois. Um conceito explicado no início do livro pode transformar completamente a interpretação de um capítulo final.
Segundo a neurocientista Maryanne Wolf, esse processo fortalece circuitos cerebrais ligados à linguagem, à memória, ao raciocínio e à empatia. Não por acaso, pesquisas também associam o hábito da leitura ao envelhecimento cognitivo mais saudável. Um estudo da Universidade Rush, em Chicago, identificou que idosos que mantiveram atividades de leitura e escrita ao longo da vida apresentaram um declínio cognitivo significativamente mais lento do que aqueles que raramente liam.
A leitura não ajuda simplesmente a preservar a capacidade de lembrar de coisas, mas fornece um conjunto de referências que permite interpretar acontecimentos, relacionar ideias e compreender o presente à luz de experiências, histórias e conhecimentos acumulados.
Ler profundamente também é uma forma de resistir
Ler profundamente não garante, por si só, que alguém pense de maneira crítica. Um livro também pode reproduzir preconceitos, apresentar argumentos frágeis ou simplesmente estar errado. Mas a experiência de acompanhar uma ideia, confrontá-la com outras e construir uma interpretação própria oferece uma espécie de treinamento para lidar com a complexidade.
O risco do excesso de informação, portanto, não é apenas saber menos. É poder passar por uma quantidade cada vez maior de conteúdos sem necessariamente transformar aquilo que consumimos em conhecimento, repertório ou compreensão.
Quanto mais acelerado é o fluxo de conteúdos, maior tende a ser a pressão por respostas simples para problemas complexos. Narrativas reducionistas, desinformação e discursos polarizados encontram terreno fértil quando falta tempo ou referências para contextualizar, verificar e refletir.
A ideia não é rejeitar a tecnologia ou abandonar completamente as redes sociais. Mas reconhecer a importância de reservar um momento para que a atenção seja exercida e ideias complexas possam ser desenvolvidas.
No entanto, não conseguir reservar tempo para ler profundamente não pode se tornar mais um fator de estresse e frustração. Em meio à rotina agitada, às longas jornadas de trabalho e ao enorme tempo gasto no transporte público, por exemplo, reivindicar espaço para si mesmo envolve questionar como o tempo é distribuído na sociedade e quem tem o direito de dispor dele.
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É possível recuperar a leitura profunda?
Se a leitura não é exatamente uma habilidade natural, mas desenvolvida, isso significa que ela pode ser cultivada, praticada e aprimorada. Assim como nos acostumamos a um ambiente de interrupções constantes, também podemos — na medida do possível — recuperar momentos de concentração.
Pequenas mudanças, como reservar um tempo livre de notificações, concluir um capítulo de um livro antes de consultar o celular ou dedicar atenção a textos mais longos, ajudam a reconstruir um hábito que depende, acima de tudo, de prática.
Mas talvez exista um outro aspecto importante: a leitura não precisa ser uma experiência solitária. Compartilhar interpretações, ouvir perspectivas diferentes e discutir uma obra amplia a compreensão do texto e revela aspectos que dificilmente seriam percebidos por um único leitor. Ler pode ser também um espaço de diálogo e construção coletiva de conhecimento.
Em um cenário de excesso de informação, recuperar a leitura profunda não significa ter mais livros empilhados na estante ou competir para saber quem lê mais em um ano, mas resgatar, ou aprofundar, a capacidade de compreender o que foi lido. Quando tudo disputa nossa atenção, escolher permanecer diante de uma ideia por mais de dez segundos pode ser uma das formas mais valiosas de preservar a capacidade de pensar criticamente e se colocar no mundo.